sábado, 21 de março de 2020

O poeta e poema

Dedicado à mui nobre arte da poesia.

O poeta e o poema

Um dia, o poeta arrastou o poema pela linha do pensamento. O poema veio de arrasto, arrasado, sem saber o que dera ao poeta naquele dia.
Quando chegaram, finalmente, à folha de papel, o poeta soltou a linha do pensamento e o poema, enfim livre, suspirou de alívio.
Sorrindo, o poeta pegou carinhosamente no seu poema e pousou-o na folha branca.
Pouco a pouco, o poema começou a ganhar ganhar forma, enchendo-se de palavras belas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Atraso pontual

Atraso Pontual

Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

( Paulo Leminski )

De Carl Johan Jensen

Eu
E vês a folha
que oscila por um átimo
no ar agitado
sobre as cinzas
em brasa? —

Tu
tu és a mão que alivia
e a chuva que liberta
tu és lua e estrela
saibro sob meus pés
tu és oceano suspirando
e a palavra que será


Carl Johan Jensen (n. 2 de dezembro de 1957 em Tórshavn, capital do arquipélago das Feroés)

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Para além da memória, de Miguel Babo

Se eu tivesse que adjetivar, "Para além de memoria", (com link) o filme realizado e simultaneamente interpretado por Miguel Babo, diria que é um filme bonito e poético. 
A beleza e a poesia estão lá. São ambas visíveis na qualidade fotográfica do filme, na sensualidade dos gestos e das vozes, na própria banda sonora, nas relações que se estabelecem e até mesmo na forma como é retratada esta misteriosa caixa humana de armazenamento de informação, que é a memória. 

Sinopse: Após a morte do seu irmão, ocorrida em circunstâncias suspeitas, Alexandre (Miguel Babo), escritor, divorciado e pai de 3 filhas, vê-se encurralado com as dívidas deixadas pelo mesmo. Perante a necessidade de proteger a casa dos pais, onde residem os resquícios de memória da mãe que sofre de Alzheimer (Lídia Franco), decide pedir ajuda a um amigo, ministro, para lidar com as comprometedoras dívidas do irmão para com um indivíduo relacionado ao mais alto nível com os governos português e angolano. Numa confusa sucessão de ligações, conhece Laura (Gabriela Moreyra), uma stripper, que acaba por ser moeda de troca nesta relação de dívidas, comprometimentos sentimentais e familiares.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

DesAmor

No amor, dizem, não há medida, na medida em que a única medida do amor é amar sem medida. Quem ama, ama. Nem muito. Nem pouco. Nem assim assim.
Ama-se sem reticências. Ama-se ponto final.
Assim como não é quantificável, dificilmente se pode qualificar.
Amor bom? Amor mau? Amor de primeira? Amor de segunda?
O amor tem qualidades.
O amor é naturalmente benéfico, bonito, simpático, prazeroso, simples e genuíno.
O amor é o que fazemos dele. O amor é o fazemos com ele. Tudo o resto são teorias da conspiração.
E se nada disto for verdade, então que viva o desamor!




segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Tempo

(Fez ontem dez anos. E este foi um dos primeiros textos).

Um dia equivale a 24 horas, 1 hora 60 minutos, 1 minuto 60 segundos ... 
Um ano são
365 ou 366 dias. 
Uma vida terá em média tudo isto multiplicado por...
Se se gosta da companhia ou de determinada tarefa, o tempo passa num instante. 

E então, o tempo é um pássaro. Voa!
Se não gostamos, se estamos contrariados, o tempo parece uma eternidade. 

E eis-nos perante uma verdadeira "secatice" (seca+chatice)!
Na verdade, o tempo é um conceito que muitos acreditam ser subjetivo.  
Quem é dono do Tempo, gere-o ao seu gosto.
Quem não é, gere-o em função dos donos dos Tempos.
Se ele não existe, por que corremos tanto contra o tempo? Por que razão não o sabemos aproveitar ou, aproveitar melhor? Por que razão inventamos desculpas para não dar ao tempo, o Tempo que ele merece?
Ou será o tempo, uma fórmula que alguém inventou para orientar, facilitar ou complicar a nossa vida no planeta?
Afinal, quanto tempo tem o Tempo?

TIME 
by (PINK FLOYD)

domingo, 20 de outubro de 2019

POEMA DO QUOTIDIANO

Das "Palavras apócrifas" (Ulmeiro Editor, ed. 2019), a mais recente obra editada de Luis Vieira da Mota, deixo-vos com este belíssimo poema sobre o Tempo. 


 POEMA DO QUOTIDIANO

Todos os dias me bate à porta
           e eu não abro
Ou me chama ao telefone
         e não atendo

Se lhe abro a porta
puxa-me os cabelos
Se atendo o telefone
perfura-me os tímpanos

E diz

Pertences-me

Respondo sem falar

Eu sei
mas não tenho tempo

Então perder-te-ás
como sempre te perdes
quando não me tens

Eu sou o teu tempo

                      Luis Vieira da Mota