domingo, 31 de dezembro de 2017

Perfeitos desconhecidos

Não existem desconhecidos maiores do que cada ANO que começa e a espécie humana.  

Da maldade escondida dentro desta, à verdadeira bondade e ingenuidade, características também de outros tantos seres humanos, vai um passo de gigante, porque poucos são os que ainda têm estas duas últimas qualidades.
Hoje penso naqueles que desejam entre si umas "Boas Entradas e um Feliz 2018", mas penso, sobretudo, naqueles que não podem ter nada disto, e que provavelmente jamais terão qualquer um dos Anos que venham, feliz.
De há uns anos para cá, é assim que me sinto no final de cada ano. Sem grandes motivos para celebrar, a não ser a existência da VIDA que alguns insistem em tirar estupidamente das mais variadas formas.




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A falecida

A Clareira, 28 de dezembro de 2057

             Caros vivos.

Faleci 86 anos depois de ter nascido, mais precisamente em 2052.
Passaram-se cinco após esse fatídico dia em que, eu, sentada à lareira, caí literalmente para o lado.
A pedido, levaram-me para a cama onde me recordo de ter fechado os olhos e acordar na manhã seguinte tal e qual assim: enregelada de morte!
"Pronto. Foi desta que morri!"- pensei.
E deixei-me estar à espera que os vivos tomassem as providências habituais nestas circunstâncias.
Não quis saber de mais nada. Se diziam mal de mim. Se choravam. Se sentiam pena. Se iam guerrear por causa de bens... Não queria saber.
Estava mortinha e nada mais importava, a não ser o meu Antero que chorava copiosamente a minha partida do mundo terreno. Como eu gostava (por amor, claro) do pobre coitado!
Já caquético e surdo que nem uma porta, era ao lado dele que eu passava os dias e as noites. Às vezes ainda tínhamos forças e ralhávamos como dois miúdos, mas éramos tão unidos e amigos que já não passávamos um sem o outro (coisas de velhos, sabem). 
Neste preciso momento estou num local agradável com árvores apenas, e muita luz.
Antes, recordo-me de ter entrado num túnel escuro com várias saídas. Todas elas davam para lugares esconsos, escuros e só depois se chegava às clareiras.  
Quando aqui cheguei não encontrei ninguém que me esclarecesse sobre este lugar. Fiquei literalmente, aborrecida de morte, pois não era assim que se recebiam os defuntos. Porra! Ao menos um cartãozinho ou um bolinho de boas vindas. Mas tudo passou.
Aquelas histórias que contavam do céu, do inferno e do purgatório sempre me pareceram surreais. "Precisava morrer para saber toda a verdade", pensava eu em vida.
E na verdade, as minhas suspeitas confirmaram; não existia céu, inferno ou purgatório.  
No caminho até chegar a esta clareira, só encontrei gente com sorrisos escancarados na cara. Presumi que seria de felicidade por estarem ali sem preocupações e sem tempo contado, fazendo tudo o que lhes desse na real gana.
Parei para perguntar se era aquele, o único lugar para onde eram reencaminhados os mortos...
Abeirou-se, então, de mim um hippie que logo ofereceu uma passa do seu cachimbo e me esclareceu sobre as clareiras.  O que variava de clareira para clareira era o tipo de vegetação. O som dos pássaros fazia-se ouvir uma vez no ano eterno e por isso todos aproveitavam para festejar o acontecimento. Foram estas as explicações do hippie, que me desejou uma boa estadia, oferecendo-me de novo uma passa que eu, educadamente, recusei (já que nunca tinha fumada em vida, também não seria como morta que apanharia o vício).
Esta história termina com a chegada do meu Antero.
Todos os dias eu ia ver quem eram os novos inquilinos das clareiras.
Ao sexto ano recebo, enfim, de braços abertos, o meu velho e inseparável Antero.
Estava finalmente no céu!


terça-feira, 28 de novembro de 2017

O Natal dos "Tristes"

Cheira a Natal, porém o meu decadente e fragilizado espírito natalício está-se (quase quase) nas tintas para a quadra.
Que me perdoem os católicos.
Que me perdoem os comerciantes.
Que me perdoem os fabricantes de brinquedos.
Que me perdoem as grandes marcas de chocolates.
Que me perdoem os perus e os bacalhaus.
Que me perdoem os amigos e os familiares.
Que me perdoe a filosofia consumista se consumo pouco nesta altura do ano.
Que me perdoem todos!
O direito de não alinhar pela maioria nesta frenética aventura natalícia é uma opção como qualquer outra, independentemente da data. 
Se perdemos o espírito de Natal? Sim, partindo do princípio que ele existiu de alguma forma, pelo menos na nossa infância. Tal como perdemos outras capacidades espirituais e ganhamos outras, sem que isso faça de nós uns  anormais ou umas pessoas menos sensíveis.
Se temos justificações para isso? Sim, quase sempre.
Claro que continuo a pensar nos desajustados da sociedade, nos pobres de dinheiro e nos pobres de espírito. E como poderia eu esquecer os refugiados, ou os loucos por exemplo?!
Claro que continuo a pensar nas pessoas sem emprego, sem casa e sem rumo na vida.
É óbvio que penso e lamento a morte de todas as pessoas, independentemente da sua projeção nisto ou naquilo.
Claro que penso nas pessoas felizes, nas infelizes e nas pessoas assim-assim.
Claro que esta é a quadra por excelência, que me aviva certas datas, como aquele 26 de dezembro de 1985 ou o 9 dezembro de 79 ou mais recentemente, o dia 24 de dezembro de 2016. 
Claro que penso e peço Amor e Paz para todos. 
Mas egoísmos ou individualismos à parte, que fique claro; cada vez mais apetece ter um dia para pensar mais em mim.
Já que tenho os restantes 364 dias para pensar em tudo o resto, qual é o problema? 


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Why can't we live together

"Why can't we live together", grosso modo falando?
Steve Windood & Carlos Santana cantam possíveis razões.
Excelente fim-de-semana.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Estudo de pronomes


Étude de Pronoms
 
Ô toi ô toi ô toi ô toi
toi qui déjà toi qui pourtant
toi que surtout.
Toi qui pendant toi qui jadis toi que toujours
toi maintenant.
Moi toujours arbre et toi toujours prairie
moi souffle toi feuillage
moi parmi, toi selon !
Et nous qui sans personne
par la clarté par le silence
avec rien pour nous seuls
tout, parfaitement tout!

                      Jean Joseph

domingo, 1 de outubro de 2017

Maurice Magre, "Je ne t'aime pas"



Maurice Magre - (Toulouse 1877 -  Nice 1941) foi um romancista, dramaturgo e poeta francês.
Em 1924 o jornal le Figaro descrevia-o assim: "Magre est un anarchiste, un individualiste, un sadique, un opiomane. Il a tous les défauts, c’est un très grand écrivain. Il faut lire son œuvre." 

Ainsi tu vieilliras loin de moi, et des peines
Que je ne saurai pas te viendront à pas lents,
Je ne scruterai pas les ombres de tes veines,
Je ne compterai pas tes premiers cheveux blancs.

Au foyer inconnu dans un fauteuil antique,
Près d’un jeune miroir tu t’assiéras, songeant,
Et parmi la douceur des ombres domestiques,
Tu seras grave et douce avec des mains d’argent.

Peut-être avec regret en te voyant moins belle,
Te rappelleras-tu ta grâce et ton éclat ?
Pour t’expliquer l’attrait de ta beauté nouvelle
Et pour te consoler je ne serai pas là.

Je ne connaîtrai pas les meubles et les choses,
Quels livres préférés seront alors les tiens.
Tu chanteras des vers, tu toucheras des roses,
Et des vers et des fleurs, moi je ne saurai rien.

Je ne percerai pas le mystère des chambres
Où tu vivras. L’oubli gardera ta maison.
Et quand l’âge à la fin te glacera les membres,
Un autre pour la mort sera ton compagnon…

                                                     Maurice Magre, 1913

A poesia de Magre também foi musicada, sendo esta canção uma das mais conhecidas:
Je ne t'aime pas (1934)

https://youtu.be/7a9xNa9H7tQ

"Retire ta main, je ne t'aime pas,
Car tu l'as voulu, tu n'es qu'une amie,
Pour d'autres sont faits, le creux de tes bras,
Et ton cher baiser, ta tête endormie.

Ne me parle pas, lorsque c'est le soir,
Trop intimement, à voix basse même,
Ne me donne pas surtout ton mouchoir,
I l referme trop le parfum que j'aime.

Dis-moi tes amours, je ne t'aime pas,
Quelle heure te fut la plus ennivrante,
Je ne t'aime pas,
Et s'il t'aimait bien, ou s'il fut ingrat,
En me le disant, ne sois pas charmante,
Je ne t'aime pas.

Je n'ai pas pleuré,
je n'ai pas souffert,
Ce n'était qu'un rêve et qu'une folie,
Il me suffira que tes yeux soient clairs,
Sans regret du soir, ni mélancolie. 

Il me suffira de voir ton bonheur,
Il me suffira de voir ton sourire,
Conte-moi comment il a pris ton coeur,
Et même dis-moi ce qu'on ne peut dire.

Non, tais-toi plutôt, je suis à genoux,
Le feu s'est éteint, la porte est fermée,
Je ne t'aime pas,
Ne demande rien, je pleure, c'est tout,
Je ne t'aime pas,
Je ne t'aime pas, oh ma bien aimée!

Retire ta main, je ne t'aime pas,
Je ne t'aime pas...oh ma bien aimée!"