sábado, 28 de dezembro de 2019

poema

BELEZA
O que é a beleza? — perguntam-se todas as almas —
a beleza é cada excesso, cada brasa, cada saturação e cada enorme infortúnio;
a beleza é ser fiel ao verão e continuar nu até o outono;
a beleza é o atavio de penas do papagaio ou o pôr do sol que prenuncia a borrasca;
a beleza é um traço forte e uma entonação própria: sou eu,
a beleza é um dano enorme e uma procissão silenciosa de tristezas,
a beleza é abano suave do leque que põe em movimento à roda do destino;
a beleza é ser sensual como a rosa ou tudo perdoar só porque o sol brilha;
a beleza é a cruz preferida do monge ou o colar de pérolas que a dama ganhou do seu amante,
a beleza não é a sopa rala de que os poetas se servem,
a beleza é travar a guerra e buscar a felicidade,
a beleza é servir a poderes maiores.

Dutra


Edith Södergran (n. 4 de abril de 1892 em São Petersburgo na Rússia czarista, f. 24 de junho de 1923

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Tempo

(Fez ontem dez anos. E este foi um dos primeiros textos).

Um dia equivale a 24 horas, 1 hora 60 minutos, 1 minuto 60 segundos ... 
Um ano são
365 ou 366 dias. 
Uma vida terá em média tudo isto multiplicado por...
Se se gosta da companhia ou de determinada tarefa, o tempo passa num instante. 

E então, o tempo é um pássaro. Voa!
Se não gostamos, se estamos contrariados, o tempo parece uma eternidade. 

E eis-nos perante uma verdadeira "secatice" (seca+chatice)!
Na verdade, o tempo é um conceito que muitos acreditam ser subjetivo.  
Quem é dono do Tempo, gere-o ao seu gosto.
Quem não é, gere-o em função dos donos dos Tempos.
Se ele não existe, por que corremos tanto contra o tempo? Por que razão não o sabemos aproveitar ou, aproveitar melhor? Por que razão inventamos desculpas para não dar ao tempo, o Tempo que ele merece?
Ou será o tempo, uma fórmula que alguém inventou para orientar, facilitar ou complicar a nossa vida no planeta?
Afinal, quanto tempo tem o Tempo?

TIME 
by (PINK FLOYD)

domingo, 20 de outubro de 2019

POEMA DO QUOTIDIANO

Das "Palavras apócrifas" (Ulmeiro Editor, ed. 2019), a mais recente obra editada de Luis Vieira da Mota, deixo-vos com este belíssimo poema sobre o Tempo. 


 POEMA DO QUOTIDIANO

Todos os dias me bate à porta
           e eu não abro
Ou me chama ao telefone
         e não atendo

Se lhe abro a porta
puxa-me os cabelos
Se atendo o telefone
perfura-me os tímpanos

E diz

Pertences-me

Respondo sem falar

Eu sei
mas não tenho tempo

Então perder-te-ás
como sempre te perdes
quando não me tens

Eu sou o teu tempo

                      Luis Vieira da Mota

    

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Eu sou Maria

Não importa se é nome de segunda ou de primeira.
Se é Maria Fernanda ou Fernanda Maria.
Oh Maria cheia de graça que vais com as outras!
Haverá por aí uma Maria Perfeita?
Das virtudes de que reza a história sobre Marias, apenas me resta a da paciência.
Sim, eu serei Maria, a da paciência. Santa Maria Paciência!

(Música: Mary's Theme)


domingo, 28 de julho de 2019

Sugestão de leitura: anti bucólicos de David Teles Ferreira

"As mãos das mulheres
já não embalam berços
juntam-se para uma última reza antes de deitar
e descansam por fim estendidas ao lado do corpo"
                                                        anti bucólicos, David Teles Ferreira


"anti bucólicos" lembra pela sua temática, uma écloga do Renascimento sem o ser.
O texto poético ou o poema de estilo prosaico, escrito em  prosa da autoria de David Teles Ferreira, é uma viagem sem pressa, serena pelos hábitos e vivências campestres, em que não falta a expressividade, o simbolismo e um certo  lirismo a fazer-nos lembrar a poesia de  Miguel Torga.
Pelos caminhos que desgastam solas mas também vidas, os homens e "as mãos das mulheres" executam tarefas e vivem complementando-se numa harmonia que o leitor experimenta através de palavras e de cenas tão imaginadas quanto reais. 
O livro "anti bucólicos" é a quarta obra do poeta e escritor David Teles Ferreira.
Depois do livro, Crónica de um renascimento e outras escritas de bolso, publicado em junho de 2016, o escritor lança agora este livro - edição de autor -, todo ele feito de forma artesanal com uma original capa de papel reciclado. 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O Beija-Flor



O Beija-Flor, por Tobias Barreto de Meneses (07 Junho 1839 - 1889, Recife, Pernambuco, Brasil)

Era uma moça franzina,
Bela visão matutina
Daquelas que é raro ver,
Corpo esbelto, colo erguido,
Molhando o branco vestido
No orvalho do amanhecer.

Vede-a lá: tímida, esquiva...
Que boca! é a flor mais viva,
Que agora está no jardim;
Mordendo a polpa dos lábios
Como quem suga o ressábio
Dos beijos de um querubim!

Nem viu que as auras gemeram,
E os ramos estremeceram
Quando um pouco ali se ergueu...
Nos alvos dentes, viçosa,
Parte o talo de uma rosa,
Que docemente colheu.

E a fresca rosa orvalhada,
Que contrasta descorada,
Do seu rosto a nívea tez,
Beijando as mãozinhas suas,
Parece que diz: nós duas!...
E a brisa emenda: nós três! ...

Vai nesse andar descuidoso,
Quando um beija-flor teimoso
Brincar entre os galhos vem,
Sente o aroma da donzela,
Peneira na face dela,
E quer-lhe os lábios também

Treme a virgem de surpresa,
Leva do braço em defesa,
Vai com o braço a flor da mão;
Nas asas d’ave mimosa
Quebra-se a flor melindrosa,
Que rola esparsa no chão.

Não sei o que a virgem fala,
Que abre o peito e mais trescala
Do trescalar de uma flor:
Voa em cima o passarinho...
Vai já tocando o biquinho
Nos beiços de rubra cor.

A moça, que se envergonha
De correr, meio risonha
Procura se desviar;
Neste empenho os seios ambos
Deixa ver; inconhos jambos
De algum celeste pomar! ...

Forte luta, luta incrível
Por um beijo! É impossível
Dizer tudo o que se deu.
Tanta coisa, que se esquece
Na vida! Mas me parece
Que o passarinho venceu! ...

Conheço a moça franzina
Que a fronte cândida inclina
Ao sopro de casto amor:
Seu rosto fica mais lindo,
Quando ela conta sorrindo
A história do beija-flor.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Estar ou não estar, eis a questão

Na verdade, hoje invadiu-me um desesperado e surdo grito de tristeza e de revolta, simultaneamente.
Guardei-o para mim, como guardo outras coisas.
Pesou-me. Pesa-me, aliás, saber que é um grito silencioso e que dói mais que o outro, aquele que ecoa a não sei quantos metros.
É cansaço e tristeza. É inconsciente. É consciente. É quase tudo à minha volta.
É como estar à beira dum rio com pé e não o querer atravessar com receio que o caudal aumente a qualquer momento.
Há dias lixados!