quinta-feira, 30 de maio de 2019

O Beija-Flor



O Beija-Flor, por Tobias Barreto de Meneses (07 Junho 1839 - 1889, Recife, Pernambuco, Brasil)

Era uma moça franzina,
Bela visão matutina
Daquelas que é raro ver,
Corpo esbelto, colo erguido,
Molhando o branco vestido
No orvalho do amanhecer.

Vede-a lá: tímida, esquiva...
Que boca! é a flor mais viva,
Que agora está no jardim;
Mordendo a polpa dos lábios
Como quem suga o ressábio
Dos beijos de um querubim!

Nem viu que as auras gemeram,
E os ramos estremeceram
Quando um pouco ali se ergueu...
Nos alvos dentes, viçosa,
Parte o talo de uma rosa,
Que docemente colheu.

E a fresca rosa orvalhada,
Que contrasta descorada,
Do seu rosto a nívea tez,
Beijando as mãozinhas suas,
Parece que diz: nós duas!...
E a brisa emenda: nós três! ...

Vai nesse andar descuidoso,
Quando um beija-flor teimoso
Brincar entre os galhos vem,
Sente o aroma da donzela,
Peneira na face dela,
E quer-lhe os lábios também

Treme a virgem de surpresa,
Leva do braço em defesa,
Vai com o braço a flor da mão;
Nas asas d’ave mimosa
Quebra-se a flor melindrosa,
Que rola esparsa no chão.

Não sei o que a virgem fala,
Que abre o peito e mais trescala
Do trescalar de uma flor:
Voa em cima o passarinho...
Vai já tocando o biquinho
Nos beiços de rubra cor.

A moça, que se envergonha
De correr, meio risonha
Procura se desviar;
Neste empenho os seios ambos
Deixa ver; inconhos jambos
De algum celeste pomar! ...

Forte luta, luta incrível
Por um beijo! É impossível
Dizer tudo o que se deu.
Tanta coisa, que se esquece
Na vida! Mas me parece
Que o passarinho venceu! ...

Conheço a moça franzina
Que a fronte cândida inclina
Ao sopro de casto amor:
Seu rosto fica mais lindo,
Quando ela conta sorrindo
A história do beija-flor.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Estar ou não estar, eis a questão

Na verdade, hoje invadiu-me um desesperado e surdo grito de tristeza e de revolta, simultaneamente.
Guardei-o para mim, como guardo outras coisas.
Pesou-me. Pesa-me, aliás, saber que é um grito silencioso e que dói mais que o outro, aquele que ecoa a não sei quantos metros.
É cansaço e tristeza. É inconsciente. É consciente. É quase tudo à minha volta.
É como estar à beira dum rio com pé e não o querer atravessar com receio que o caudal aumente a qualquer momento.
Há dias lixados!

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Má sorte ser professor ou os sinais interiores de "estupideza" ?

A propósito dos 49% dos portugueses inquiridos que consideraram que António Costa agiu bem quando ameaçou demitir-se, caso a contagem integral do tempo de serviço congelado aos professores fosse aprovado na globalidade, cumpre-me o  registo de algumas ideias. E me caiam já em cima todos aqueles a quem a carapuça servir, a ver se importo!

1º - Estes inquiridos só podem - digo eu - fazer parte duma maioria de invejosos da qual provavelmente farão parte, um grupo indeterminado de pessoas (incluindo pais e encarregados de educação) mal formadas, mal informadas e mal educadas que muito provavelmente negligenciam a torto e a direito a educação e a formação dos seus filhos/educandos (e só menciono estes por cortesia).

2º - Os professores são funcionários públicos, vulgo trabalhadores do Estado, cujo trabalho especializado e específico tem de ser também valorizado. Muitos o criticam, mas pouquíssimos sabem o quão difícil é nos nossos dias, levar as tarefas ensinar e formar a bom porto. 

3º - Um professor é um cidadão como tantos outros, cuja única diferença reside no ponto anterior (2º). Um professor como ser humano que é, também tem o direito a casar, a ter filhos ou a divorciar, por exemplo. Um professor tem ainda uma agravante relativamente a certos funcionários/trabalhadores do Estado: não tem quaisquer ajudas de custo ou subsídios quando é colocado por concurso, a centenas de quilómetros da sua casa, colocando a sua vida pessoal e familiar num imbróglio dos diabos. 

4º - Um professor cujos 9 anos, 4 meses e 2 dias não foram contabilizados cumpriu, apesar de tudo, o seu dever na escola. Por certo, teve de cumprir com compromissos bancários; teve gastos pessoais (transporte, alojamento, saúde, entre outros). Acusou desgaste profissional. 
Alguns não ganharam mais; antes pelo contrário... Porém, estiveram ao longo desses 9 anos, 4 meses e 2 dias ao serviço!

5º - Sou professora e não aceito que usem o nome da minha profissão para fazer política suja e "bluffista". Sou professora e quero o melhor para os meus alunos, para mim, para os meus e para o meu país, mas não me venham com tretas. Eu não tirei nem roubei nada a ninguém. 
Queria apenas aquilo a que tenho direito. 





quarta-feira, 1 de maio de 2019

Da Silva

É unânime. A avaliar pelos comentários, Emanuel da Silva é um  músico muito apreciado e querido do público que ouve as suas canções. 
A descoberta deste artista aconteceu por acaso, numa daquelas idas ao youtube e, em boa verdade, depois de ouvir meia dezena de músicas, também eu fiquei a gostar.
Do Emmanuel ou melhor, do Da Silva, dizem que é, para além de muito talentoso, um moço simples e humilde.
Ora pois! Que mais poderíamos nós esperar de um artista com sangue luso?!
 
Emmanuel da Silva, mais conhecido como Da Silva, é um cantor e compositor francês de ascendência portuguesa. Um crítico do Le Monde chamou-o de camaleão musical passando de punk e industrial a electro, garage e rock. Wikipedia (inglês)



E qualquer que seja o estilo, não dá para fugir às origens.


quarta-feira, 17 de abril de 2019

Papoilas



Pintada de papoilas, a seara verde cobre-se duma quietude que nos enche a alma e a vista.
 
Comme Un P'tit coquelicot

Le myosotis, et puis la rose,
Ce sont des fleurs qui disent quelque chose !
Mais pour aimer les coquelicots
Et n'aimer que ça... faut être idiot!
(...)

Marcel Mouloudji (cantor, compositor e ator francês, 1922-1994)




sábado, 12 de janeiro de 2019

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Da morte

"Para a morte não há remédio." Já dizia a minha avó.
Na verdade, não consigo imaginar como se sentirá uma pessoa que sabe que tem a vida contada, que sabe que a morte é certa. Mas consigo imaginar que alguém nestas circunstâncias quererá gozar a vida e os dias que lhe restam...
Hoje, no dia em que recebi a notícia da morte do meu vizinho, lembrei-me do modo sui generis em como ele planeou gozar a vida e os dias que lhe restavam. 
E vêm-me lágrimas quando penso naquela estadia tripartida há uns meses, em Portugal, em que ele celebrou a vida  e os dias que lhe restavam. Fê-lo primeiro, gozando a vida e os dias que lhe restavam com os filhos; depois fê-lo a sós com a sua mulher e por fim, fê-lo a sós com o seu melhor amigo. Felizmente, conseguiu voltar pouco tempo depois, acompanhado como gostava sempre de estar, com a sua mulher. E visitou-me...
Hoje recordo-o sorridente e bem disposto, sentado na minha cozinha, à volta da mesa, com uma gata atrevida a saltar-lhe para o colo.