segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Poema Pouco Original do Medo

(The Fear - Travis)





O Poema Pouco Original do Medo
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
       (assim assim)
escriturários
       (muitos)
intelectuais
       (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

This is a lucky hour

Lembrei-me que o Relógio de Corda começou a contar o Tempo há precisamente cinco anos.
A 9 de Dezembro de 2009 ia para o ar esta brincadeira; ou como alguém disse um dia, e muito bem, mais um "passatempo".
Passaram 1825 dias e cerca de 43800 horas desde o seu nascimento. Entre desistências e insistências, o Relógio cá vai aguentando. Menos regular, é certo. Mas sempre pontual, onde e quando, é necessário. 
Se fosse um rio, diria que muita água passou debaixo da ponte (isto, dependendo do rio e do caudal do mesmo). Tratando-se de um relógio, muitas voltas deram os ponteiros...
Boa semana!


Cottonflower

You are my cottonflower
You are the one forever
Your smile is like a little wrinkle
Don't suffer, babe, just let it trickle
This is my lucky hour
Let us spend it together
You keep me warm each time I travel
You give me shelter from the drizzle
Sing this song for you to sing when I'm gone
I'm bleeding, bleeding hard.

You are my cottonflower
I'm nothing but the lonely rider
I don't wonder who is right or is wrong
Sing this song for you to sing when I'm gone.

I am your purple spider
My hose are getting wider
Eventhough there're a robin's crying
I Don't worry cause I'm only dying
Sing this song for you to sing when I'm gone
It don't hurt no more now.

You've seen a thousand like me
I'm not the first one, I'm not the only one
The best one, the first one, the last one
You've seen a thousand like me
Won't you turn off your tv?

I'm nothing but a lonely soldier
I don't wonder who is right who is wrong
Sing this song for you to sing when I'm gone
I'm gone, now I'm gone
I'm gone.

You are my cottonflower
You are my cottonflower...

Cancer riding on my chest
Soon I'll return to dust and rest

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Elasticidade temporal


[...]
le temps est élastique
il passe et il revient
immuable
à la pureté des gens qui l’ont nourri. 


Excerto do poema " Elasticité temporelle", de Sybille Rembard

 Bom fim-de-semana ao som deste "Passado Presente" do compositor brasileiro, Alexandre Guerra.




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Folha A4

Um dia disseram-lhe: tens dois dias de vida e uma folha A4 para deixares uma mensagem de despedida. Nada mais poderás utilizar.
O pânico correu-lhe pelas veias à velocidade luz.

Perguntou então, se podia recortar a folha e dividi-la em tantos pedaços quantas as pessoas para as quais desejaria deixar uma última e derradeira mensagem.
Perante a resposta afirmativa, contou as linhas e dividiu-as.
Nunca pensara na importância de uma simples folha de papel. Ela - folha de papel - que já estava tão ultrapassada pelo ecrã de um qualquer portátil, tablet ou smartphone!!
Escolheu criteriosamente destinatários e começou a escrever.
"Para ti, que amei sem ter tempo para mais. 
Deixo-te a outra linha para completares o resto da nossa história. Até sempre".

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Do tempo ninguém se atreve a perguntar-me, por Jorge Ferreira

Do tempo ninguém se atreve a perguntar-me, porém, atrevo-me a publicar este excelente texto para que todos os contadores e não contadores do Tempo o possam ler e apreciar. 
E deste modo, eu, um simples e parado Relógio de Corda, remeto-me à minha singela insignificância. 
Apesar de tirano, aproveitai bem o Tempo. Boa semana.

Do tempo ninguém se atreve a perguntar-me. Ninguém me aflora um conceito, para mim, sem sentido. Durmo e acordo e de repente atrasaram os relógios. Detesto horários.
Não sei que horas são. Não tenho sono, mas acham que devo dormir. Tudo porque a tirania do tempo assim o ordena. Mas se o corpo não o pede!
Vou-te contrariar ditador de ponteiros afiados. Vou andar ao contrário dos teus desejos. Vou destruir todos os relógios [...]
                                                                                                  (Leitura integral do texto, aqui)







O perfil do tempo - escultura de Salvador Dali, em Singapura (foto google)