sexta-feira, 8 de maio de 2015

Quando o vento se levanta

Do "Ladrão de molas" à "Castradora" vai a distância de umas semanas e uns cliques. 
Bastava uns quantos para deixar ao blogue dará dois textos que, afinal, não verão as luzes do mundo virtual.
Escrevi o "Ladrão de molas" há umas semanas.  Um título nonsense, pensarão, porém, baseado numa situação verídica da vida pessoal... Da minha.
Escrevi o segundo texto, hoje, na minha hora de almoço. Um título ousado que eu mesma usei para expressar algo perante outra situação da vida pessoal. Da minha, mais uma vez.   
Por vezes parecemos ou somos como o vento. Mudamos de direcção. Não que sejamos uns cataventos ou que convenha orientar-nos para o lado que dá mais jeito, digo, lado que nos é mais favorável.
Por vezes parecemos ou somos como o vento, porque queremos sacudir, levar para longe folhas secas ou levar o que nos impede de ver melhor o chão que pisamos. 
Esta noite resolvi ser vento; levar para longe textos/pensamentos que me secam a paciência e a alma. 
A partir de hoje - se é que alguma vez esperaram - não esperem pelo tiquetaque do Relógio de Corda. 
Estarei oficialmente ausente deste "passatempo" por tempo indeterminado.
Votos de bom fim-de-semana ao som desta boa ventania musical.



 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Anúncio de uma casa...

Anúncio de uma Casa Onde Ninguém Quer Morar
                            (Carles Torner, traduzido do catalão por Marta Ferré)

Foi tantas vezes saqueada
por gente com tantas caras
que já não importa saber
quem foi o autor dos crimes:
podíamos até ter sido nós.
Agora só o sol saqueia algumas palavras
sem dobradiças nem soleira
e derriba porta sem fechaduras.

Lá dentro vivem mulheres
cheias de vozes emudecidas
que não sabem como as amar:
regam pedras,
cosem prendas para os ausentes
e oferecem-te signos,
cinzas, chuva de céu.

Ouve-me:sou o anuncio de uma casa
onde ninguém quer morar:
Não tens com que a comprar:sê bem-vindo.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Tempo e tento

Não é conselho de Relógio mas podia ser.
Nada como tentarmos ter mais tento; um pouco mais de cautela ou atenção para com o Tempo. Afinal, ele está sempre connosco. Não descola das nossas vidas. É cíclico. Não estica. Não encolhe. Não foge. Nós é que fugimos dele. Desculpamo-nos com a falta de tempo para evitar ou deixar de fazer isto ou aquilo.
Ou por outra, quantas vezes usamos o Tempo como alibi para... ?
Tenham tento e uma boa semana!




Tempo e tento

                                                                     

"Não tenho tempo. Não tenho tento. Esvai-se-me por entre os dedos. Esbanjo o tempo em dislates. Na vidinha tonta das obrigações quotidianas. E quando o quero para mim, já se foi, digo. Disparate. Como se o tempo se fosse. Desaparecesse. O tempo está lá sempre. Pelo menos até morrermos temos sempre tempo. Podemos não ter é mais energia ou vontade. Mas tempo temos. É só querermos. Mas como nos fazem sentir culpados de empregarmos o nosso tempo onde queremos e como queremos. Como nos impingem mais tarefas comezinhas, como se fossem a coisa mais importante do mundo, e nós as aceitamos e executamos, lá acabamos a dizer, Não tenho tempo. E ele esvai-se, de facto, porque o que desbaratamos não volta mais. Por isso temos de consumi-lo com parcimónia. Temos de usá-lo connosco próprios, naquilo que for mais importante para nós, para nunca sentirmos essa sensação de desperdício sem sentido. Temos de ter tento com o tempo."
                                                                                     
                                                                                                (texto gentilmente cedido por DTF)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

" Por falar em sexo, quem anda me comendo / É o tempo"

Benefícios e surpresas que o Tempo tem...
Fiquei a saber sobre a existência desta senhora e gostei, especialmente deste poema:
Vida/tempo
por Viviane Mosé (com link)

Quem tem olhos pra ver o tempo?
Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?

O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina.
Sem raiva nem rancor
                            O tempo riscou meu rosto com calma.

Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante.
Acho que ganhei presença.

Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando.
Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim

                            Por falar em sexo quem anda me comendo
É o tempo.  Na verdade faz tempo, mas eu escondia

Porque ele me pegava à força, e por trás. 
Um dia resolvi encará-lo de frente e disse:  Tempo, se você tem que me comer  Que seja com o meu consentimento.  E me olhando nos olhos.  Acho que ganhei o tempo.  De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até remoçando.


domingo, 29 de março de 2015

Bellis Perennis

...
"---------------..............----------------.............-----.-.-.-.-.-.-.-.-............---_---_---_---_______º-º____º-º
Neste vai-e-vem do escreve-apaga, Ella finta as teclas e o aparente vazio de ideias brincando com elas. E nada! Até que se lembrou daquela história em que entrava um colibri, o pássaro mais pequeno do mundo." 
Dedico esta história a um passarinho sem gaiola, único e exclusivo, aninhado numa "árvore" especial que é a minha vida.



                                                                                      (foto google)

     Era uma vez uma margarida pequenina que nasceu à beira de um caminho. 
Como todas as margaridas silvestres, era vulgar uma florzinha tão insignificante e discreta como aquela, passar despercebida. Talvez por isso, ela e as congéneres da sua espécie eram as vítimas preferidas das bicicletas e dos pés de pessoas incautas e insensíveis.
     Porém, num soalheiro dia de Primavera, um passarito abeirou-se da margarida. 
Apercebendo-se dos perigos que corria, a pequena ave resolveu passar por ali todas as manhãs, tudo fazendo para que os pés ou as bicicletas das pessoas insensíveis não a maltratassem, nunca!
     E assim foi. Todas as manhãs, havia um passarinho que passava pelo campo para cumprimentar e estar um bocadinho com uma margarida silvestre. 
O cuidado e a preocupação eram tais que quando pressentia algo, o passarinho punha-se a chilrear a plenos pulmões, obrigando as pessoas insensíveis a desviarem caminho. 
Fez isto religiosamente enquanto a Primavera durou; ave e planta já não conseguiam passar sem a presença e a companhia uma da outra.
     Até que veio o Verão e a margarida começou a sentir-se mal com o calor. Era o aviso de uma morte anunciada e pouco a pouco começou a murchar. Ainda assim, o passarinho continuava a visitá-la como sempre todas as manhãs, só que já nada podia fazer. E sentia-se muito, muito triste. 
     Uns dias antes da última pétala cair, a margarida silvestre disse-lhe:
     - Não fiques assim, triste. Eu ficarei aqui, neste lugar, escondida na terra.
Não vais ver-me durante um tempo, todavia pensarei sempre em ti, e como cuidaste de mim, e como te preocupaste todos os dias comigo. Vou sentir tanto a tua falta!...
Mas lembra-te que eu sou uma flor pequenina de raízes fortes;hei-de voltar na próxima Primavera para estar de novo contigo. Agora, vai! Não me queiras ver murcha e moribunda. Voa!
     Acontece que o passarinho, inconsolado, não voou. Aninhou-se numa árvore onde pudesse avistar o sítio da margarida silvestre.
Acabou o Verão. Veio o Outono e o Inverno mas o Passarinho sentinela, com a sua tenacidade e coragem, ficaria até ao romper da Primavera para que pudesse outra vez usufruir da companhia da sua Bellis Perennis.                                                                     
                                                                                FIM

                                                                   RC, Edições Sem Tempo, março 2015
    

terça-feira, 24 de março de 2015

«A última bilha de gás durou dois meses e três dias»

«A última bilha de gás durou dois meses e três dias» faz parte da última publicação, "A morte sem mestre", do poeta Herberto Helder.

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3956393

Na estrada larga

"... apetecia-me fazer como o Charlot: pegar na minha piquena e ir..."
 Se assim o ouvi, assim a imaginei. Sim, "a"! Nada mais nada menos do que esta cena do filme de Charlie Chaplin.


Podia ser esta, a tal estrada larga de que fala Maria Rosa Colaço no seu espanta-pardais (com link), ou, quem sabe, como tanto simbolismo encaixa numa cena cinematográfica.
Desejo de mudança, o sonho, partir,... Não importa como, quando ou para onde. Talvez o mais importante seja mesmo, ir, seguir, partir caminhando. Sim, "partir caminhando"!
Quanta gente se limita simplesmente a partir! Partem mas não conseguem fazer a sua própria caminhada. É como se o tempo ou algo os imobilizasse, porém, um dia, partiram... sem terem percebido que nunca caminharam.
Retomando a estrada.
Seguem aos pares na estrada larga. É indiferente que seja o Charlot com a sua "piquena", o Espanta-Pardais com a sua Maria Primavera, que sejamos nós ou os outros. 
O importante é partir caminhando.
Boa semana e boas férias para quem estiver de olho no descanso.