domingo, 7 de fevereiro de 2016

Felicidade mórbida

Sofriam de felicidade mórbida.
Ela, à sua maneira, era a mulher mais feliz à face da terra. Ele, à sua maneira, era o homem mais feliz à face da terra. Eles, cada um no seu canto, cada um com seu encanto, cada um a seu modo, eram os mais felizes. 
Apelidados de loucos ou simplesmente de desajustados sociais, eram olhados com desconfiança pela sociedade.
Estados exacerbados de felicidade como este, começaram a preocupar as autoridades de saúde pública e a comunidade científica.
Estava em fase experimental uma cápsula milagrosa que prometia, sem recuso a qualquer intervenção cirúrgica, retirar substancialmente o excesso da felicidade, com vista a um maior bem-estar pessoal e social dos afectados. 
Apesar da felicidade mórbida não ser causa directa de transtornos graves nas suas vidas, havia a inexorável  pressão social...
O homem e a mulher oferecer-se-iam como cobaias. Mas muitos outros seguir-lhe-iam os passos.
Os resultados seriam apresentados anos mais tarde.
Os efeitos secundários associados à medicação para o combate ao flagelo da felicidade mórbida desencadearam reacções e comportamentos inesperados pelo laboratório responsável. 
Os estudos acabariam pouco tempo depois, por falta de financiamento e voluntários. 
Entretanto...
Pelo mundo inteiro, eles e elas continuavam a alimentar os respectivos egos, e fantasias e, demais relações inter-pessoais.
Até à data não foi quantificado o número de estados depressivos ou suicídios provocados por este distúrbio afetivo-emocional.
  

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Egoísmos

O egoísmo faz parte do Homem, manifestando-se das mais variadas formas e intensidades. Uns manifestam-no mais; outros menos.
Cada um é egoísta à sua maneira e pratica esse acto conforme o jeito ou a conveniência.
O egoísmo não tem status social, nem status económico. Em suma, não tem cara, mas existe.
Pode estar numa pessoa bem falante, numa pessoa que irradia charme, muito charme; num simples rosto simpático e bonito ou, em nada disto. Tanto veste Prada como uma marca contrafeita qualquer. 
Sendo considerado um defeito, pode tornar-se prejudicial consoante o modo de aplicação, e o fim a que se destina.
Porém, há um número finito de pessoas que, felizmente, não manifesta qualquer tipo de egoísmos. A estas, chamamos-lhes altruístas, generosas, abnegadas,... 
Em boa verdade, só conheci uma pessoa assim na vida.
E, pensando bem, creio que era despretensiosamente uma pessoa egoísta também, pois esquecia-se dela para cuidar dos outros.
Na noite em que a tradição das aldeias mandava velar pela alma dos mortos, ninguém apareceu para velar a dela.

(Este vídeo mostra um coro, constituído por homens e mulheres com problemas respiratórios. Pensar na força de vontade e no gosto com que cantam, dá que pensar)  



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Bibelot

Sou agora simples peça decorativa. Antes, não era.
Antigamente todos me viam e escutavam atentamente. Era novo, bonito, e de mim exalada um agradável cheiro perfumado a madeira exótica. Estava para ali, encaixado, mas imponente, no recanto daquele corredor escuro.
Antes eu era útil. Agora, não sou.
Dantes, tinha o privilégio de dar horas.  Hoje, sou bibelot.
Sou uma peça "bibelotizada" em vias de apodrecimento, que serve de alimento ao caruncho! Esquecida e fechada numa velha casa de aldeia.
Quem diria...
E a menina do cabelo aos caracóis que não me sai da memória. Os seus olhos abriam simultaneamente, de espanto e de medo, todas as vezes que passava por mim.
Provavelmente o único ser humano que considerou relevante quatro décadas depois, recordar o pedaço de relógio que fui.
É isto a vida de um objeto. É assim a vida. Tudo tem o seu Tempo.

sábado, 16 de janeiro de 2016

A foto de perfil, a de capa e eu

"Estás linda(o)! "
"Ui, que lindona (lindão)!"
"Mas que gata(o)!"
"Que bonito(a)!"
"Jeitosa(o)!"
"Estás muito bem!"
"Estás cada vez melhor!"
E um desenrolar de elogios, de piropos e de outros tantos "de's", continuaria.
Bem, mas, eu cá, o que gosto mesmo, é de ser visto(a), e revisto(a), e visitado(a), e gostado(a), clicado(a), e adorado(a) e... Sei lá que mais!
Altero a foto de perfil ou a foto de capa as vezes que forem necessárias e ninguém tem nada com isso! É uma necessidade, exterior ou interior, ou ambas, ou nenhuma, ou uma simples mania minha. Quiçá, uma espécie de obsessão-compulsão que me invade.
Não importa se a foto serve para fazer pirraça ou impressionar o amigo, a amiga, o vizinho, a vizinha, o primo, a prima, o/a colega, o/a ex,... Que se lixe! A culpa é de quem não gosta ou de quem a ignora.
Exponho-me em poses produzidas, coloco fotografias fofas do meu cão, do meu gato, do meu papagaio, do meu cágado e até do peixe minúsculo que mal se vê dentro do aquário, do anel de brilhantes, se necessário.
Abdico da minha privacidade familiar, expondo-a em prol de muitos "gostos" e atenção, ou, quem sabe, de algo mais.
Seja de perfil, seja de capa, não quero, nem posso passar despercebido(a).
Que tédio seria a minha vida! Como poderia alimentar o meu ego?!
É urgente publicar e alterar tudo o que seja visual. Se não o fizer, corro sérios riscos da atenção de uns quantos potenciais curiosos(as)/interessados(as) pela minha formosura (ou feiura), ou qualquer outro atributo meu, ir deambular num qualquer perfil alheio.
A superficialidade impera. Por mais que doa, esta é a grande verdade.
E queremos ser vistos pelos outros! E queremos ver os outros!
Transformamo-nos sem nos darmos conta, nos maiores "voyeurs" alguma vez já vistos; com a agravante de que não estamos a dar importância aquilo que realmente tem valor, para nos determos em milhentos de "gostos" ao longo da nossa vida, na superficialidade de uma foto, por exemplo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Haja licença

Haja licença para tudo e mais alguma coisa.
Haja licença para entrar, para incomodar; para "matar" o capitalismo, o terrorismo, o fanatismo, e toda a forma de exibicionismos dos insuflados, dos inchados, dos arrogantes que se consideram importantes.
Haja licença para dispensar os indispensáveis; para desmascarar a fraude, a mentira compulsiva e a outra.
Haja licença para aniquilar os sacanas que nos tramam, nos esgotam a paciência e nos fazem acreditar que a culpa do mal deste mundo, e da vida deles, é (só) nossa.
Haja licença para matar o tempo, que não tem culpa nenhuma das culpas que lhe atribuem.
Haja paciência!!!!!

... E a música - inspiração deste texto.

domingo, 3 de janeiro de 2016

A importância do número 2

Dois pulmões, dois rins, dois olhos, dois ouvidos, dois testículos, dois ovários, duas narinas, duas mãos, duas pernas, dois braços, etc.
Da anatomia à matemática.
Dois é um número primo e o único que é par. Por dois se multiplica. Pelo dois, se divide e se obtém a metade. Um mais um, igual a dois. E não há teoria matemática que defenda o contrário.
Da matemática poderíamos passar para a filosofia.
A dicotomia que opõe o bem e o mal; a mentira e a verdade; o amor e o ódio, a ignorância à sabedoria, e por aí fora.
Associar este número como um elemento significativo para as nossas vidas, poderá ser algo discutível. Quem sabe, irrelevante.
A noção de dualidade é tão importante como a nossa própria existência. Afinal, como poderíamos estar aqui se não fosse a união entre dois seres?  
Afirmar que tudo se constroi a partir de um mais um, pode não parecer tão absurdo como parece.
Seja ela qual for, da anatomia à vida quotidiana, e para que tudo tenha um real Sentido, terá que haver sempre uma outra parte; a tal outra parcela.
 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

ANOS NOVOS

Abrindo um pouco a janela sobre o que vai acontecendo de "interessante" pelo mundo.

A Miss Universo envia mensagem a Miss Colômbia (fica sempre bem entre beldades e rivais); o novo Star Wars chega aos mil milhões em tempo recorde; a Samsung aposta em força nos smartphones mais baratos; o Kentucki multa dona do Pokerstars em 870 milhões de doláres;...
"É a vida", dirão alguns. 
Na verdade é mesmo: a "Vida"; a secção de uma página informativa online, conhecida no universo batráquio pelo nome de "Sapo". 
Ao deslizarmos pelo dito site, damos de caras com a "Opinião", deles evidentemente - VIP's colunáveis -.
Eis pois então, na secção em causa, Catarina Furtado opinando sobre "O ano que não acaba aqui"
E eu, que até estou sem vontade nenhuma de ler qualquer uma das referidas secções, pus-me a matutar...
Pois não acaba, Catarina! Depende do ano (se é civil, judicial, fiscal ou escolar, por exemplo). Também dependerá de um cem número de fatores, que dirão respeito a cada um. 
Eu por mim, os anos (civis, fiscais, etc) podem terminar sem problemas de maior. Não faço questão de me chatear mais do que já me chateei; nem que me chateiem mais do que já me chatearam.
Mas pensando bem. Tens razão, Catarina! Nada acaba, só porque o ano mudou para um dígito acima. A Vida, a nossa, a real, continua.
Sem ganhos milionários, sem apostas em força no que quer que seja.
Lá fora, a terra continua a girar. São 15h30 da tarde e o dia escureceu devido ao mau tempo. 
A chuva irrequieta, bate fortemente nos vidros. O vento desalmado, sopra em todas as direções. 
Mesmo assim, a vida há-de continuar; um dia atrás do outro.


Voltarei para o ano. BOM 2016!