segunda-feira, 20 de março de 2017

Ballade de la Convenance de se Deshabillere au Printemps

A minha homenagem, em língua francesa, à chegada da Primavera.



Ballade de la Convenance de se Deshabiller au Printemps 

par Catulle Mendès

La Seine, clair ciel à l'envers,
S'ensoleille comme le Tage !
Laisse éclore des menus vairs
Tes bras, ta gorge et davantage.
Au diable l'imbécile adage :
" Avril. Ne quitte pas un fil. "
Il ne sied qu'aux personnes d'âge.
Quitte tout, ma mie, en avril !
Quand Zéphyr dévêt des hivers
La colline après un long stage,
Pourquoi resteraient-ils couverts
Les seins de lys qu'un val partage ?
Vent ! déchire en ton brigandage
Ces brumes : batiste et coutil !
Je me charge du ravaudage.
Quitte tout, ma mie, en avril !
C'est le temps où par l'univers
Le franc amour flambe et s'étage ;
Le faune halète aux bois verts
Et l'ermite en son ermitage.
Aimons ! plus de baguenaudage !
Les pudeurs, le refus subtil
Des flirts et du marivaudage,
Quitte tout, ma mie, en avril !
ENVOI
Ange ! si ton démaillotage
Veut un poêle, mon coeur viril
Le remplace avec avantage !
Quitte tout, ma mie, en avril.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sonegador de sonhos

De sonhos tinha a alma cheia. 
Tão cheia que um dia deixou de dormir com receio de sonhar. 
Adotou estratégias para não enlouquecer totalmente. Quando sentia o peso das pálpebras, defendia-se como podia. 
Passara, por isso, a cronometrar o sono. De meia em meia hora, um alarme tocava e o homem acordava. E adormecia. E acordava. E ia vivendo neste ram-ram tão surreal quanto existencial. 
Os sonhos morriam à nascença sem qualquer hipótese de ver a luz da noite ou do dia. Sem qualquer hipótese de se tornarem sonhos cor-de-rosa, sonhos bons, sonhos quimeras, sonhos "pesadelescos", ou sonhos reais.  
Um dia numa das suas longas horas de vigília, sentado, numa poltrona, chega-lhe esta mensagem.
"Esta noite tive um sonho tão parvo!Imagina que, íamos de viagem num autocarro, nem eu sei para onde! Quando me virei para o lado, não estavas. Tinhas desaparecido e o autocarro nem sequer tinha parado. Passei o resto do sonho à tua procura... Que aflição!
P.S. Amo-te. (E não é um sonho)"

E depois das palavras, a música: Dreams by Fleetwood Mac.
Bons sonhos, sempre! 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

L'hiver, Antoine de Latour

 L'hiver

Ce qu'il faut au bonheur, lorsque souffle la bise,
C'est une porte close, un livre, et dans un coin
Une lampe qui brûle, et qui tout bas me dise
Que, si l'ennui venait, la muse n'est pas loin.

Il faut que d'heure en heure, et d'église en église,
La voix de l'avenir me parle dans l'airain,
Relève par degrés mon âme qui se brise,
Et, d'espoir en espoir, la mène au lendemain.

Surtout que nul amour ne tourmente ma veille,
Ou si dans le passé quelque ombre se réveille,
Qu'elle s'efface vite, et se perde à mes yeux,

Dans ce monde de l'âme, où d'une vie étrange
L'art anime son rêve, être mystérieux
Qui n'est déjà plus l'homme, et n'est pas encore l'ange.

                     Antoine de Latour (1808-1881)


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Fast love

No seguimento da notícia de ontem, eis uma versão alternativa ao tema "Fast love" do recentemente desaparecido George Michael.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Dr Fastluv

Foi de um conceito empreendedor que nasceu a máquina que promete revolucionar os hábitos e os costumes de homens e mulheres em todo o mundo.
Dr Peaceluv era um desconhecido até ao momento em que os seus estudos começaram a ser conhecidos e contestados por vários associações profissionais e, cidadãos em geral.
De facto, este estudioso do comportamento humano tem vindo a dedicar-se nas últimas duas décadas à problemática amorosa/sentimental dos seres humanos, não esquecendo os gatos, os cães, os ratos e outros bichinhos.
Após ter dedicado cinco anos a um exaustivo trabalho de "laboratório", Dr Peaceluv conseguiu finalmente comercializar a sua inovadora máquina Fast Emotions que, tal como o nome indica, e à semelhança das suas congéneres - máquinas de fast food ou de tabaco - permitirá satisfazer a curto, médio e longo prazo, as necessidades básicas do ser humano, no que toca às questões de índole afectiva, emocional, e até sexual.
Vocacionada para os info excluídos que não podem suportar uma ligação à internet, Peaceluv explicou numa entrevista, ao jornal GreaTbosTlie, que o funcionamento da sua máquina indutora de emoções e afectos, se baseia no mesmo princípio das distribuidoras de outros produtos de consumo imediato. A diferença é que a Fast Emotions está ligada a uma plataforma digital que é actualizada diariamente por técnicos com formação em human relations
Na Fast Emotions não faltam feitios, personalidades, beldades, sexo e outros atributos para os mais variados gostos. A vantagem da utilização desta máquina é que ninguém assume qualquer compromisso com nada nem ninguém, podendo usar e deitar fora quando e como lhe aprouver; como aliás já vinha acontecendo de há umas largas décadas para cá desde que os sites de encontros e redes sociais tomaram de assalto as casas e os lares do mundo "civilizado".   

As perguntas, porém, continuam no seio dos contestatários desta invenção.
Como funciona, realmente? Como pode uma máquina satisfazer e substituir necessidades tão básicas e humanas?
Estamos na véspera do Dia dos Namorados do ano de 2087. Talvez não falte muito para que cada um se questione sobre o que é isso do amor ou o que é isso de namorar e de namorados.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Wolfgang Weyrauch

Vi-te, e no entanto não te vi,
não te vejo e no entanto eu te vejo,
nunca te vi e ainda te vejo,
pois o teu ver é o ver com que te vi.

Pois o que é meu é teu, e tu és eu,
e eu sou tu. Somos nós o mundo,
e quando a lava vai ao fundo
pensas tu em mim, penso em ti eu.

A cinza voa, em sinais de chama,
crepita o fogo, e eu respondo ao que chamas.
De pura ventura gemem as chamas,
depois por última vez chiam as chamas.

Nós, porém, eternidades respiramos,
respiramos água, respiramos pão,
e a morte da morte experimentamos
no bafo dos lugares e dos tempos que se vão.

                Wolfgang Weyrauch

                IN LÍRICA AMOROSA ALEMÃ MODERNA - Versões portuguesas de Paulo Quintela, Cancioneiro Vértice - Coimbra 1978