sexta-feira, 20 de maio de 2016

Da oração ao sujeito e predicado que sou

Não podemos separar os elementos essenciais dentro de uma oração (frase) sem que isso provoque alguns danos.
O sujeito como elemento que desempenha ou pratica a ação, e o predicado, ele próprio revelador da ação praticada pelo sujeito, devem ambos estar em sintonia. Complementarem-se.
Por vezes há necessidade de complementos, uns diretos outros indiretos, ou outros, para que a oração fique mais rica ou com um sentido até, diferente, sem que, e apesar disso, o significado global da mesma fique mais empobrecido ou inteligível.
Os elementos gramaticais unem-se numa concordância substimada por muitos. Talvez por isso, a gramática seja tão mal amada, tal mal compreendida.
Aprendemos desde muito cedo que o adjetivo deve concordar em género e número com o nome, por exemplo. 
E se transpuséssemos estes conceitos para outros contextos...
Hoje refleti sobre isto. Coisas da profissão, pensei. 
Eu sou...; nesta oração sou um sujeito simples.  
Eu e tu somos...; eu e outra pessoa passamos a ser um sujeito composto. Porém, se substituir "Eu e tu" por "Nós", voltamos a ser um sujeito simples mesmo sendo duas pessoas (ou mais).
Eu sou o sujeito e o predicado ao mesmo tempo. Sou também complemento  circunstancial. 
E digo-vos que não abdicarei nunca dos complementos circunstanciais de modo, de meio, de fim ou de companhia, sem os quais os predicados da minha existência, seja como sujeito simples ou seja como sujeito composto, jamais fariam sentido.

Ironias ou simbologias gramaticais?!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A menina de sua mãe

Sobrevive à conta de emoções fáceis e fugazes que vão e vêm como as ondas do mar. Dizem as línguas muito más que trabalho nunca foi com ela e que, do que ela gosta, entre outras coisas, é de boa vida.
Sabe arranjar-se dentro das suas possibilidades e dos seus gostos. Gosta de futebol. Lê a Maria. É fã incondicional dos bailaricos de província. Consta que não perde um, sobretudo aqueles em que actuam os famosos lá do burgo.
Esta pode ser a história, real ou ficcionada, de uma mulher como muitas outras... 
A mulher tem uma menina.  
É a menina dos seus olhos, o amor da sua vida, o amor do seu coração, o seu mais-que-tudo, diz.
E este amor de mãe-mulher-fêmea é tão grande, tão grande, que cabem nele todos os homens da terra. Por vezes a grandiosidade é tal, que chegam a caber nele, dois ou mais em simultâneo. 
Mas a mulher que leva uma vida boa e aparentemente "descomplicada", e que tem um coração gigantesco onde cabem todos os homens da terra, continua a ser mãe da menina.
E a menina é reguila, mas querida. É inocente. Diz o que lhe vai na alma. Chora e ri e brinca e salta à corda e ao elástico. A menina de sua mãe tem uns bonitos cabelos castanhos, compridos, aos caracóis, e também tem um coração. É pequenino, mas vive igualmente sedento de atenção e de carinho, ou não fosse ela uma criança. Ser criança é mesmo assim; é ser uma miniatura de gente à cata de mais e mais atenção, de mais e mais carinho, tal e qual como fazem as pessoas crescidas.
A menina fica contente quando a mãe está feliz. Fica triste quando a mãe se sente infeliz. As duas vivem a vida como um carrossel; umas vezes em alta, outras vezes em baixo.
De peito literalmente cheio e o coração excessivamente grande, a mãe da menina anunciou aos sete ventos, o seu novo amor. Conheceu-o há poucas semanas. Da paixão, seguiu abruptamente para as juras de um amor que se pretende o mais eterno possível. Depois de declamado e declarado o amor, seguiu vertiginosamente para o casamento. E a seguir... Logo se verá!

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Prefácio

Li um livro.
O livro exibia um prefácio que estava propositadamente em branco, ou quase. Numa página desnudada de palavras, mas não de emoções, liam-se apenas duas curtas frases que, supostamente, tinham sido escritas pelo prefaciante, ele próprio autor do livro. 
Continuei a ler o livro. Da primeira à última página, tentando fazer exercícios - por vezes inglórios - de abstracção do seu conteúdo. 
No final, digeri-o. E posso dizer que me deixou um travo agridoce no coração e no pensamento.

 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

E de novo, Al Berto

é tarde, meu amor

 

é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…
a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda… cantar-te os gestos com

[ternura
mas não
águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem

[estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in, O Medo (Trabalho poético, 1974 – 1990), Assírio & Alvim, Lisboa, 1991

E um óptimo fim de semana.






quarta-feira, 4 de maio de 2016

A nuvem que parecia um rato

De regresso a casa dentro do carro, algures numa autoestrada, o rádio segue mudo - como é, aliás, hábito -, desviaste o olhar em direcção ao céu.
"Olha para cima... Aquela nuvem parece um rato."- disseste serenamente.
E não é que aquela nuvem parecia mesmo um rato focinhudo desenhado no céu?!
Lembrei-me então, que as crianças também são peritas em saídas inesperadas, e que, por breves segundos, também eu senti que estava ao lado da maior criança do mundo.
Em abono da verdade, há quem olhe para o céu à procura da eternidade ou olhe só por olhar, sem nada conseguir vislumbrar. Mas nós, "crianças" grandes que somos, continuaremos a olhar para o céu e para a terra, imaginando nuvens com a forma de ratos focinhudos ou pedras do mar que parecem corações.

"That it's gonna get better
Don't worry (...)"

terça-feira, 26 de abril de 2016

A Mentira

Cheguei naquele fim de tarde, pronto para esconder o que se estava a passar. Sim, menti! 
E continuei a mentir, ao teu lado, em cada recanto da nossa casa, em cada lugar visitado, a cada hora que passava, longe, perto,... Mentia com todos os dentes. Mentia com gozo. Mentia por gozo. Mentia por mentir. Porque mentir, a ti, e só por seres tu, nunca me dera tanto prazer. 
Olhavas-me sempre com aquele ar de quem acreditava piamente nas minhas palavras. E eu ria por dentro "mais uma. Esta já passou." - pensava.
Passei a usar a mentira, como se de um modo de vida se tratasse. Para tudo e mais alguma coisa, mentia-te, a ti, só por seres tu.
Se deixara de fazer parte dos meus padrões morais, então porquê preocupar-me com a verdade? Tornei-me obsessiva e compulsivamente numa pessoa mentirosa, sem escrúpulos. Não importavam os meios para atingir os fins. 
Com o tempo, tornaste-te num ser viciado; viciado nas mentiras que te contava. Pedias-me mais e mais. Tornámo-nos seres a roçar o limiar da loucura, com tanta mentira.
Um dia cansei-me. Disse-te a única mentira em que tu não acreditaste. E...



segunda-feira, 18 de abril de 2016

A boneca

Jaz a boneca.

Metro e vinte de altura, cabelo alaranjado, olhos esbugalhados, lábios carnudos.Esbelta (linda para quem apreciar o estilo).
Jaz a boneca no recreio.
Desmembrada. Maltratada.Violentada.
Pernas e braços largados ao Deus dará. Mete dó.
Jaz a boneca no recreio.
De plástico. Assim é o seu corpo, agora molhado pela chuva que cai incessantemente.
Nua ou vestida, outras vezes semi nua.
Com ela brincam ao faz-de-conta.
Com ela simulam ter sexo.
Mas...
Um dia...
Levaram-na pela mão. Um cortejo de miúdos a acompanhavam.
Algo de mau aconteceu. Pensei.
Jaz a boneca, no recreio, nas mãos dos petizes.
Numa bela manhã, porém, morreu.
O funeral lhe fizeram. Enterraram-na num chão de gravilha.
Apenas com a cabeça de fora, rezaram à sua volta. Fingiram que choravam.
Outro dia chegou...
A boneca ressuscitou.
E novamente a completaram.
Calças, sapatos, camisola, pernas e braços no sítio certo.
Jaz Xana, a boneca do recreio, numa escola onde se passa tudo isto, e muito mais!