terça-feira, 28 de julho de 2015

Mãos

São mãos, senhores.
Mãos que tocam. Mãos que escrevem. Mãos que corrigem. Mãos que também vacilam.
Mãos que afagam.
Mãos ternas. Mãos rudes.
Mãos habilidosas. Mãos desajeitadas.
Mãos que apontam caminhos possíveis e impossíveis, e, tantas, tantas vezes, recriminam com veemência as injustiças, as indiferenças, as loucuras.
São as mãos, senhores.
As mãos que doem.
As mãos que protegem.
As mãos que amparam. 
Na verdade, estas são as minhas mãos também. Minhas, porque também passaram a fazer parte de mim.

sábado, 27 de junho de 2015

Esquecimentos e apontamentos

Tomo nota para não me esquecer e acabo esquecendo o pedaço de papel dentro do carro, que acaba por voar a cem à hora assim que abro a porta.
Ora bolas! A culpa foi do vento! Pensei.
Sim, até podia ser. Mas pensando melhor, a culpa foi mesmo minha. 
Tivesse eu guardado o apontamento noutro local - num bloco de notas, por exemplo -, e lembrar-me-ia agora da expressão para a qual tinha em mente, a escrita de um pequeno texto.
É sempre a mesma coisa. A culpa dos meus esquecimentos é sempre minha. 
Como podia eu culpar o vento, ou qualquer outro factor externo à minha pessoa?! Não não. O verbo esquecer conjugado no presente e no pretérito perfeito, é o meu mea culpa de estimação. 
O melhor até, seria não escrever mais nada acerca do assunto (e com isto esqueci-me quão tarde já é); a não ser para reforçar esta ideia (discutível): tendencialmente, a idade, sob o efeito do Tempo, ajuda a agravar esta situação, ou se preferirem , predisposição.
No entanto, que esta disputa entre tempo e idade, e todos os estragos que daí advêm, não sirvam de desculpa para todos os esquecimentos. 
Há "notas" que fazem parte dos nossos apontamentos de vida que o vento não leva, que resultam, se nos esquecermos mesmo deles, em "esquecimentos" fatais. 
Ora, estes pseudo esquecimentos matam sonhos, matam esperanças, matam projectos, matam-nos também um pouco por dentro.
That's All!!
Votos de um excelente fim-de-semana.





segunda-feira, 22 de junho de 2015

"A serenidade tem a ver com aprendermos a nos relacionar com o tempo"

Flávio Gikovate pensa, e pensa bem.
Quem não se relaciona bem com o tempo, dizem, costuma stressar mais (será?!).

"Por vezes penso que a serenidade tem a ver com aprendermos a nos relacionar com o tempo e também com o encontro da nossa "velocidade" ideal.
Cada pessoa, para se equilibrar e se sentir bem, tem que ocupar seu tempo com um certo volume de ocupações. Essa cota não é igual para todos.
Tenho chamado de "velocidade ideal" ao ritmo de vida no qual a pessoa se sente bem. Uns gostam de andar devagar e outros são mais acelerados.
O que é fato é que são muito poucos os que se sentem bem em pleno ócio, totalmente desocupados. Para a maioria, essa condição traz o tédio!
O tédio corresponde a um estado depressivo muito peculiar no qual sentimos um enorme vazio e a total falta de sentido e significado da vida.
É provável que muitas das nossas ocupações estejam vinculadas ao desejo de fugir do ócio e do tédio. Ao nos entretermos, nos sentimos melhor.
A cota de ocupação que nos provoca o bem-estar é aquela que alivia a depressão do tédio sem gerar a ansiedade derivada do excesso de funções.
Estando acima da nossa "velocidade ideal" nos sentimos ansiosos; quando abaixo, ficamos deprimidos (tédio): convém acertarmos o ritmo ideal!"

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A corrente descontente

Ser corrente de relógio não é fácil, não!
Sempre marcada pelo tempo,
incomodada pela palpitação de pulsos
peludos, carnudos, ossudos;
às vezes, paredes meias com pulseiras
tendo como paisagem umas veias!
E lá vem mais um furo à pressão!
É o clima quente e húmido como no Verão!
Depois, com o relógio, mil miminhos;
estragou-se, arranja-se com prontidão.
Comigo não, porque estou velha!
Pronto! É logo a substituição.
Não têm em conta a afeição
de uma vida dedicada a um pulso.
Ai! Aperta-me esta ingratidão!
         
                             Teresa Guedes

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Quando o vento se levanta

Do "Ladrão de molas" à "Castradora" vai a distância de umas semanas e uns cliques. 
Bastava uns quantos para deixar ao blogue dará dois textos que, afinal, não verão as luzes do mundo virtual.
Escrevi o "Ladrão de molas" há umas semanas.  Um título nonsense, pensarão, porém, baseado numa situação verídica da vida pessoal... Da minha.
Escrevi o segundo texto, hoje, na minha hora de almoço. Um título ousado que eu mesma usei para expressar algo perante outra situação da vida pessoal. Da minha, mais uma vez.   
Por vezes parecemos ou somos como o vento. Mudamos de direcção. Não que sejamos uns cataventos ou que convenha orientar-nos para o lado que dá mais jeito, digo, lado que nos é mais favorável.
Por vezes parecemos ou somos como o vento, porque queremos sacudir, levar para longe folhas secas ou levar o que nos impede de ver melhor o chão que pisamos. 
Esta noite resolvi ser vento; levar para longe textos/pensamentos que me secam a paciência e a alma. 
A partir de hoje - se é que alguma vez esperaram - não esperem pelo tiquetaque do Relógio de Corda. 
Estarei oficialmente ausente deste "passatempo" por tempo indeterminado.
Votos de bom fim-de-semana ao som desta boa ventania musical.



 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Anúncio de uma casa...

Anúncio de uma Casa Onde Ninguém Quer Morar
                            (Carles Torner, traduzido do catalão por Marta Ferré)

Foi tantas vezes saqueada
por gente com tantas caras
que já não importa saber
quem foi o autor dos crimes:
podíamos até ter sido nós.
Agora só o sol saqueia algumas palavras
sem dobradiças nem soleira
e derriba porta sem fechaduras.

Lá dentro vivem mulheres
cheias de vozes emudecidas
que não sabem como as amar:
regam pedras,
cosem prendas para os ausentes
e oferecem-te signos,
cinzas, chuva de céu.

Ouve-me:sou o anuncio de uma casa
onde ninguém quer morar:
Não tens com que a comprar:sê bem-vindo.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Tempo e tento

Não é conselho de Relógio mas podia ser.
Nada como tentarmos ter mais tento; um pouco mais de cautela ou atenção para com o Tempo. Afinal, ele está sempre connosco. Não descola das nossas vidas. É cíclico. Não estica. Não encolhe. Não foge. Nós é que fugimos dele. Desculpamo-nos com a falta de tempo para evitar ou deixar de fazer isto ou aquilo.
Ou por outra, quantas vezes usamos o Tempo como alibi para... ?
Tenham tento e uma boa semana!




Tempo e tento

                                                                     

"Não tenho tempo. Não tenho tento. Esvai-se-me por entre os dedos. Esbanjo o tempo em dislates. Na vidinha tonta das obrigações quotidianas. E quando o quero para mim, já se foi, digo. Disparate. Como se o tempo se fosse. Desaparecesse. O tempo está lá sempre. Pelo menos até morrermos temos sempre tempo. Podemos não ter é mais energia ou vontade. Mas tempo temos. É só querermos. Mas como nos fazem sentir culpados de empregarmos o nosso tempo onde queremos e como queremos. Como nos impingem mais tarefas comezinhas, como se fossem a coisa mais importante do mundo, e nós as aceitamos e executamos, lá acabamos a dizer, Não tenho tempo. E ele esvai-se, de facto, porque o que desbaratamos não volta mais. Por isso temos de consumi-lo com parcimónia. Temos de usá-lo connosco próprios, naquilo que for mais importante para nós, para nunca sentirmos essa sensação de desperdício sem sentido. Temos de ter tento com o tempo."
                                                                                     
                                                                                                (texto gentilmente cedido por DTF)