sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

O Adão, a Eva e o feiticeiro do pântano

Adão nasceu por obra e graça de um mix de terra com alguma magia. 
Adão não vivia no paraíso, nem nada que se pareça. Este Adão, boneco de madeira meio apinóquiado, vivia dentro da caixa de música de um feiticeiro.
Reza a lenda que uma mulher de nome Eva acabou por entrar na história. No entanto cada um interpreta a "coisa" como bem entende e nesta versão, os dois acabam dançando alegremente para júbilo de três batráquios solitários.
Mas danças e alegria à parte, falta falar da serpente má. 
Num golpe de baixeza inqualificável, ela rasteja o par dançarino e ambos tropeçam, não um no outro, mas sim, na tal maçã que, como todos sabem, não se tratava de uma peça de fruta qualquer, apesar de ser uma maçã igual a tantas outras.
O final desta história há-de terminar num pântano sem graça nenhuma.
Para quem esperava ver uma paisagem verde com muitas árvores e flores (uma espécie de paraíso, digamos assim) acaba um pouco "desiludido".  
Não se sabe, porém, o final daqueles dois.
Os batráquios, esses, pareceram-me bastante satisfeitos com  a companhia...

Bom fim-de-semana!

domingo, 14 de Setembro de 2014

O Tempo Não Para

O tempo Não Para      Música e letra de Miguel Gameiro

Eu sei, que a vida tem pressa
que tudo aconteça,
sem que a gente peça,
Eu sei,
Eu sei, que o tempo não pára,
tempo é coisa rara
e a gente só repara,
quando ele já passou
(...)
 
(Votos de uma boa semana)

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Poema de Sete Faces - Carlos Drummond de Andrade


POEMA DE SETE FACES
                     Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para quê tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.





domingo, 7 de Setembro de 2014

A Mão da Nuvem I

I
Ao voltar de viagem, acordei ontem, perturbado.
Sonhava -
       no meu sonho vi que a luz subia como uma
       planta cujo nome ignoro mas que se assemelha ao girassol.
       Passaram pelo sonho
       numerosas cidades, sem casa,
       numerosas casas, sem quarto,
       numerosos quartos, sem cama,
       numerosas camas, sem sono.

                 Adonis (traduzido do francês por Nuno Júdice) 
                 NO CAIS DA POESIA 2 Antologia, Livros teorema

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

A trajectória errada

Tratou-se de um feliz erro de trajectória.
A janela entreaberta durante a noite, permitiu a entrada deste intruso de penas.
Visivelmente atrapalhado e assustado, voando de um lado para o outro, colava-se à janela como que a pedir socorro, "tirem-me já daqui!!".
Indiquei-lhe o caminho da saída e o passarito, feliz, seguiu viagem rumo à liberdade.