sábado, 23 de setembro de 2017

Deadly Valentine

Quatro anos depois do suicídio (dezembro de 2013) de Kate Barry aos 46 anos, Charlotte Gainsbourg está prestes a lançar o seu mais recente álbum dedicado à irmã mais velha, fotógrafa e filha do compositor Jonh Barry com Jane Birkin. 
O clã Birkin continua, no entanto, a revelar ao mundo os dotes artísticos de alguns elementos. Charlotte teve uma exposição pública precoce, razão pela qual quis preservar, tanto a sua vida privada como a dos seus filhos, dos flashes do CSW (cruel social world). 
Mas ao que parece a exceção abre-se com este vídeo realizado pela própria Charlotte Gainsbourg.
Deadly Valentine é uma das músicas integrantes do álbum "Rest", que conta com a colaboração de Sir Paul McCartney, entre outros, e com a produção de Guilhaume Emmanuel de Homem-Cristo, da dupla francesa de música eletrónica, Daft Punk. 
Este clip explora em breves minutos a vida de um casal, da infância à maturidade e nele aparecem então, a Joe de 6 anos e a Alice de 15.  

 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Abusada

Aquela confissão no meio da conversa deixara-me sem fala. Nada, mas mesmo nada, fazia crer que aquilo lhe teria sucedido em miúda.
De tal modo que já nem sabia precisar a idade. Talvez rondasse os 5, 6 anos. Ou os 8! 
Não conseguia de todo lembrar-se por mais ginástica mental que fizesse, mas lembrava-se perfeitamente das noites que passara com pesadelos, da dificuldade em adormecer, do medo de ir à casa-de-banho, do medo do escuro, do medo de contar à mãe ou ao pai. Enfim, do MEDO de tudo!
Crescera. Fizera-se mulher. Diria eu que ela era uma mulher adulta normal, equilibrada, sem vaidades de maior ou "pancas" de fugir. Tirara um curso superior e, acho, pelo que conversávamos, fora uma segunda opção do seu agrado e gostava profissionalmente do que fazia, apesar do cansaço.
Era frequente contar-me a sua vida conjugal, que a certa altura começara a entrar em declínio. 
Por vezes é preciso um "big brother" para ficarmos a conhecer melhor a pessoa que escolhemos para casar. Os homens caçam-nos na fase do namoro e depois de achar que lhes pertencemos, passam a ignorar-nos. Gostava de amar e que alguém me amasse para sempre, dizia-me.
E como se isso não bastasse, outros factores fizeram com que deixasse de lutar pela pessoa e pelo amor; amor entretanto ausente de todos os actos da vida a dois. 
Separou-se de papel passado, dez anos depois do declínio.
Percebo agora melhor, e mais do que ninguém, a minha amiga.
O medo da entrega total e incondicional, já numa nova fase da vida... Talvez fosse útil consultares um profissional, agora .- Embora eu sempre a considerasse uma mulher de armas, de uma força interior invejável e com uma paciência de santa, só ao fim de quarenta e tantos anos é que se sentiu com a coragem necessária para confessar os abusos sexuais de que fora vítima em criança.
Um familiar próximo... sem, porém, lhe ter guardado alguma vez ódio ou rancor.
Tiro-lhe o chapéu. Faço-lhe a vénia e admiro-a ainda mais.  

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O importante é ir

Escolher entre Montemor, Évora, Alcáçovas, as Grutas do Escoural ou qualquer outro destino, o importante é ir.
E eu fui. E voltei. E voltaria a ir, se necessário.

Entre o ir e o voltar
há o estar;
Em ti estou, tempos sempre novos
de regressos sem partida,
de caminho sem viagem.
É em ti que me despeço
dos dias,
é por ti que estanco a vontade
e fico esquecido
das partidas que não projecto. 

  António Patrício Pereira, 2013




domingo, 9 de abril de 2017

"Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor..."


O quê? Valho Mais que uma Flor

O quê? Valho mais que uma flor
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...

Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?

Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

sexta-feira, 31 de março de 2017

O velho portão do cemitério

Continuo a fazer o luto de forma natural e serena.  
Quando eu era criança, avistava da casa dos meus tios e dos meus avós, o cemitério. Pensava, "nunca hei-de entrar ali sozinha". Admirava, no entanto, a coragem e a sapiência da tia Hermínia que nada temia e dizia sempre, "não devemos ter medo dos mortos mas sim dos vivos". 
Levei 43 anos a perceber que ela, uma vez mais, estava certa. 
Ontem, ao fim da tarde desafiei-me a mim própria. 
Precisava de lá voltar. Precisava de colocar uma daquelas flores artificiais... Precisava de fazer uma visita como antes, quando... Precisava de imaginar aquele colo e as mãos sobre os gatinhos...
E aquele amontoado de terra, onde já se misturam ossadas com restos de madeira e pedras, provocou-me uma tristeza a dobrar. 
Pensei porém, nas duas pessoas que me deram a vida e como, finalmente, devem estar felizes por voltaram a estar juntas. O amor os juntou, até na morte. Literalmente.
O velho portão de ferro do cemitério voltou a ranger. Fechado, sempre, como convém, que o sítio é de muito vento. 
E naquele espaço repleto de silêncios estranhos, sepultam-se cadáveres que nos alimentam memórias e saudades para sempre. E já não temos medo, mas choramos na mesma.  

segunda-feira, 20 de março de 2017

Ballade de la Convenance de se Deshabillere au Printemps

A minha homenagem, em língua francesa, à chegada da Primavera.



Ballade de la Convenance de se Deshabiller au Printemps 

par Catulle Mendès

La Seine, clair ciel à l'envers,
S'ensoleille comme le Tage !
Laisse éclore des menus vairs
Tes bras, ta gorge et davantage.
Au diable l'imbécile adage :
" Avril. Ne quitte pas un fil. "
Il ne sied qu'aux personnes d'âge.
Quitte tout, ma mie, en avril !
Quand Zéphyr dévêt des hivers
La colline après un long stage,
Pourquoi resteraient-ils couverts
Les seins de lys qu'un val partage ?
Vent ! déchire en ton brigandage
Ces brumes : batiste et coutil !
Je me charge du ravaudage.
Quitte tout, ma mie, en avril !
C'est le temps où par l'univers
Le franc amour flambe et s'étage ;
Le faune halète aux bois verts
Et l'ermite en son ermitage.
Aimons ! plus de baguenaudage !
Les pudeurs, le refus subtil
Des flirts et du marivaudage,
Quitte tout, ma mie, en avril !
ENVOI
Ange ! si ton démaillotage
Veut un poêle, mon coeur viril
Le remplace avec avantage !
Quitte tout, ma mie, en avril.