sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Elasticidade temporal


[...]
le temps est élastique
il passe et il revient
immuable
à la pureté des gens qui l’ont nourri. 


Excerto do poema " Elasticité temporelle", de Sybille Rembard

 Bom fim-de-semana ao som deste "Passado Presente" do compositor brasileiro, Alexandre Guerra.




quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Folha A4

Um dia disseram-lhe: tens dois dias de vida e uma folha A4 para deixares uma mensagem de despedida. Nada mais poderás utilizar.
O pânico correu-lhe pelas veias à velocidade luz.

Perguntou então, se podia recortar a folha e dividi-la em tantos pedaços quantas as pessoas para as quais desejaria deixar uma última e derradeira mensagem.
Perante a resposta afirmativa, contou as linhas e dividiu-as.
Nunca pensara na importância de uma simples folha de papel. Ela - folha de papel - que já estava tão ultrapassada pelo ecrã de um qualquer portátil, tablet ou smartphone!!
Escolheu criteriosamente destinatários e começou a escrever.
"Para ti, que amei sem ter tempo para mais. 
Deixo-te a outra linha para completares o resto da nossa história. Até sempre".

 

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Do tempo ninguém se atreve a perguntar-me, por Jorge Ferreira

Do tempo ninguém se atreve a perguntar-me, porém, atrevo-me a publicar este excelente texto para que todos os contadores e não contadores do Tempo o possam ler e apreciar. 
E deste modo, eu, um simples e parado Relógio de Corda, remeto-me à minha singela insignificância. 
Apesar de tirano, aproveitai bem o Tempo. Boa semana.

Do tempo ninguém se atreve a perguntar-me. Ninguém me aflora um conceito, para mim, sem sentido. Durmo e acordo e de repente atrasaram os relógios. Detesto horários.
Não sei que horas são. Não tenho sono, mas acham que devo dormir. Tudo porque a tirania do tempo assim o ordena. Mas se o corpo não o pede!
Vou-te contrariar ditador de ponteiros afiados. Vou andar ao contrário dos teus desejos. Vou destruir todos os relógios [...]
                                                                                                  (Leitura integral do texto, aqui)







O perfil do tempo - escultura de Salvador Dali, em Singapura (foto google)






quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

Se eu, tu

A fazer fé na informação deste vídeo, letra e voz deste poema pertencem a Txus di Fellatio, Jesús María Hernández Gil, um músico, letrista e baterista espanhol.
Este post é para ti. Tu, que ajudaste um velho relógio parado no tempo, a olhar para as horas, para os minutos e para todos os segundos com outro mecanismo. 
Se o tempo é vida, então a vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada. 
Aproveitemos o tempo enquanto é tempo.  




SE EU, TU

Se eu, tu.
Se cais, eu contigo,
e levantar-nos-emos juntos nisso unidos.

Se me perco, encontra-me.
Se te perdes, eu contigo,
e juntos leremos nas estrelas
qual é o nosso caminho.
E se não existe, o inventaremos.

Se a distância é o esquecimento,
farei  pontes com os teus abraços,
pois o que tu e eu temos vivido
não são cadeias… nem sequer laços:
é o sonho de qualquer amigo
é pintar um quero-te a traços largos,
e secá-lo no nosso regaço.

Se eu, tu.
Se duvido, empurras-me.
Se duvidas, entendo-te.
Se me calo, escuta o meu olhar.
Se te calas, lerei os teus gestos.

Se precisas de mim, assobia
e eu construírei uma escada
feita dos teus últimos beijos,
para roubar à lua uma estrela
e pô-la na tua mesinha para que te dê luz.

Se eu, tu.
Se tu, eu também.
Se choro, ri-te.
Se ris, chorarei,
pois somos o equilíbrio,
duas metades que formam um sonho.

Se eu, tu.
Se tu, comigo.
E se te ajoelhas
farei com que o mundo seja mais baixo, à tua medida,
pois às vezes para continuar a crescer
temos de nos agachar.
 
Se me deixas,
manterei viva a chama até que regresses,
e sem perguntas, continuaremos caminhando.
E sem condições, continuarei perdoando.
Se adormeces, continuamos sonhando,
que o tempo não passou
que o relógio parou.

E se alguma vez o riso se te tornar amargo,
se  te secam as lágrimas e a ternura,
estarei ao teu lado,
pois sempre te quis,
e sempre de ti cuidei.
 
Mas jamais te cures de querer-me,
pois o amor é como  D. Quixote:
só recupera a sanidade para morrer.
Quer-me na minha loucura,
pois a minha camisa-de-forças és tu,
e isso me acalma,
e isso me cura…

Se eu, tu.
Sem ti, nada.
Sem mim, se queres, experimenta.

(tradução para português de David T. Ferreira)

terça-feira, 4 de Novembro de 2014

O passarinho viúvo

Se há histórias em que não conseguimos retirar nada de nada; esta história é uma delas, porque tudo faz falta e tudo faz sentido.
Descobri-a esta tarde, na sala de aula, num livro de histórias da Matilde Rosa Araújo. E é lindíssima!

O passarinho viúvo

     Era uma vez um passarinho viúvo. Sua fêmea tinha morrido numa tarde de Inverno. Numa daquelas tardes de Inverno em que caem as folhas e os troncos das árvores ficam sozinhos. E o céu cinzento. E tudo muito frio. Tão frio que param os corações.
     E sua fêmea morreu. Morreu sobre um tronco ao qual havia caído a última folha. Quem sabe se naquele tronco faria ninho na próxima Primavera?
     Caiu no chão num novelito de penas. E tudo pareceu mais frio. Mais cinzento. O ar menos transparente e estava transparente.
     Chegou o passarinho macho ao tronco onde há pouco descansava a fêmea.
     Trazia uma erva no bico. Uma fina erva tenra de luz. Como uma flor.
     - Onde estás? Onde estás?
     Agora um voo planado rente à poeira e às formigas no chão. 
     - Onde estás? Onde estás?
     A pequena erva, quando fez a primeira pergunta, caiu mesmo sobre o novelito de penas. Estava ali o novelito morto de frio.

     O passarinho viúvo sentiu mais frio também. Apeteceu-lhe morrer para ali. Mas elevou-se no ar. E cantou. Como se escrevesse com o bico riscos de tinta roxa no ar frio. Riscos tristes.
     E o vento ouviu. E começou a bailar. E juntou as folhas caídas num bailado quase maluco sobre o novelito de penas.
     E o passarinho viúvo cantou mais. Agora os riscos do som do seu bico tomaram as cores todas do arco-íris. Já não eram roxos apenas. Penas.
     E, por fim, calou-se. E o silêncio foram riscos brancos de paz. Eram paz.
     Agora o passarinho viúvo canta de novo. Canta no dia porque a alegria, a coragem é o dever de toda a gente. Desde os homens aos pássaros.
     Canta.
     Os homens escutam-no. E dizem:
     - Que pássaro feliz!
     E trabalham com alegria maior. Sofrem menos.
     E o passarinho viúvo continua a cantar. Vai buscando ervinhas novas que traz no bico. Poisa em troncos cheios de folhas novas.
     E, no chão, já não há o montinho de folhas. Na terra, húmida de Primavera, nasce uma flor simples - uma flor. Aberta.

                                            Matilde Rosa Araújo, O Gato Dourado, Ed. Livros Horizonte