quarta-feira, 4 de maio de 2016

A nuvem que parecia um rato

De regresso a casa dentro do carro, algures numa autoestrada, o rádio segue mudo - como é, aliás, hábito -, desviaste o olhar em direcção ao céu.
"Olha para cima... Aquela nuvem parece um rato."- disseste serenamente.
E não é que aquela nuvem parecia mesmo um rato focinhudo desenhado no céu?!
Lembrei-me então, que as crianças também são peritas em saídas inesperadas, e que, por breves segundos, também eu senti que estava ao lado da maior criança do mundo.
Em abono da verdade, há quem olhe para o céu à procura da eternidade ou olhe só por olhar, sem nada conseguir vislumbrar. Mas nós, "crianças" grandes que somos, continuaremos a olhar para o céu e para a terra, imaginando nuvens com a forma de ratos focinhudos ou pedras do mar que parecem corações.

"That it's gonna get better
Don't worry (...)"

terça-feira, 26 de abril de 2016

A Mentira

Cheguei naquele fim de tarde, pronto para esconder o que se estava a passar. Sim, menti! 
E continuei a mentir, ao teu lado, em cada recanto da nossa casa, em cada lugar visitado, a cada hora que passava, longe, perto,... Mentia com todos os dentes. Mentia com gozo. Mentia por gozo. Mentia por mentir. Porque mentir, a ti, e só por seres tu, nunca me dera tanto prazer. 
Olhavas-me sempre com aquele ar de quem acreditava piamente nas minhas palavras. E eu ria por dentro "mais uma. Esta já passou." - pensava.
Passei a usar a mentira, como se de um modo de vida se tratasse. Para tudo e mais alguma coisa, mentia-te, a ti, só por seres tu.
Se deixara de fazer parte dos meus padrões morais, então porquê preocupar-me com a verdade? Tornei-me obsessiva e compulsivamente numa pessoa mentirosa, sem escrúpulos. Não importavam os meios para atingir os fins. 
Com o tempo, tornaste-te num ser viciado; viciado nas mentiras que te contava. Pedias-me mais e mais. Tornámo-nos seres a roçar o limiar da loucura, com tanta mentira.
Um dia cansei-me. Disse-te a única mentira em que tu não acreditaste. E...



segunda-feira, 18 de abril de 2016

A boneca

Jaz a boneca.

Metro e vinte de altura, cabelo alaranjado, olhos esbugalhados, lábios carnudos.Esbelta (linda para quem apreciar o estilo).
Jaz a boneca no recreio.
Desmembrada. Maltratada.Violentada.
Pernas e braços largados ao Deus dará. Mete dó.
Jaz a boneca no recreio.
De plástico. Assim é o seu corpo, agora molhado pela chuva que cai incessantemente.
Nua ou vestida, outras vezes semi nua.
Com ela brincam ao faz-de-conta.
Com ela simulam ter sexo.
Mas...
Um dia...
Levaram-na pela mão. Um cortejo de miúdos a acompanhavam.
Algo de mau aconteceu. Pensei.
Jaz a boneca, no recreio, nas mãos dos petizes.
Numa bela manhã, porém, morreu.
O funeral lhe fizeram. Enterraram-na num chão de gravilha.
Apenas com a cabeça de fora, rezaram à sua volta. Fingiram que choravam.
Outro dia chegou...
A boneca ressuscitou.
E novamente a completaram.
Calças, sapatos, camisola, pernas e braços no sítio certo.
Jaz Xana, a boneca do recreio, numa escola onde se passa tudo isto, e muito mais!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

tempo e silêncio

Não temos mais nada para dizer. 
O que fomos dizendo nos últimos tempos, dissemo-lo no mais absurdo dos silêncios; daqueles silêncios que nos pesam toneladas na alma, que nos sufocam, e nos tornam seres infelizes e incompletos e insatisfeitos.
Porque as palavras se gastaram. Porque as palavras se esvaíram por outros meios. Porque as palavras encontraram outros destinatários. Porque... porque...
Porque tinha que ser assim?! Porque...
O nosso tempo esgotou-se. As palavras esgotaram-se.
Tudo se esgota, meu amor. 
Tudo se esgota, se quisermos.


 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Aula do Kama Sutra

Viajar pelo mundo dos blogues tem destas surpresas.
Desconhecia a poesia em língua árabe, talvez por isso tenha considerado interessante aquilo que li  aqui.



Aula do Kama Sutra


Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela


Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões

tradução muito provisória


درس من كاما سوطرا

بكأس الشراب المرصَّع باللازوردِ
انتظرْها ,
على بركة الماء حول المساء وزَهْر الكُولُونيا انتظرْها ,
بذَوْقِ الأمير الرفيع البديع
انتظرْها ,
بسبعِ وسائدَ مَحْشُوَّةٍ بالسحابِ الخفيفِ
انتظْرها ,
بنار البَخُور النسائِّي ملءَ المكانِ
انتظْرها ,
برائحة الصَّنْدَلِ الَّذكَريَّةِ حول ظُهُور الخيولِ
انتظْرها ,
ولا تتعجَّلْ , فإن أقبلَتْ بعد موعدها
فانتظْرها ,
وإن أقبلتْ قبل موعدها
فانتظْرها ,
ولا تُجفِل الطيرَ فوق جدائلها
وانتظْرها ,
لتجلس مرتاحةً كالحديقة في أَوْجِ زِينَتِها
وأَنتظْرها ,
لكي تتنفَّسَ هذا الهواء الغريبَ على قلبها
وانتظْرها ,
لترفع عن ساقها ثَوْبَها غيمةٌ غيمةٌ
وانتظْرها ,
وخُذْها إلى شرفة لترى قمراً غارقاً في الحليبِ

انتظْرها ,
وقَّدمْ لها الماءَ , قبل النبيذِ , ولا
تتطَّلعْ إلى تَوْأَمْي حَجَلٍ نائميْن على صدرها
وانتظْرها ,
ومُسَّ على مَهَل يَدَها عندما
تَضَعُ الكأسَ فوق الرخام
كأنَّكَ تحملُ عنها الندى
وانتظْرها ,
تحَّدثْ إليها كما يتحدَّثُ نايٌ
إلى وَتَرِ خائفٍ في الكمانِ
كأنكما شاهدانِ على ما يُعِدُّ غَدٌ لكما
وانتظْرها ,
ولَمِّع لها لَيْلَها خاتماً خاتماً
وانتظْرها ,
إلى أَن يقولَ لَكَ الليلُ :
لم يَبْقَ غيرُكُما في الوجودِ
فخُذْها , بِرِفْقٍ , إلى موتكَ المُشتْهَى
وانتظْرها ! ...

domingo, 3 de abril de 2016

------A--L-------B--E---R---T-O----

«O tempo engoliu aquilo que não teve força para se eternizar»

                                                      Al Berto, Diários 21/6/94

sexta-feira, 1 de abril de 2016

É mentira

Correm por aí várias versões sobre a origem do Dia das Mentiras. Provavelmente teria sido mais uma brincadeira que pegou e alastrou pelo mundo fora. Felizmente, o comércio não retira deste Dia grande €usufruto€... Adiante.
Já agora...
"O que é pior: a chamada 'mentira piedosa' ou a verdade cruel?" (Millôr Fernandes)?