sexta-feira, 20 de maio de 2016

Da oração ao sujeito e predicado que sou

Não podemos separar os elementos essenciais dentro de uma oração (frase) sem que isso provoque alguns danos.
O sujeito como elemento que desempenha ou pratica a ação, e o predicado, ele próprio revelador da ação praticada pelo sujeito, devem ambos estar em sintonia. Complementarem-se.
Por vezes há necessidade de complementos, uns diretos outros indiretos, ou outros, para que a oração fique mais rica ou com um sentido até, diferente, sem que, e apesar disso, o significado global da mesma fique mais empobrecido ou inteligível.
Os elementos gramaticais unem-se numa concordância substimada por muitos. Talvez por isso, a gramática seja tão mal amada, tal mal compreendida.
Aprendemos desde muito cedo que o adjetivo deve concordar em género e número com o nome, por exemplo. 
E se transpuséssemos estes conceitos para outros contextos...
Hoje refleti sobre isto. Coisas da profissão, pensei. 
Eu sou...; nesta oração sou um sujeito simples.  
Eu e tu somos...; eu e outra pessoa passamos a ser um sujeito composto. Porém, se substituir "Eu e tu" por "Nós", voltamos a ser um sujeito simples mesmo sendo duas pessoas (ou mais).
Eu sou o sujeito e o predicado ao mesmo tempo. Sou também complemento  circunstancial. 
E digo-vos que não abdicarei nunca dos complementos circunstanciais de modo, de meio, de fim ou de companhia, sem os quais os predicados da minha existência, seja como sujeito simples ou seja como sujeito composto, jamais fariam sentido.

Ironias ou simbologias gramaticais?!

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Prefácio

Li um livro.
O livro exibia um prefácio que estava propositadamente em branco, ou quase. Numa página desnudada de palavras, mas não de emoções, liam-se apenas duas curtas frases que, supostamente, tinham sido escritas pelo prefaciante, ele próprio autor do livro. 
Continuei a ler o livro. Da primeira à última página, tentando fazer exercícios - por vezes inglórios - de abstracção do seu conteúdo. 
No final, digeri-o. E posso dizer que me deixou um travo agridoce no coração e no pensamento.

 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

E de novo, Al Berto

é tarde, meu amor

 

é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…
a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda… cantar-te os gestos com

[ternura
mas não
águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem

[estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in, O Medo (Trabalho poético, 1974 – 1990), Assírio & Alvim, Lisboa, 1991

E um óptimo fim de semana.






quarta-feira, 4 de maio de 2016

A nuvem que parecia um rato

De regresso a casa dentro do carro, algures numa autoestrada, o rádio segue mudo - como é, aliás, hábito -, desviaste o olhar em direcção ao céu.
"Olha para cima... Aquela nuvem parece um rato."- disseste serenamente.
E não é que aquela nuvem parecia mesmo um rato focinhudo desenhado no céu?!
Lembrei-me então, que as crianças também são peritas em saídas inesperadas, e que, por breves segundos, também eu senti que estava ao lado da maior criança do mundo.
Em abono da verdade, há quem olhe para o céu à procura da eternidade ou olhe só por olhar, sem nada conseguir vislumbrar. Mas nós, "crianças" grandes que somos, continuaremos a olhar para o céu e para a terra, imaginando nuvens com a forma de ratos focinhudos ou pedras do mar que parecem corações.

"That it's gonna get better
Don't worry (...)"