sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Os amigos de longa data

Eram amigos de longa data - Galvão da Silva, futuro ministro, e Salgado, o homem verde do banco verde que apesar de tanta trapalhada, continua verdíssimo e sem perspectivas de que alguma vez venha a amadurecer -.
Devido a esta amizade perpetuada no Tempo, trocavam entre si "pequenos" favores, ou se preferirem, "pequenas" atençõezinhas.
Espantados?! Ora pois não! Só as pessoas amicíssimas podem dar-se ao luxo de tamanhas manias e tamanhos nobres gestos.
E à conta desta gente, que continua isenta de quaisquer valores morais ou éticos, vamos vivendo, refletindo, pensando e escrevendo.

"Os amigos de longa data" são aqueles amigos sem prazo de validade. Prolongam-se no tempo, e quiçá no espaço.
Resistem. Sabem abdicar. Gostam de nós. Tentam compreender-nos. Criticam-nos. Elogiam-nos sem aquelas bajulices irritantes. Aturam-nos independentemente do nosso estado de humor, do nosso feitio, estado profissional ou pessoal.
Os amigos de longa data são também, por norma, leais, honestos, verdadeiros, transparentes, genuínos (a longevidade  não acontece por acaso).
Porém, os amigos de longa data, ao invés dos amigos de curta duração, também podem ser o oposto de tudo o que foi escrito, e serem: interesseiros, desonestos, falsos, arrogantes,...
Com o Tempo, aprendemos a conhecer os amigos; os de longa data e os outros.
Nem sempre os (re)conhecemos à primeira, mas eles acabam sempre por se revelar, mais cedo ou mais tarde, numa ou noutra circunstância.
Aqueles que não nos desiludem (uma raridade), são candidatos à categoria seguinte: os amigos eternos.
Independentemente dos amigos virem dos primórdios, ou não, nunca deveríamos tomar o Tempo como garantia.
Muitas vezes, os grandes desgostos vêm dos ditos amigos de longa data.


 


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Invisível

Como eu gostava de ser invisível!
Ser um daqueles personagens dos efeitos especiais da arte cinematográfica!
Passar para lá de portas, barreiras, obstáculos e, oculto, poder fazer coisas inimagináveis!
Pensem no que seria, por exemplo, entrar numa geladaria e provar aqueles sabores deliciosos... 
Ou entrar, numa loja e experimentar aqueles sapatos... 
Ou pregar partidas... 
Ou simplesmente ser invisível porque sim, porque ser-se invisível também pode ser um estado.

"I'm more than you know
I'm more than you see here
[...]
You don't see me but you will
I am not invisible" , Invisible, U2 
 
 
 

sábado, 17 de outubro de 2015

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O ladrão de molas

O ladrão de molas ostentava-se e bastava-se a si próprio: presumido, egocêntrico, irresponsável, um mentiroso compulsivo.
Não necessitava de ninguém porque, dizia, conseguia fazer, resolver tudo sem ajuda, e muito menos ouvia conselhos ou opiniões de terceiros; uma espécie de ser humano autossuficiente em algumas tarefas. Para outras - a maioria, e quiçá as mais importantes - nem tanto.
Tinha uma imagem deturpada das mulheres, especialmente as que tinha dentro da sua casa.
A atenção, a valorização, a demonstração de qualquer gesto de carinho que fosse, ou presenteá-las com qualquer pedaço de Tempo que fosse, era por norma, sempre, e segundo a sua visão tacanha e machista, um sinal de fraqueza.
Começou a viver de forma solitária. Quem (con)vivia com o ladrão de molas, acabava por se afastar, tais eram os constantes sobressaltos e o desespero que provocava.
Nunca (se) (a)percebeu que a maior das solidões era a solidão vivida a dois.
O ladrão de molas nunca entendia os sinais. Nada! Tinha as prioridades trocadas, mas também tinha vícios. Costumava satisfazer o seu ego, as decepções e a indiferença que o caraterizavam e atormentavam, silenciosamente, dia após dia, rodeando-se dos mais diversos objetos decrépitos e sem préstimo. Colecionava-os, porém, não cuidava deles. Pensa-se, aliás, que desconheceria o significado da palavra CUIDAR.
Acomodou-se na ilusão de que a vida lhe sorriria um dia de mão beijada, sem que nada tivesse que fazer para isso. Contudo, a espera, a indiferença e o descrédito geraram cansaço e desamor.
Nem sempre quem espera, alcança. A verdade é que quem espera, quase sempre acaba desesperado.     
O ladrão de molas, que nunca precisara de consultar ninguém, porque se considerava o tal ser autossuficiente, partiu emocional e moralmente só, derrotado,...
Infelizmente não partiu só. Partiu, contudo, ficaram as marcas do seu egoísmo e individualismo, deixando emocionalmente alguém bem mais frágil; alguém bem mais desacreditada da vida.
Não se sabe precisar quando, mas pensa-se que teria voltado para levar as molas que prendiam as suas ilusões numa corda que há muito ameaçava quebrar.