sexta-feira, 24 de abril de 2015

Anúncio de uma casa...

Anúncio de uma Casa Onde Ninguém Quer Morar
                            (Carles Torner, traduzido do catalão por Marta Ferré)

Foi tantas vezes saqueada
por gente com tantas caras
que já não importa saber
quem foi o autor dos crimes:
podíamos até ter sido nós.
Agora só o sol saqueia algumas palavras
sem dobradiças nem soleira
e derriba porta sem fechaduras.

Lá dentro vivem mulheres
cheias de vozes emudecidas
que não sabem como as amar:
regam pedras,
cosem prendas para os ausentes
e oferecem-te signos,
cinzas, chuva de céu.

Ouve-me:sou o anuncio de uma casa
onde ninguém quer morar:
Não tens com que a comprar:sê bem-vindo.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Tempo e tento

Não é conselho de Relógio mas podia ser.
Nada como tentarmos ter mais tento; um pouco mais de cautela ou atenção para com o Tempo. Afinal, ele está sempre connosco. Não descola das nossas vidas. É cíclico. Não estica. Não encolhe. Não foge. Nós é que fugimos dele. Desculpamo-nos com a falta de tempo para evitar ou deixar de fazer isto ou aquilo.
Ou por outra, quantas vezes usamos o Tempo como alibi para... ?
Tenham tento e uma boa semana!




Tempo e tento

                                                                     

"Não tenho tempo. Não tenho tento. Esvai-se-me por entre os dedos. Esbanjo o tempo em dislates. Na vidinha tonta das obrigações quotidianas. E quando o quero para mim, já se foi, digo. Disparate. Como se o tempo se fosse. Desaparecesse. O tempo está lá sempre. Pelo menos até morrermos temos sempre tempo. Podemos não ter é mais energia ou vontade. Mas tempo temos. É só querermos. Mas como nos fazem sentir culpados de empregarmos o nosso tempo onde queremos e como queremos. Como nos impingem mais tarefas comezinhas, como se fossem a coisa mais importante do mundo, e nós as aceitamos e executamos, lá acabamos a dizer, Não tenho tempo. E ele esvai-se, de facto, porque o que desbaratamos não volta mais. Por isso temos de consumi-lo com parcimónia. Temos de usá-lo connosco próprios, naquilo que for mais importante para nós, para nunca sentirmos essa sensação de desperdício sem sentido. Temos de ter tento com o tempo."
                                                                                     
                                                                                                (texto gentilmente cedido por DTF)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

" Por falar em sexo, quem anda me comendo / É o tempo"

Benefícios e surpresas que o Tempo tem...
Fiquei a saber sobre a existência desta senhora e gostei, especialmente deste poema:
Vida/tempo
por Viviane Mosé (com link)

Quem tem olhos pra ver o tempo?
Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?

O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina.
Sem raiva nem rancor
                            O tempo riscou meu rosto com calma.

Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante.
Acho que ganhei presença.

Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando.
Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim

                            Por falar em sexo quem anda me comendo
É o tempo.  Na verdade faz tempo, mas eu escondia

Porque ele me pegava à força, e por trás. 
Um dia resolvi encará-lo de frente e disse:  Tempo, se você tem que me comer  Que seja com o meu consentimento.  E me olhando nos olhos.  Acho que ganhei o tempo.  De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até remoçando.