domingo, 9 de abril de 2017

"Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor..."


O quê? Valho Mais que uma Flor

O quê? Valho mais que uma flor
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...

Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?

Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

sexta-feira, 31 de março de 2017

O velho portão do cemitério

Continuo a fazer o luto de forma natural e serena.  
Quando eu era criança, avistava da casa dos meus tios e dos meus avós, o cemitério. Pensava, "nunca hei-de entrar ali sozinha". Admirava, no entanto, a coragem e a sapiência da tia Hermínia que nada temia e dizia sempre, "não devemos ter medo dos mortos mas sim dos vivos". 
Levei 43 anos a perceber que ela, uma vez mais, estava certa. 
Ontem, ao fim da tarde desafiei-me a mim própria. 
Precisava de lá voltar. Precisava de colocar uma daquelas flores artificiais... Precisava de fazer uma visita como antes, quando... Precisava de imaginar aquele colo e as mãos sobre os gatinhos...
E aquele amontoado de terra, onde já se misturam ossadas com restos de madeira e pedras, provocou-me uma tristeza a dobrar. 
Pensei porém, nas duas pessoas que me deram a vida e como, finalmente, devem estar felizes por voltaram a estar juntas. O amor os juntou, até na morte. Literalmente.
O velho portão de ferro do cemitério voltou a ranger. Fechado, sempre, como convém, que o sítio é de muito vento. 
E naquele espaço repleto de silêncios estranhos, sepultam-se cadáveres que nos alimentam memórias e saudades para sempre. E já não temos medo, mas choramos na mesma.  

segunda-feira, 20 de março de 2017

Ballade de la Convenance de se Deshabillere au Printemps

A minha homenagem, em língua francesa, à chegada da Primavera.



Ballade de la Convenance de se Deshabiller au Printemps 

par Catulle Mendès

La Seine, clair ciel à l'envers,
S'ensoleille comme le Tage !
Laisse éclore des menus vairs
Tes bras, ta gorge et davantage.
Au diable l'imbécile adage :
" Avril. Ne quitte pas un fil. "
Il ne sied qu'aux personnes d'âge.
Quitte tout, ma mie, en avril !
Quand Zéphyr dévêt des hivers
La colline après un long stage,
Pourquoi resteraient-ils couverts
Les seins de lys qu'un val partage ?
Vent ! déchire en ton brigandage
Ces brumes : batiste et coutil !
Je me charge du ravaudage.
Quitte tout, ma mie, en avril !
C'est le temps où par l'univers
Le franc amour flambe et s'étage ;
Le faune halète aux bois verts
Et l'ermite en son ermitage.
Aimons ! plus de baguenaudage !
Les pudeurs, le refus subtil
Des flirts et du marivaudage,
Quitte tout, ma mie, en avril !
ENVOI
Ange ! si ton démaillotage
Veut un poêle, mon coeur viril
Le remplace avec avantage !
Quitte tout, ma mie, en avril.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sonegador de sonhos

De sonhos tinha a alma cheia. 
Tão cheia que um dia deixou de dormir com receio de sonhar. 
Adotou estratégias para não enlouquecer totalmente. Quando sentia o peso das pálpebras, defendia-se como podia. 
Passara, por isso, a cronometrar o sono. De meia em meia hora, um alarme tocava e o homem acordava. E adormecia. E acordava. E ia vivendo neste ram-ram tão surreal quanto existencial. 
Os sonhos morriam à nascença sem qualquer hipótese de ver a luz da noite ou do dia. Sem qualquer hipótese de se tornarem sonhos cor-de-rosa, sonhos bons, sonhos quimeras, sonhos "pesadelescos", ou sonhos reais.  
Um dia numa das suas longas horas de vigília, sentado, numa poltrona, chega-lhe esta mensagem.
"Esta noite tive um sonho tão parvo!Imagina que, íamos de viagem num autocarro, nem eu sei para onde! Quando me virei para o lado, não estavas. Tinhas desaparecido e o autocarro nem sequer tinha parado. Passei o resto do sonho à tua procura... Que aflição!
P.S. Amo-te. (E não é um sonho)"

E depois das palavras, a música: Dreams by Fleetwood Mac.
Bons sonhos, sempre! 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

L'hiver, Antoine de Latour

 L'hiver

Ce qu'il faut au bonheur, lorsque souffle la bise,
C'est une porte close, un livre, et dans un coin
Une lampe qui brûle, et qui tout bas me dise
Que, si l'ennui venait, la muse n'est pas loin.

Il faut que d'heure en heure, et d'église en église,
La voix de l'avenir me parle dans l'airain,
Relève par degrés mon âme qui se brise,
Et, d'espoir en espoir, la mène au lendemain.

Surtout que nul amour ne tourmente ma veille,
Ou si dans le passé quelque ombre se réveille,
Qu'elle s'efface vite, et se perde à mes yeux,

Dans ce monde de l'âme, où d'une vie étrange
L'art anime son rêve, être mystérieux
Qui n'est déjà plus l'homme, et n'est pas encore l'ange.

                     Antoine de Latour (1808-1881)


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Fast love

No seguimento da notícia de ontem, eis uma versão alternativa ao tema "Fast love" do recentemente desaparecido George Michael.