quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Abusada

Aquela confissão no meio da conversa deixara-me sem fala. Nada, mas mesmo nada, fazia crer que aquilo lhe teria sucedido em miúda.
De tal modo que já nem sabia precisar a idade. Talvez rondasse os 5, 6 anos. Ou os 8! 
Não conseguia de todo lembrar-se por mais ginástica mental que fizesse, mas lembrava-se perfeitamente das noites que passara com pesadelos, da dificuldade em adormecer, do medo de ir à casa-de-banho, do medo do escuro, do medo de contar à mãe ou ao pai. Enfim, do MEDO de tudo!
Crescera. Fizera-se mulher. Diria eu que ela era uma mulher adulta normal, equilibrada, sem vaidades de maior ou "pancas" de fugir. Tirara um curso superior e, acho, pelo que conversávamos, fora uma segunda opção do seu agrado e gostava profissionalmente do que fazia, apesar do cansaço.
Era frequente contar-me a sua vida conjugal, que a certa altura começara a entrar em declínio. 
Por vezes é preciso um "big brother" para ficarmos a conhecer melhor a pessoa que escolhemos para casar. Os homens caçam-nos na fase do namoro e depois de achar que lhes pertencemos, passam a ignorar-nos. Gostava de amar e que alguém me amasse para sempre, dizia-me.
E como se isso não bastasse, outros factores fizeram com que deixasse de lutar pela pessoa e pelo amor; amor entretanto ausente de todos os actos da vida a dois. 
Separou-se de papel passado, dez anos depois do declínio.
Percebo agora melhor, e mais do que ninguém, a minha amiga.
O medo da entrega total e incondicional, já numa nova fase da vida... Talvez fosse útil consultares um profissional, agora .- Embora eu sempre a considerasse uma mulher de armas, de uma força interior invejável e com uma paciência de santa, só ao fim de quarenta e tantos anos é que se sentiu com a coragem necessária para confessar os abusos sexuais de que fora vítima em criança.
Um familiar próximo... sem, porém, lhe ter guardado alguma vez ódio ou rancor.
Tiro-lhe o chapéu. Faço-lhe a vénia e admiro-a ainda mais.  

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