sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016 - 2017

Dou por mim uma vez mais, talvez inconscientemente, a fazer este desnecessário, mas quiçá útil, exercício de memória barra/ retrospectiva barra/ balanço, sobre os restantes 364 dias deste ano que está prestes a terminar.
O usual nestas datas já todos sabem como é. 
São votos e mais votos.
Muita saúde (de facto sem ela dificilmente teremos o que se segue), trabalho, paz, e mais o resto. Incluo neste "resto" também, as expectativas que temos em relação ao futuro e às pessoas. 
Sobre pessoas refiro-me, claro, às mais chegadas; familiares, companheiro/a, amigos, colegas, entre outros.  
É nosso desejo que as expectativas não saiam defraudadas, sob pena de levarmos com uma grande decepção na tola, e a desdita nos apoquente o coração durante uns bons tempos. 
Este sistema rodopiante de vivências fugazes, superficiais e libertalistas no qual estamos envolvidos enquanto membros da sociedade, não é fácil e traz responsabilidades acrescidas, seja na vida pessoal, seja na vida social.
É preciso cada vez mais ser uma espécie de super homem ou de super mulher para que nos ENTENDAMOS DE VERDADE, sem filtros, sem medo de reclamar, sem medo de dizer, sem medo de opinar ou perguntar.   
Pessoas, cuja paciência é de curta duração. Pessoas que se cansam de outras demasiado depressa. Pessoas egocêntricas. Pessoas insatisfeitas. Pessoas irresolutas. Pessoas dissimuladas. Pessoas falsas. Pessoas violentas. E a lista continuaria por aí fora... 
Por todos os motivos, gostaríamos de manter distância de pessoas que possuam algumas destas características em doses potencialmente perigosas para a nossa saúde e bem-estar físico e mental. 
Que 2017 seja diferente para melhor! Que 2017 seja um dos melhores das vossas vidas!

sábado, 19 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

Renascer

Por vezes nascemos, mas com uma necessidade urgente de renascer.
E renasce-se para se ser a mesma pessoa, apenas com um colorido ligeiramente diferente e poder pintar com as cores do arco íris, um futuro que queremos melhor. Foi assim que se sentiu o Relógio de Corda há dois anos.

«Era um relogio de corda que, parado, esperava por quem o pusesse a medir o tempo. Porque ele gostava de medir o tempo. De ouvir o discreto tic-tac do seu mecanismo quando trabalhava. Parecia-lhe que assim o tempo custava menos a passar. Estranha idiossincrasia de quem, assim parado, estava condenado a medir eternidades. E angustiava-se por depender de quem lhe desse corda para poder ser efectivamente um medidor de tempo. Então, farto de esperar, concentrou energias e tic atrás de tac começou a funcionar sozinho. E nunca mais parou de medir o tempo.»

David Teles Ferreira
In Crónica de um renascimento e outras escritas de bolso, página 40.
 (Edição de Autor – 1ª Edição – junho 2016)


 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

So long, Leonard.

Há os que partem e deixam marcas e inspiram os que ficam.
A Marianne que inspirou a letra desta canção morreu em Agosto de 2016...
Não serão necessárias mais palavras, pois não?! 


terça-feira, 8 de novembro de 2016

50

O Tempo é assim, não perdoa.
Já não passamos sem eles. Enxergamos mal ao perto e o longe torna-se impreciso. 
Os óculos! "Onde deixei os óculos?!"
A culpa destes e de outros esquecimentos é da outra. Da memória! São falhas cada vez mais frequentes. Dizem que um dia receberemos a visita do "alemão" nosso amigo, o Al ZEI qualquer coisa... Porra, pah!!! Quem disse que esse tipo era meu amigo e que eu queria a visita dele?!
O Tempo flacidez.
Flácidos! Rugas! Ficam os seios, a pele. 
Tempo descompensação. Hormonas a menos. Cabelo que sofre com quedas. Ciclos menstruais irregulares. Alterações do humor. Tomam-se doses extra de substâncias para compensar.  
E há os pêlos também. A mais. A menos. Tudo depende.
Hormonas que já não andam aos saltos como antes. Contidas, sim, que a idade é a de ter juízo.
Somos cotas. Somos Velhos. A cabeleira branca não engana. Mas sentimo-nos bem dentro da pele que é nossa ainda.
Feliz aniversário para todos os ESCORPIÕES!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

5:55

Não importa a hora. O importante é fazê-lo. Seja lá isso o que for, mas faça-o.

Há nesta canção da Charlotte, filha de seu pai Gainsbourg e de sua mãe Birkin, algo que nos transporta para uma magia qualquer inexplicável.
E já agora, façam o favor de ter um bom final de semana!


terça-feira, 11 de outubro de 2016

Overjoyed, Over love, Over me, Over hearts

Algumas melodias continuam a encher-nos os ouvidos e a alma, apesar do tempo.



 [...]
Over hearts
I have painfully turned every stone
Just to find
I have found what I've
searched to discover

I come much too far
For me now to find
The love that I sought
Can never be mine

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

"Incontinência emocial"

O coração queria amar sem restrições e sem receios. Não conseguia. Era uma impotência tal, que quanto mais pensava que queria, menos força sentia para vencer aquela espécie de maldição.
Um dia encheu-se de coragem e procurou ajuda profissional.
- O senhor sofre de "retenção emocional".
Durante semanas a fio esmiuçaram ideias, pensamentos; vasculharam nas memórias e o problema pareceu ultrapassado ao fim de largos meses, em consultas quinzenais.
Corria tudo bem até ao dia em que conheceu alguém. Coração e razão estavam em sintonia. Fizeram juras de amor. Fizeram projetos. O futuro avizinhava-se risonho. Tudo parecia perfeito.
O tempo foi passando. O homem descobriu então, que a sua amada sofria de "incontinência emocional", que pingava emoções e afectos em demasia para com, ou quase todos os homens.
Esta curta história de amor termina aqui.
Cada um seguiu a sua vida.
Cada um com a sua "maleita".



quarta-feira, 20 de julho de 2016

A questão do amor

Isto é mesmo o que parece.
É muito importante senti-lo e vivê-lo mas, verbalizá-lo de vez em quando fica sempre bem. Enche a alma.
Há quanto tempo não diz à sua companheira/ao seu companheiro: "Amo-Te"?!

BOAS FÉRIAS!



domingo, 17 de julho de 2016

A doçura e a amargura do Tempo

Com o tempo perdemos capacidades e adquirimos outras (poucas, diga-se).
São mais as capacidades que perdemos que aquelas que ganhamos. Embora as capacidades que deixamos para trás - consciente ou inconscientemente - se possam considerar de discutível importância face a novas aquisições. Nada acontecerá por acaso. 
Adaptamo-nos aos efeitos colaterais do Tempo, mais do que ele a nós. 
É um mecanismo defensor que mais nenhum ser vivo possui e por isso nos torna seres tão especiais (ou pelo menos deveria tornar...).
Com o tempo tornamo-nos mais exigentes, mas também menos exigentes. Depende das circunstâncias.  
Isto é mais frequente quando pessoas se deparam, durante as suas vidas, com situações de doença, por exemplo. Mas também  há desgostos, desilusões, más experiências de vida, que podem condicionar ou influenciar as  nossas prioridades e exigências. Daí, o nível de exigência aumentar perante factos e vivências que antes nos passariam (mais) ao lado. E a verdade é que já não estamos para aturar determinados comportamentos ou levar com meia dúzia de balelas de terceiros, e mandámos às urtigas potênciais prevaricadores das nossas vidas pessoais e afectivas.
É assim que o tempo nos faz. Dóceis e amargos. É assim que o tempo implacável e protector quer que sejamos, acho.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

É tarde, meu amor - Al Berto

Retirado deste espaço, e como forma de suprir a minha ausência por aqui, segue a arte poética de Al Berto.
Bom fim-de-semana!

é tarde, meu amor

é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…
a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda… cantar-te os gestos com

[ternura
mas não
águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem

[estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in, O Medo (Trabalho poético, 1974 – 1990) , Livro Quarto – Trabalhos do olhar, Assírio & Alvim, Lisboa, 1991

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Da oração ao sujeito e predicado que sou

Não podemos separar os elementos essenciais dentro de uma oração (frase) sem que isso provoque alguns danos.
O sujeito como elemento que desempenha ou pratica a ação, e o predicado, ele próprio revelador da ação praticada pelo sujeito, devem ambos estar em sintonia. Complementarem-se.
Por vezes há necessidade de complementos, uns diretos outros indiretos, ou outros, para que a oração fique mais rica ou com um sentido até, diferente, sem que, e apesar disso, o significado global da mesma fique mais empobrecido ou inteligível.
Os elementos gramaticais unem-se numa concordância substimada por muitos. Talvez por isso, a gramática seja tão mal amada, tal mal compreendida.
Aprendemos desde muito cedo que o adjetivo deve concordar em género e número com o nome, por exemplo. 
E se transpuséssemos estes conceitos para outros contextos...
Hoje refleti sobre isto. Coisas da profissão, pensei. 
Eu sou...; nesta oração sou um sujeito simples.  
Eu e tu somos...; eu e outra pessoa passamos a ser um sujeito composto. Porém, se substituir "Eu e tu" por "Nós", voltamos a ser um sujeito simples mesmo sendo duas pessoas (ou mais).
Eu sou o sujeito e o predicado ao mesmo tempo. Sou também complemento  circunstancial. 
E digo-vos que não abdicarei nunca dos complementos circunstanciais de modo, de meio, de fim ou de companhia, sem os quais os predicados da minha existência, seja como sujeito simples ou seja como sujeito composto, jamais fariam sentido.

Ironias ou simbologias gramaticais?!

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Prefácio

Li um livro.
O livro exibia um prefácio que estava propositadamente em branco, ou quase. Numa página desnudada de palavras, mas não de emoções, liam-se apenas duas curtas frases que, supostamente, tinham sido escritas pelo prefaciante, ele próprio autor do livro. 
Continuei a ler o livro. Da primeira à última página, tentando fazer exercícios - por vezes inglórios - de abstracção do seu conteúdo. 
No final, digeri-o. E posso dizer que me deixou um travo agridoce no coração e no pensamento.

 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

E de novo, Al Berto

é tarde, meu amor

 

é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituraram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais…
a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda… cantar-te os gestos com

[ternura
mas não
águas, águas inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe ferido, louco em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem

[estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, in, O Medo (Trabalho poético, 1974 – 1990), Assírio & Alvim, Lisboa, 1991

E um óptimo fim de semana.






quarta-feira, 4 de maio de 2016

A nuvem que parecia um rato

De regresso a casa dentro do carro, algures numa autoestrada, o rádio segue mudo - como é, aliás, hábito -, desviaste o olhar em direcção ao céu.
"Olha para cima... Aquela nuvem parece um rato."- disseste serenamente.
E não é que aquela nuvem parecia mesmo um rato focinhudo desenhado no céu?!
Lembrei-me então, que as crianças também são peritas em saídas inesperadas, e que, por breves segundos, também eu senti que estava ao lado da maior criança do mundo.
Em abono da verdade, há quem olhe para o céu à procura da eternidade ou olhe só por olhar, sem nada conseguir vislumbrar. Mas nós, "crianças" grandes que somos, continuaremos a olhar para o céu e para a terra, imaginando nuvens com a forma de ratos focinhudos ou pedras do mar que parecem corações.

"That it's gonna get better
Don't worry (...)"

terça-feira, 26 de abril de 2016

A Mentira

Cheguei naquele fim de tarde, pronto para esconder o que se estava a passar. Sim, menti! 
E continuei a mentir, ao teu lado, em cada recanto da nossa casa, em cada lugar visitado, a cada hora que passava, longe, perto,... Mentia com todos os dentes. Mentia com gozo. Mentia por gozo. Mentia por mentir. Porque mentir, a ti, e só por seres tu, nunca me dera tanto prazer. 
Olhavas-me sempre com aquele ar de quem acreditava piamente nas minhas palavras. E eu ria por dentro "mais uma. Esta já passou." - pensava.
Passei a usar a mentira, como se de um modo de vida se tratasse. Para tudo e mais alguma coisa, mentia-te, a ti, só por seres tu.
Se deixara de fazer parte dos meus padrões morais, então porquê preocupar-me com a verdade? Tornei-me obsessiva e compulsivamente numa pessoa mentirosa, sem escrúpulos. Não importavam os meios para atingir os fins. 
Com o tempo, tornaste-te num ser viciado; viciado nas mentiras que te contava. Pedias-me mais e mais. Tornámo-nos seres a roçar o limiar da loucura, com tanta mentira.
Um dia cansei-me. Disse-te a única mentira em que tu não acreditaste. E...



segunda-feira, 18 de abril de 2016

A boneca

Jaz a boneca.

Metro e vinte de altura, cabelo alaranjado, olhos esbugalhados, lábios carnudos.Esbelta (linda para quem apreciar o estilo).
Jaz a boneca no recreio.
Desmembrada. Maltratada.Violentada.
Pernas e braços largados ao Deus dará. Mete dó.
Jaz a boneca no recreio.
De plástico. Assim é o seu corpo, agora molhado pela chuva que cai incessantemente.
Nua ou vestida, outras vezes semi nua.
Com ela brincam ao faz-de-conta.
Com ela simulam ter sexo.
Mas...
Um dia...
Levaram-na pela mão. Um cortejo de miúdos a acompanhavam.
Algo de mau aconteceu. Pensei.
Jaz a boneca, no recreio, nas mãos dos petizes.
Numa bela manhã, porém, morreu.
O funeral lhe fizeram. Enterraram-na num chão de gravilha.
Apenas com a cabeça de fora, rezaram à sua volta. Fingiram que choravam.
Outro dia chegou...
A boneca ressuscitou.
E novamente a completaram.
Calças, sapatos, camisola, pernas e braços no sítio certo.
Jaz Xana, a boneca do recreio, numa escola onde se passa tudo isto, e muito mais!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

tempo e silêncio

Não temos mais nada para dizer. 
O que fomos dizendo nos últimos tempos, dissemo-lo no mais absurdo dos silêncios; daqueles silêncios que nos pesam toneladas na alma, que nos sufocam, e nos tornam seres infelizes e incompletos e insatisfeitos.
Porque as palavras se gastaram. Porque as palavras se esvaíram por outros meios. Porque as palavras encontraram outros destinatários. Porque... porque...
Porque tinha que ser assim?! Porque...
O nosso tempo esgotou-se. As palavras esgotaram-se.
Tudo se esgota, meu amor. 
Tudo se esgota, se quisermos.


 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Aula do Kama Sutra

Viajar pelo mundo dos blogues tem destas surpresas.
Desconhecia a poesia em língua árabe, talvez por isso tenha considerado interessante aquilo que li  aqui.



Aula do Kama Sutra


Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela


Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões

tradução muito provisória


درس من كاما سوطرا

بكأس الشراب المرصَّع باللازوردِ
انتظرْها ,
على بركة الماء حول المساء وزَهْر الكُولُونيا انتظرْها ,
بذَوْقِ الأمير الرفيع البديع
انتظرْها ,
بسبعِ وسائدَ مَحْشُوَّةٍ بالسحابِ الخفيفِ
انتظْرها ,
بنار البَخُور النسائِّي ملءَ المكانِ
انتظْرها ,
برائحة الصَّنْدَلِ الَّذكَريَّةِ حول ظُهُور الخيولِ
انتظْرها ,
ولا تتعجَّلْ , فإن أقبلَتْ بعد موعدها
فانتظْرها ,
وإن أقبلتْ قبل موعدها
فانتظْرها ,
ولا تُجفِل الطيرَ فوق جدائلها
وانتظْرها ,
لتجلس مرتاحةً كالحديقة في أَوْجِ زِينَتِها
وأَنتظْرها ,
لكي تتنفَّسَ هذا الهواء الغريبَ على قلبها
وانتظْرها ,
لترفع عن ساقها ثَوْبَها غيمةٌ غيمةٌ
وانتظْرها ,
وخُذْها إلى شرفة لترى قمراً غارقاً في الحليبِ

انتظْرها ,
وقَّدمْ لها الماءَ , قبل النبيذِ , ولا
تتطَّلعْ إلى تَوْأَمْي حَجَلٍ نائميْن على صدرها
وانتظْرها ,
ومُسَّ على مَهَل يَدَها عندما
تَضَعُ الكأسَ فوق الرخام
كأنَّكَ تحملُ عنها الندى
وانتظْرها ,
تحَّدثْ إليها كما يتحدَّثُ نايٌ
إلى وَتَرِ خائفٍ في الكمانِ
كأنكما شاهدانِ على ما يُعِدُّ غَدٌ لكما
وانتظْرها ,
ولَمِّع لها لَيْلَها خاتماً خاتماً
وانتظْرها ,
إلى أَن يقولَ لَكَ الليلُ :
لم يَبْقَ غيرُكُما في الوجودِ
فخُذْها , بِرِفْقٍ , إلى موتكَ المُشتْهَى
وانتظْرها ! ...

domingo, 3 de abril de 2016

------A--L-------B--E---R---T-O----

«O tempo engoliu aquilo que não teve força para se eternizar»

                                                      Al Berto, Diários 21/6/94

sexta-feira, 1 de abril de 2016

É mentira

Correm por aí várias versões sobre a origem do Dia das Mentiras. Provavelmente teria sido mais uma brincadeira que pegou e alastrou pelo mundo fora. Felizmente, o comércio não retira deste Dia grande €usufruto€... Adiante.
Já agora...
"O que é pior: a chamada 'mentira piedosa' ou a verdade cruel?" (Millôr Fernandes)?


terça-feira, 15 de março de 2016

Contador de estrelas

Findo mais um dia, com a solidão como companhia, lá estava ele de olhos postos no céu. 
Não. Não era um aspirante a astronauta nem um astrónomo autodidata.
Chamava-se Benjamim, apenas.
Ficara assim, uma espécie de lunático noctívago, desde a partida da companheira. Quis a maldita doença que a infeliz se juntasse antes do tempo às outras estrelas. Porém, um consolo maior reconfortava a sua alma; Benjamim acreditava na existência de um paraíso cintilante. Segundo ele, o lugar para onde deveriam seguir todos os que Amam e todos os que são Amados, sem exceção.
Fosse como fosse, era assim que o senhor Benjamim gostava de pensar; que a sua Estrela seria mais uma no meio de muitas outras.
Mas a Estrela era igualmente uma mulher entre as mulheres; das muitas que teriam passado pelos setenta e muitos anos bem vividos deste homem. Fora ela, todavia, a única mulher, alma-quase-gémea, que lhe sossegara, numa fase já madura da vida, o coração das desgastantes paixões, aventuras e emoções fortes.
Benjamim via no firmamento aquilo que mais ninguém conseguia perscrutar.
Todas as noites era vê-lo sentado, estivesse frio ou calor, a admirá-lo. Por vezes não havia nada para ver, mas Benjamim sabia de cor onde estavam as constelações, os planetas,... 
E repetia este ritual noite após noite. Pegava na velha cadeira de madeira "traçada" pelo caruncho, num lápis de carpinteiro afiado em sucessivos golpes desajeitados de canivete, num pedaço de papel amarrotado e sujo, das sacas de farinha dos animais, e escrevia. Escrevia todas as noites, versos e mais versos.
Fê-lo até ao dia em que o céu se apagou, e as estrelas deixaram de lhe brilhar.

Quem o avistou na manhã seguinte, debruçado na velha cadeira, ao lado de um pedaço de papel humedecido pela maresia, imediatamente correu a anunciar na aldeia que o "Contador de estrelas" se tinha apagado. 


terça-feira, 8 de março de 2016

Ser, de Mulher

Concentro em mim todas as coisas da terra e da vida.

Sou um caminho inacessível entre vales.

Sou um atalho da natureza humana; um miradouro para contemplação, a troco de alguns momentos de prazer.
Sou árvore. Sou planta rara; por vezes desprotegida.
Sou gato e sou pássaro em simultâneo. 

Sou todas as partes do corpo humano. 
Sou ventre que deu abrigo.

Sou prancha ondulante; porém, é assustadora a imensidão do mar.
Sou atalho de teclado.
Sou mais uma foto, uma lembrança.
Sou mais uma mulher entre outras tantas.
Sou tudo e nunca serei nada.
Mas sou Mulher!



domingo, 14 de fevereiro de 2016

As voltas do Valentim, o santo.

Com algumas (poucas) alterações, reedito um texto alusivo ao dia, escrito em 2011.
E agora, com a vossa licença, vou dar corda ao relógio.
Malgré le temps, tenham um resto de bom domingo!

http://quantotempotemotempo.blogspot.pt/2011/02/e-se-sao-valentim-voltasse-hoje-terra.html

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Felicidade mórbida

Sofriam de felicidade mórbida.
Ela, à sua maneira, era a mulher mais feliz à face da terra. Ele, à sua maneira, era o homem mais feliz à face da terra. Eles, cada um no seu canto, cada um com seu encanto, cada um a seu modo, eram os mais felizes. 
Apelidados de loucos ou simplesmente de desajustados sociais, eram olhados com desconfiança pela sociedade.
Estados exacerbados de felicidade como este, começaram a preocupar as autoridades de saúde pública e a comunidade científica.
Estava em fase experimental uma cápsula milagrosa que prometia, sem recuso a qualquer intervenção cirúrgica, retirar substancialmente o excesso da felicidade, com vista a um maior bem-estar pessoal e social dos afectados. 
Apesar da felicidade mórbida não ser causa directa de transtornos graves nas suas vidas, havia a inexorável  pressão social...
O homem e a mulher oferecer-se-iam como cobaias. Mas muitos outros seguir-lhe-iam os passos.
Os resultados seriam apresentados anos mais tarde.
Os efeitos secundários associados à medicação para o combate ao flagelo da felicidade mórbida desencadearam reacções e comportamentos inesperados pelo laboratório responsável. 
Os estudos acabariam pouco tempo depois, por falta de financiamento e voluntários. 
Entretanto...
Pelo mundo inteiro, eles e elas continuavam a alimentar os respectivos egos, e fantasias e, demais relações inter-pessoais.
Até à data não foi quantificado o número de estados depressivos ou suicídios provocados por este distúrbio afetivo-emocional.
  

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Egoísmos

O egoísmo faz parte do Homem, manifestando-se das mais variadas formas e intensidades. Uns manifestam-no mais; outros menos.
Cada um é egoísta à sua maneira e pratica esse acto conforme o jeito ou a conveniência.
O egoísmo não tem status social, nem status económico. Em suma, não tem cara, mas existe.
Pode estar numa pessoa bem falante, numa pessoa que irradia charme, muito charme; num simples rosto simpático e bonito ou, em nada disto. Tanto veste Prada como uma marca contrafeita qualquer. 
Sendo considerado um defeito, pode tornar-se prejudicial consoante o modo de aplicação, e o fim a que se destina.
Porém, há um número finito de pessoas que, felizmente, não manifesta qualquer tipo de egoísmos. A estas, chamamos-lhes altruístas, generosas, abnegadas,... 
Em boa verdade, só conheci uma pessoa assim na vida.
E, pensando bem, creio que era despretensiosamente uma pessoa egoísta também, pois esquecia-se dela para cuidar dos outros.
Na noite em que a tradição das aldeias mandava velar pela alma dos mortos, ninguém apareceu para velar a dela.

(Este vídeo mostra um coro, constituído por homens e mulheres com problemas respiratórios. Pensar na força de vontade e no gosto com que cantam, dá que pensar)  



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Bibelot

Sou agora simples peça decorativa. Antes, não era.
Antigamente todos me viam e escutavam atentamente. Era novo, bonito, e de mim exalada um agradável cheiro perfumado a madeira exótica. Estava para ali, encaixado, mas imponente, no recanto daquele corredor escuro.
Antes eu era útil. Agora, não sou.
Dantes, tinha o privilégio de dar horas.  Hoje, sou bibelot.
Sou uma peça "bibelotizada" em vias de apodrecimento, que serve de alimento ao caruncho! Esquecida e fechada numa velha casa de aldeia.
Quem diria...
E a menina do cabelo aos caracóis que não me sai da memória. Os seus olhos abriam simultaneamente, de espanto e de medo, todas as vezes que passava por mim.
Provavelmente o único ser humano que considerou relevante quatro décadas depois, recordar o pedaço de relógio que fui.
É isto a vida de um objeto. É assim a vida. Tudo tem o seu Tempo.

sábado, 16 de janeiro de 2016

A foto de perfil, a de capa e eu

"Estás linda(o)! "
"Ui, que lindona (lindão)!"
"Mas que gata(o)!"
"Que bonito(a)!"
"Jeitosa(o)!"
"Estás muito bem!"
"Estás cada vez melhor!"
E um desenrolar de elogios, de piropos e de outros tantos "de's", continuaria.
Bem, mas, eu cá, o que gosto mesmo, é de ser visto(a), e revisto(a), e visitado(a), e gostado(a), clicado(a), e adorado(a) e... Sei lá que mais!
Altero a foto de perfil ou a foto de capa as vezes que forem necessárias e ninguém tem nada com isso! É uma necessidade, exterior ou interior, ou ambas, ou nenhuma, ou uma simples mania minha. Quiçá, uma espécie de obsessão-compulsão que me invade.
Não importa se a foto serve para fazer pirraça ou impressionar o amigo, a amiga, o vizinho, a vizinha, o primo, a prima, o/a colega, o/a ex,... Que se lixe! A culpa é de quem não gosta ou de quem a ignora.
Exponho-me em poses produzidas, coloco fotografias fofas do meu cão, do meu gato, do meu papagaio, do meu cágado e até do peixe minúsculo que mal se vê dentro do aquário, do anel de brilhantes, se necessário.
Abdico da minha privacidade familiar, expondo-a em prol de muitos "gostos" e atenção, ou, quem sabe, de algo mais.
Seja de perfil, seja de capa, não quero, nem posso passar despercebido(a).
Que tédio seria a minha vida! Como poderia alimentar o meu ego?!
É urgente publicar e alterar tudo o que seja visual. Se não o fizer, corro sérios riscos da atenção de uns quantos potenciais curiosos(as)/interessados(as) pela minha formosura (ou feiura), ou qualquer outro atributo meu, ir deambular num qualquer perfil alheio.
A superficialidade impera. Por mais que doa, esta é a grande verdade.
E queremos ser vistos pelos outros! E queremos ver os outros!
Transformamo-nos sem nos darmos conta, nos maiores "voyeurs" alguma vez já vistos; com a agravante de que não estamos a dar importância aquilo que realmente tem valor, para nos determos em milhentos de "gostos" ao longo da nossa vida, na superficialidade de uma foto, por exemplo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Haja licença

Haja licença para tudo e mais alguma coisa.
Haja licença para entrar, para incomodar; para "matar" o capitalismo, o terrorismo, o fanatismo, e toda a forma de exibicionismos dos insuflados, dos inchados, dos arrogantes que se consideram importantes.
Haja licença para dispensar os indispensáveis; para desmascarar a fraude, a mentira compulsiva e a outra.
Haja licença para aniquilar os sacanas que nos tramam, nos esgotam a paciência e nos fazem acreditar que a culpa do mal deste mundo, e da vida deles, é (só) nossa.
Haja licença para matar o tempo, que não tem culpa nenhuma das culpas que lhe atribuem.
Haja paciência!!!!!

... E a música - inspiração deste texto.

domingo, 3 de janeiro de 2016

A importância do número 2

Dois pulmões, dois rins, dois olhos, dois ouvidos, dois testículos, dois ovários, duas narinas, duas mãos, duas pernas, dois braços, etc.
Da anatomia à matemática.
Dois é um número primo e o único que é par. Por dois se multiplica. Pelo dois, se divide e se obtém a metade. Um mais um, igual a dois. E não há teoria matemática que defenda o contrário.
Da matemática poderíamos passar para a filosofia.
A dicotomia que opõe o bem e o mal; a mentira e a verdade; o amor e o ódio, a ignorância à sabedoria, e por aí fora.
Associar este número como um elemento significativo para as nossas vidas, poderá ser algo discutível. Quem sabe, irrelevante.
A noção de dualidade é tão importante como a nossa própria existência. Afinal, como poderíamos estar aqui se não fosse a união entre dois seres?  
Afirmar que tudo se constroi a partir de um mais um, pode não parecer tão absurdo como parece.
Seja ela qual for, da anatomia à vida quotidiana, e para que tudo tenha um real Sentido, terá que haver sempre uma outra parte; a tal outra parcela.