segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

ANOS NOVOS

Abrindo um pouco a janela sobre o que vai acontecendo de "interessante" pelo mundo.

A Miss Universo envia mensagem a Miss Colômbia (fica sempre bem entre beldades e rivais); o novo Star Wars chega aos mil milhões em tempo recorde; a Samsung aposta em força nos smartphones mais baratos; o Kentucki multa dona do Pokerstars em 870 milhões de doláres;...
"É a vida", dirão alguns. 
Na verdade é mesmo: a "Vida"; a secção de uma página informativa online, conhecida no universo batráquio pelo nome de "Sapo". 
Ao deslizarmos pelo dito site, damos de caras com a "Opinião", deles evidentemente - VIP's colunáveis -.
Eis pois então, na secção em causa, Catarina Furtado opinando sobre "O ano que não acaba aqui"
E eu, que até estou sem vontade nenhuma de ler qualquer uma das referidas secções, pus-me a matutar...
Pois não acaba, Catarina! Depende do ano (se é civil, judicial, fiscal ou escolar, por exemplo). Também dependerá de um cem número de fatores, que dirão respeito a cada um. 
Eu por mim, os anos (civis, fiscais, etc) podem terminar sem problemas de maior. Não faço questão de me chatear mais do que já me chateei; nem que me chateiem mais do que já me chatearam.
Mas pensando bem. Tens razão, Catarina! Nada acaba, só porque o ano mudou para um dígito acima. A Vida, a nossa, a real, continua.
Sem ganhos milionários, sem apostas em força no que quer que seja.
Lá fora, a terra continua a girar. São 15h30 da tarde e o dia escureceu devido ao mau tempo. 
A chuva irrequieta, bate fortemente nos vidros. O vento desalmado, sopra em todas as direções. 
Mesmo assim, a vida há-de continuar; um dia atrás do outro.


Voltarei para o ano. BOM 2016!
 


 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Sonhos de Natal (não provocam danos colaterais na dieta)

Sonhos de Natal: receita

Juntam-se os seguintes ingredientes:
- "Peace & Love" à discrição,
- Criatividade e imaginação em doses razoáveis,
- Passeios aqui e acolá (não precisam ser passeios dispendiosos),
- Tempere com perseverança à discrição. Abuse da lealdade.
Verifique os ingredientes e os temperos, e retempere as vezes necessárias.
Polvilhe estes sonhos com esperança e paciência misturados.
O resultado final será um estado de bem-estar interior que fará inveja a qualquer gourmet, apreciador desta iguaria dita natalícia.
Uma vez que estes "sonhos" não prejudicam a saúde, nem a dieta, faça-os sempre que lhe apetecer, independentemente de ser Natal ou não.
Boas Festas a todos os meus amigos e amigas!


 














quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

In Certezas

    Era uma vez um homem; um homem que podia ser qualquer um, mas este, era certamente diferente.
Era um homem com ocupação incerta, idade incerta, nome incerto, estado civil incerto,... Tudo nele era mais do que incerto e improvável.
Defendia com garras de leão, a incerteza. 
Comemorava uma efeméride que mais ninguém conhecia: o Dia Mundial da Incerteza, com a firme certeza de que era o dia mais importante para a humanidade. 
Detestava naturalmente aquilo que outros apreciavam artificialmente.
Como incerto que era, preferia não comemorar aniversários. Nunca conseguira averiguar ao certo, o dia em que a sua mãe, também ela em parte incerta há muito tempo, o dera à luz.
A incerteza dominava-o. A certeza amedrontava-o.
Este homem que até podia ser qualquer um, morava na cidade. Num apartamento, mais precisamente.
Sonhava viver - era certo- numa casa de madeira junto ao mar, onde ouvisse o marulhar das ondas.
Era uma vez este homem. Esperava sempre pelo irritante "pi-pi-pi" do camião do lixo, que passava religiosamente à mesma hora, todas as noites na sua rua. Só depois recolhia ao vale dos lençóis.
E continuava a sonhar.
     Era uma vez uma mulher que podia ser qualquer uma. Talvez fosse certamente diferente.
Tudo nela era incerto e improvável; até a sua peculiar distração.
Estaria de certeza só, também... Comemorava o Dia Mundial da Incerteza, num fim de tarde, em pleno Outono de 2030...
 
 Cumbia Sobre el Mar - Quantic & Flowering.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Ano sexto

Estive para desistir, mas nunca consegui. Sentia pena de deitar fora algumas (bastantes) horas de pensamentos, de pesquisas guardadas sobre assuntos que tanto me interessavam. 
Da prosa à poesia, passando pela informação, foi assim durante dias, semanas, meses. Deste passatempo virtual nasceu um grupo com o mesmo nome, e nele conheci pessoas reais que ainda hoje dão horas certeiras na minha consideração.
Este é o bloque que conta o que não tem contagem possível.
Mas agora que seis anos passaram, confesso.
Que o Tempo é importante  (já sabíamos). Que o Tempo continua a ser tudo o que nós quisermos que seja (também sabemos), embora nem sempre o punhamos em prática para benefício próprio.
Que o Tempo pode ser o tudo ou o nada; o absoluto ou o relativo; aquilo que nos torna pessoas felizes, de bem connosco e com os outros;  mas também pessoas infelizes, vazias e revoltadas contra tudo e todos.
Este é o espaço que fez companhia ao Relógio de Corda ao longo desta meia dúzia de anos.
Um Relógio de Corda que é voz de mulher, mas também de homem, e outras vezes de criança.
Foi companhia e companheiro nas horas de solidão, de tristeza e de alegria.
O tique taque silencioso e solitário que me ajudou, verdadeiramente, a ultrapassar alguns momentos menos bons da vida.
Para ele e para mim, que continuamos a dar corda à vida, parabéns!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Jogos

Dos jogos da infância, relembro com saudade, o jogo das escondidas e a sensação única que tínhamos quando alguém nos encontrava. 
O jogo das escondidas adaptava-se às condições físicas, consoante o local: no recreio ou num largo, ou dentro de casa. 
Em casa, onde o espaço nem sempre dava para grandes esconderijos, escondíamo-nos debaixo das camas. E sentíamos ganhar o mundo quando se ouviam passos e ninguém nos encontrava.
Porém, com a continuidade, os escondedouros tornavam-se demasiado óbvios. Cantos e recantos, fossem da casa ou do recreio, ficavam mais do que explorados, e o jogo das escondidas rapidamente deixava de ter a graça inicial. Era chegada a hora para desmobilizar. Inventar novas brincadeiras, era preciso!
E os anos passaram.
E com os tempos, outros jogos foram sendo descobertos; brincadeiras de todo o tipo e com os mais diversos meios.
E com o tempo também, nos tornámos adultos, por vezes, adultos egoístas com resquícios e comportamentos de crianças. 
E pese a infância vá lá longe, é como se aquela adrenalina provocada pelo ingénuo esconderijo debaixo da cama, extravasasse para outras dimensões; para outro tipo de brincadeira, que, ao contrário do jogo das escondidas da nossa infância, usa meios mais sofisticados, mais dissimulados. 
Estes sim, os jogos que de uma forma ou outra, consciente ou inconscientemente, jogamos, tão cobardemente mais perigosos, às escondidas ...  


sábado, 5 de dezembro de 2015

Sem título

Para onde quer que aquele menino dócil tenha ido, que tenha seguido direitinho por um caminho doirado (les chemins dorés, como na canção), para um paraíso onde possa continuar a ser feliz com outros meninos iguais a ele.
E já que a morte é certa e tão dolorosa, aproveitem a vida e as pessoas que vos são mais caras.

Bom fim-de-semana!


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

É preciso uma flor

     Não se pede muito. Apenas uma flor. Azul. Amarela. Vermelha. De todas ou de qualquer cor do arco-íris, com todos os reflexos da esperança e da alegria.
     É preciso uma flor. É tão urgente como o amor. Como a paz. Como a amizade certa entre as pessoas.
     É preciso uma flor!
     Que cresça no rosto das crianças, nas mãos dos adolescentes, no sorriso dos velhos, mas é preciso.
     É preciso uma flor!
     Azul. Amarela. Tanto faz. Uma flor pequenina.
     A nossa lado, há dezenas de mãos ignoradas onde a flor poderá florir.
     Semeemos a flor.
     É urgente.
    Que se ponham anúncios nos jornais diários, que a rádio transmita a notícia, que as crianças repitam o slogan, que os anúncios luminosos repitam o grito.
     É PRECISO UMA FLOR!
     Que a flor invada a cidade, as casas, a rua, a oficina, o hospital, a escola... 
     É PRECISO UMA FLOR!
     Garante-se.
     Testemunha-se.
     Confirma-se.
     O dia será diferente para todos, quando a flor acontecer. 

                                                                Maria Rosa Colaço, Crónicas

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Pontuas-me

Era um texto fora do contexto, frases aceitáveis e frases inaceitáveis no meio de tantas variáveis.
Variava o tempo do verbo. Ora no Pretérito Perfeito, ora no Pretérito Imperfeito. Era, porém, "Mais-que-Imperfeito", o tal amor que nunca existira. 
Do modo, até se esquecia. Pensava vezes sem fim, "antes indicativo ao incerto conjuntivo!".
Parava nas vírgulas para pausar, pois era demasiada a dor para continuar.
Finalizou, um dia, com um reticente ponto de interrogação, sem esperar a confirmação se estaria, refeito ou não, o seu desfeito coração.

E eu, contador do Tempo que sou, termino por aqui sem mais pontos vírgulas ou qualquer outra pontuação


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Vidas

Navegava de página em página. Perdido, como se não tivesse vida ou outros interesses reais ou mais importantes. 
Lá fora, a vida decorria.
Na rua, um congénere. Deambulava de rua em rua. Tal qual o homem que vivia, confortavelmente, dentro do seu apartamento, navegando de página em página.
Um dia, alguém resolveu dar alguma utilidade à sujidade que cobria o carro, escrevendo no para-brisas, "é tão triste a solidão! Mata-a, antes que ela te mate a ti". Mas o homem da rua não queria saber. 
Vivia conformado e confinado à miséria que era o seu presente, simbolizado no espaço exíguo de um carro onde, aliás, ele escolhera sobreviver. 
Ainda assim, não sentia qualquer perturbação ou vergonha nesse modo de sobrevivência.
Os transeuntes, sim. Sentiam-se imensamente perturbados.
Conheceram-no antes, quando pessoa elegante, sociável, bem vestida e de bem com a vida. Contudo, egoisticamente, receando uma intromissão na vida alheia e pessoal, os outros nada diziam, nada perguntavam, nada faziam.
Tanto o homem da rua como o homem do apartamento, tiveram as suas histórias de vida.
Vidas bem sucedidas, vidas recheadas de amigos - tantos e afinal tão poucos! -. Tiveram tudo, ou, quase tudo: trabalho, felicidade, dinheiro, casa, mulher, filhos,...
Era Dezembro. A tarde estava gélida.
O homem que navegava de página em página, também ele meio perdido, só, e que agia como se a vida se resumisse a uma conexão, visualização e partilha de eventos, notícias, fotos e comentários, largou o computador e saiu à rua. 
Encontraram-se. 
Como acontece em tantas histórias de vida, passaram a viver juntos. Presumo que viveram felizes para o resto das suas vidas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

13 de Novembro

Datas são datas e valem pelos acontecimentos, relevantes ou irrelevantes, de quem os viveu.
Foi pura coincidência do calendário, esta conjugação da sexta-feira com o dia 13. Não existe qualquer relação com superstições. Antes pelo contrário. Quando o azar vira sorte, só nos podemos sentir satisfeitos.
Mas voltemos às datas.
Lembrar uma data relevante, que até coloca um ponto final, aproximadamente, a 5475 dias de um triste fado, é apaziguador para a alma, apesar de tudo.
"Bem, isto é embaraçoso", como diria o Mozilla. Na verdade é um pouco.
Seria embaraçoso expor, aqui - ou noutro lugar - a cronologia  de vida de mais uma mulher entre milhares que, à semelhança das avaliações pelas agências de "rating", era simplesmente considerada "lixo".
Dos trezentos e sessenta e cinco dias que passaram desde o dia 13/11/ 2014, entre "mortos e feridos", essa mesma mulher sobreviveu; melhor, vai reaprendendo a (sobre)viver, um dia atrás do outro. 
Do somatório de perdas e ganhos em qualquer relação ou situação da vida, uma verdade indiscutível se impõe: não há nada que pague a paz interior e a tranquilidade.
Bom fim-de-semana.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A mulher mais bonita do mundo

Longe de mim alcançar tamanha beleza. Declare-se, porém, feliz, toda e qualquer mulher que é considerada desta forma tão poética, a mais bonita do mundo...
Bom fim-de-semana.


A mulher mais bonita do mundo, José Luís Peixoto

Estás tão bonita hoje. Quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
Entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.
Entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
Há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
Estás tão bonita hoje.
Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
Estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
De encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A descoberta do fogo

Quando o Homem descobriu o fogo, e a sensação agradável que lhe proporcionava, esse mesmo homem, tosco, rude e feio, estava longe de imaginar aquilo em que a humanidade se iria transformar daí a milhares de milhões de anos.
Graças ao calor das chamas, depressa descobriram outras utilidades para o fogo (estaria já lançada, nesse período remoto da civilização, a semente do empreendedorismo?!).
Na verdade, meus caros, salvo raras exceções e costumes alimentares, todos preferimos um bom grelhado a uma peça de comida qualquer, crua. Também constitui uma verdade inquestionável que, homens e mulheres das cavernas, passaram a fazer certos e determinados atos, à luz e ao calor da fogueira, e isto, quer se goste ou não da ideia, também passou a ser igualmente agradável. Smiley
Nesse Tempo não necessitavam de licença para foguear, nem se consta que os respetivos parceiros se queixassem do odor a defumação de "roupas" e pele. Tudo era mais do que aceitável e tão ingenuamente simples.
Mas com a evolução dos tempos, outra chama se impôs.
A chama viva - mas nem sempre mais quente - dos interesses, despertados pelos vis metais e outras coisas mais, levou a mudanças incomensuráveis. Nunca mais a humanidade foi ou será a mesma. 
Da revolução industrial, da descoberta da máquina a vapor, a tudo o que mais se possam lembrar, com  benefícios e prejuízos para o Homem, vive-se um pouco melhor. 
Viveremos nós mais tranquilos e felizes, apesar de tudo?



sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Os amigos de longa data

Eram amigos de longa data - Galvão da Silva, futuro ministro, e Salgado, o homem verde do banco verde que apesar de tanta trapalhada, continua verdíssimo e sem perspectivas de que alguma vez venha a amadurecer -.
Devido a esta amizade perpetuada no Tempo, trocavam entre si "pequenos" favores, ou se preferirem, "pequenas" atençõezinhas.
Espantados?! Ora pois não! Só as pessoas amicíssimas podem dar-se ao luxo de tamanhas manias e tamanhos nobres gestos.
E à conta desta gente, que continua isenta de quaisquer valores morais ou éticos, vamos vivendo, refletindo, pensando e escrevendo.

"Os amigos de longa data" são aqueles amigos sem prazo de validade. Prolongam-se no tempo, e quiçá no espaço.
Resistem. Sabem abdicar. Gostam de nós. Tentam compreender-nos. Criticam-nos. Elogiam-nos sem aquelas bajulices irritantes. Aturam-nos independentemente do nosso estado de humor, do nosso feitio, estado profissional ou pessoal.
Os amigos de longa data são também, por norma, leais, honestos, verdadeiros, transparentes, genuínos (a longevidade  não acontece por acaso).
Porém, os amigos de longa data, ao invés dos amigos de curta duração, também podem ser o oposto de tudo o que foi escrito, e serem: interesseiros, desonestos, falsos, arrogantes,...
Com o Tempo, aprendemos a conhecer os amigos; os de longa data e os outros.
Nem sempre os (re)conhecemos à primeira, mas eles acabam sempre por se revelar, mais cedo ou mais tarde, numa ou noutra circunstância.
Aqueles que não nos desiludem (uma raridade), são candidatos à categoria seguinte: os amigos eternos.
Independentemente dos amigos virem dos primórdios, ou não, nunca deveríamos tomar o Tempo como garantia.
Muitas vezes, os grandes desgostos vêm dos ditos amigos de longa data.


 


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Invisível

Como eu gostava de ser invisível!
Ser um daqueles personagens dos efeitos especiais da arte cinematográfica!
Passar para lá de portas, barreiras, obstáculos e, oculto, poder fazer coisas inimagináveis!
Pensem no que seria, por exemplo, entrar numa geladaria e provar aqueles sabores deliciosos... 
Ou entrar, numa loja e experimentar aqueles sapatos... 
Ou pregar partidas... 
Ou simplesmente ser invisível porque sim, porque ser-se invisível também pode ser um estado.

"I'm more than you know
I'm more than you see here
[...]
You don't see me but you will
I am not invisible" , Invisible, U2 
 
 
 

sábado, 17 de outubro de 2015

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O ladrão de molas

O ladrão de molas ostentava-se e bastava-se a si próprio: presumido, egocêntrico, irresponsável, um mentiroso compulsivo.
Não necessitava de ninguém porque, dizia, conseguia fazer, resolver tudo sem ajuda, e muito menos ouvia conselhos ou opiniões de terceiros; uma espécie de ser humano autossuficiente em algumas tarefas. Para outras - a maioria, e quiçá as mais importantes - nem tanto.
Tinha uma imagem deturpada das mulheres, especialmente as que tinha dentro da sua casa.
A atenção, a valorização, a demonstração de qualquer gesto de carinho que fosse, ou presenteá-las com qualquer pedaço de Tempo que fosse, era por norma, sempre, e segundo a sua visão tacanha e machista, um sinal de fraqueza.
Começou a viver de forma solitária. Quem (con)vivia com o ladrão de molas, acabava por se afastar, tais eram os constantes sobressaltos e o desespero que provocava.
Nunca (se) (a)percebeu que a maior das solidões era a solidão vivida a dois.
O ladrão de molas nunca entendia os sinais. Nada! Tinha as prioridades trocadas, mas também tinha vícios. Costumava satisfazer o seu ego, as decepções e a indiferença que o caraterizavam e atormentavam, silenciosamente, dia após dia, rodeando-se dos mais diversos objetos decrépitos e sem préstimo. Colecionava-os, porém, não cuidava deles. Pensa-se, aliás, que desconheceria o significado da palavra CUIDAR.
Acomodou-se na ilusão de que a vida lhe sorriria um dia de mão beijada, sem que nada tivesse que fazer para isso. Contudo, a espera, a indiferença e o descrédito geraram cansaço e desamor.
Nem sempre quem espera, alcança. A verdade é que quem espera, quase sempre acaba desesperado.     
O ladrão de molas, que nunca precisara de consultar ninguém, porque se considerava o tal ser autossuficiente, partiu emocional e moralmente só, derrotado,...
Infelizmente não partiu só. Partiu, contudo, ficaram as marcas do seu egoísmo e individualismo, deixando emocionalmente alguém bem mais frágil; alguém bem mais desacreditada da vida.
Não se sabe precisar quando, mas pensa-se que teria voltado para levar as molas que prendiam as suas ilusões numa corda que há muito ameaçava quebrar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Beijos em lista de espera

Porque me apetece publicar about kisses. Porque quem beija, seus males também espanta.
Façam bom proveito, pois continuam isentos de taxas & sobretaxas. Não esquecendo que, ainda existem os resistentes (os beijos, claro!) que se vão mantendo longe dos cliques (des)Gosto(sos) de uma certa praga virtual viciante, named facebook.
 The Bird and The Bee é um dueto americano pertencente ao estilo indie pop e tem este nome bem engraçado!
... And the bee kisses the bird... A little one.



(a música original, aqui - Dary Hall & John Oates-)

Beijo

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
             Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
             Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
             Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
             Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
             Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
             Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo...
             Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
             Dê!
*
Como ele é doce!
Como ele trouxe,
             Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
             Amor!

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,
             Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
             Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
             Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
             Amor!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
             Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
             Dois...
*
Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
             Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
             Três!

Três é a conta
Certinho, e justa...
             Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
             Três!

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
             Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
             Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
             Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
             Três!

João de Deus, in 'Campo de Flores'

domingo, 27 de setembro de 2015

Medos

Assustas-me. Assusto-me. Tudo à minha volta é assustador.
Não sei que medo é este, mas sei que é um medo pavoroso; um medo diferente de todos os outros medos.
E eu que já tive tantos medos, devia estar habituado a (con)viver com eles. Mas desta vez parece não ser assim.
Um medo que tem medo de se revelar e de se assumir, é pior que o próprio medo. 
Faz mal. Muito mal!
Um dia, este medo que tem medo dele próprio, acabará por nos corroer, tal como o tempo sobre uma peça de madeira ... 


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Caçadores de Sóis

No lugar de Chora havia uma rua. Na Rua da Saudade, uma casa. Na casa viviam duas mulheres. Chamavam-se Mágoa e Esperança. Irmãs inseparáveis, velhas e assustadoramente solitárias.
Quando novas, diziam que eram as raparigas mais bonitas e alegres da aldeia. 
Conta-se também que a guerra as mortificara em vida.
Um dia viram partir os homens que amavam.
Eles, não mais voltariam; nem vivos, nem mortos.
E daí em diante, duas mulheres viveriam numa dúvida angustiante para o resto das suas vidas.
Quando se perde o norte às pessoas e o amor teima em marcar a sua posição, fica-se desorientado.  
Na Rua da Saudade, em Chora, duas mulheres, Mágoa e Esperança, espreitam, sentadas, à janela.
No horizonte, a leste, nasce o sol, como sempre, ao longo de noventa e tantas primaveras.
Juraram companhia e amizade eternas. Até que a morte as separe. Ou, quem sabe, até que a morte as leve para junto dos seus amores.  

P.S. Que nunca ninguém deixe de ser um "Caçador de Sóis".
Bom fim-de-semana.


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Quanto vale uma vida?

Quanto vale uma vida?
Vale pelo tempo que cá andamos e fazemos. Então, faça-se dela algo que valha a pena, para nós e para os outros.
Nesta dialética constante sobre a vida e a morte, reduzo-me e resigno-me à minha insignificância. 
Afinal, tanto morre o pobre como o rico; o feio como o bonito; o vaidoso como o simples, o incluído e o excluído; o inteligente e o básico; o médico e o paciente; o famoso e o incógnito; o que se julga saudável e o doente; o sociável e o solitário, o mentiroso e o sincero; o falso e o genuíno; o habilidoso e o desajeitado;... 

Quanto vale então, a tua, a minha, a nossa, a vida de cada um de nós?! 

Aquele filme da TV dizia que, para todas as perguntas há sempre uma resposta. Eu já não sei se há. Se há, ou andamos todos enganados ou a ser enganados.
Respeito-a, embora nem sempre a aceite, mas incomoda-me a morte; não uma morte qualquer. Incomoda-me a morte, por exemplo, de duas jovens que, embora não conhecendo pessoalmente, podia qualquer uma delas, ser milha filha...
Incomoda-me a injustiça da vida. 
Incomoda-me quem troca o tempo, as pessoas e a vida, já por si tão enigmática e fugaz, por banalidades, por assuntos e por ocupações menores.
Também eu, sei que posso incomodar, mas é assim que me posiciono perante a vida.
Boa semana e já agora, think twice!

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Recomeços

Marés, praia, férias, e afins. Estamos em maré de recomeços.
Depois da pausa, é chegada a hora da renovação de votos para um ano de trabalho, tanto quanto possível, cheio de realizações pessoais e profissionais. Qual delas a mais importante?... Qual delas!?...

Recomeços à parte, e porque todos eles são importantes, sejam os profissionais como os pessoais,o importante é nunca perder o norte.
Nunca nos deixarmos vencer pelos "Adamastores", pelos "Cabos das Tormentas" e tantos outros obstáculos que se nos deparam pela frente. E digo-vos; são tantos, os obstáculos!

Continuo este pensamento com uma palavra da moda: meta.
Nos dias que correm, ouvimos falar dela à boca cheia. Uma perfeita banalização. Ou aberração, tendo em conta que existem metas que não respeitam a individualidade de cada um, que não olham a meios para serem atingidas.

Estabelecem-se metas para tudo. Há que as cumprir e atingir. De preferência num curtíssimo espaço de tempo. Caso contrário, é quase como ficar perdido no meio de uma viagem.
Mesmo que tenhas sede,fome,que te falte o ânimo,que não tenhas capacidades físicas, ou outras, que te falte o emprego, a saúde,o amor, para continuares essa viagem, as metas estão lá, à tua espera.
E é por elas que lutamos no dia-a-dia, ou pelo menos, é assim que "o serviço" nos é impingido.
A viagem termina supostamente, com sucesso, desde que as alcances. O resto... Deixa lá! É secundário. Sobrevive e não vivas. Alguns agradecerão ( e muito) a tua "opção" de vida.

E resta-nos a pergunta:vale assim tanto,o esforço que é feito para atingirmos metas?
Apregoadas aos sete ventos para tudo e mais alguma coisa, causa-me alguma náusea mental, esta palavra da moda, e tudo aquilo que gravita à volta dela.
Não há bom senso. Não há realismo. Não há humanismo perante esta corrida desenfreada e cega até às metas.

Todos temos objectivos de vida. Também tenho os meus. Sempre tive, embora nem sempre cumpridos por motivos de força maior.
O meu lema foi e continua a ser o de sempre. Ter objectivos e atingi-los sem ferir susceptibilidades. Respeitar para receber respeito de volta. Evitar danos, sejam eles quais forem, à minha volta.
Agradeço, portanto, ao mundo:pessoas; instituições várias; políticos; mundo virtual, etc, etc, que me deixem cumprir em paz,sem pressões e com a confiança necessária,os meus objectivos.
E que se lixe o mundo das metas!

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

"Fazemos do silêncio aquilo que somos"

E depois do silencioso post de ontem, de novo o silêncio.
Continuo no meu silenciosinho. Talvez mais uma viagem pelo interior de mim mesma.
E tudo é mistério.
Saber se chego, ou não, a algum lugar quando viajo pelo interior de mim mesma. Saber se valeu, se vale ou se valerá a pena continuar a viagem. Enfim...! Mistério dos mistérios, mesmo!
Mas hei-de voltar; nem que seja ao ponto de partida.
Antes de prosseguir a caminhada, passo à transcrição desta frase retirada do livro, "Elogio do Silêncio", de Marc de Smedt: "estou a usar uma coisa que me parece bastante rara, que é o silêncio como agente de expressão, e que é talvez a única maneira de fazer valer as frases" (Débussy).


terça-feira, 28 de julho de 2015

Mãos

São mãos, senhores.
Mãos que tocam. Mãos que escrevem. Mãos que corrigem. Mãos que também vacilam.
Mãos que afagam.
Mãos ternas. Mãos rudes.
Mãos habilidosas. Mãos desajeitadas.
Mãos que apontam caminhos possíveis e impossíveis, e, tantas, tantas vezes, recriminam com veemência as injustiças, as indiferenças, as loucuras.
São as mãos, senhores.
As mãos que doem.
As mãos que protegem.
As mãos que amparam. 
Na verdade, estas são as minhas mãos também. Minhas, porque também passaram a fazer parte de mim.

sábado, 27 de junho de 2015

Esquecimentos e apontamentos

Tomo nota para não me esquecer e acabo esquecendo o pedaço de papel dentro do carro, que acaba por voar a cem à hora assim que abro a porta.
Ora bolas! A culpa foi do vento! Pensei.
Sim, até podia ser. Mas pensando melhor, a culpa foi mesmo minha. 
Tivesse eu guardado o apontamento noutro local - num bloco de notas, por exemplo -, e lembrar-me-ia agora da expressão para a qual tinha em mente, a escrita de um pequeno texto.
É sempre a mesma coisa. A culpa dos meus esquecimentos é sempre minha. 
Como podia eu culpar o vento, ou qualquer outro factor externo à minha pessoa?! Não não. O verbo esquecer conjugado no presente e no pretérito perfeito, é o meu mea culpa de estimação. 
O melhor até, seria não escrever mais nada acerca do assunto (e com isto esqueci-me quão tarde já é); a não ser para reforçar esta ideia (discutível): tendencialmente, a idade, sob o efeito do Tempo, ajuda a agravar esta situação, ou se preferirem , predisposição.
No entanto, que esta disputa entre tempo e idade, e todos os estragos que daí advêm, não sirvam de desculpa para todos os esquecimentos. 
Há "notas" que fazem parte dos nossos apontamentos de vida que o vento não leva, que resultam, se nos esquecermos mesmo deles, em "esquecimentos" fatais. 
Ora, estes pseudo esquecimentos matam sonhos, matam esperanças, matam projectos, matam-nos também um pouco por dentro.
That's All!!
Votos de um excelente fim-de-semana.





segunda-feira, 22 de junho de 2015

"A serenidade tem a ver com aprendermos a nos relacionar com o tempo"

Flávio Gikovate pensa, e pensa bem.
Quem não se relaciona bem com o tempo, dizem, costuma stressar mais (será?!).

"Por vezes penso que a serenidade tem a ver com aprendermos a nos relacionar com o tempo e também com o encontro da nossa "velocidade" ideal.
Cada pessoa, para se equilibrar e se sentir bem, tem que ocupar seu tempo com um certo volume de ocupações. Essa cota não é igual para todos.
Tenho chamado de "velocidade ideal" ao ritmo de vida no qual a pessoa se sente bem. Uns gostam de andar devagar e outros são mais acelerados.
O que é fato é que são muito poucos os que se sentem bem em pleno ócio, totalmente desocupados. Para a maioria, essa condição traz o tédio!
O tédio corresponde a um estado depressivo muito peculiar no qual sentimos um enorme vazio e a total falta de sentido e significado da vida.
É provável que muitas das nossas ocupações estejam vinculadas ao desejo de fugir do ócio e do tédio. Ao nos entretermos, nos sentimos melhor.
A cota de ocupação que nos provoca o bem-estar é aquela que alivia a depressão do tédio sem gerar a ansiedade derivada do excesso de funções.
Estando acima da nossa "velocidade ideal" nos sentimos ansiosos; quando abaixo, ficamos deprimidos (tédio): convém acertarmos o ritmo ideal!"

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A corrente descontente

Ser corrente de relógio não é fácil, não!
Sempre marcada pelo tempo,
incomodada pela palpitação de pulsos
peludos, carnudos, ossudos;
às vezes, paredes meias com pulseiras
tendo como paisagem umas veias!
E lá vem mais um furo à pressão!
É o clima quente e húmido como no Verão!
Depois, com o relógio, mil miminhos;
estragou-se, arranja-se com prontidão.
Comigo não, porque estou velha!
Pronto! É logo a substituição.
Não têm em conta a afeição
de uma vida dedicada a um pulso.
Ai! Aperta-me esta ingratidão!
         
                             Teresa Guedes

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Quando o vento se levanta

Do "Ladrão de molas" à "Castradora" vai a distância de umas semanas e uns cliques. 
Bastava uns quantos para deixar ao blogue dará dois textos que, afinal, não verão as luzes do mundo virtual.
Escrevi o "Ladrão de molas" há umas semanas.  Um título nonsense, pensarão, porém, baseado numa situação verídica da vida pessoal... Da minha.
Escrevi o segundo texto, hoje, na minha hora de almoço. Um título ousado que eu mesma usei para expressar algo perante outra situação da vida pessoal. Da minha, mais uma vez.   
Por vezes parecemos ou somos como o vento. Mudamos de direcção. Não que sejamos uns cataventos ou que convenha orientar-nos para o lado que dá mais jeito, digo, lado que nos é mais favorável.
Por vezes parecemos ou somos como o vento, porque queremos sacudir, levar para longe folhas secas ou levar o que nos impede de ver melhor o chão que pisamos. 
Esta noite resolvi ser vento; levar para longe textos/pensamentos que me secam a paciência e a alma. 
A partir de hoje - se é que alguma vez esperaram - não esperem pelo tiquetaque do Relógio de Corda. 
Estarei oficialmente ausente deste "passatempo" por tempo indeterminado.
Votos de bom fim-de-semana ao som desta boa ventania musical.



 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Anúncio de uma casa...

Anúncio de uma Casa Onde Ninguém Quer Morar
                            (Carles Torner, traduzido do catalão por Marta Ferré)

Foi tantas vezes saqueada
por gente com tantas caras
que já não importa saber
quem foi o autor dos crimes:
podíamos até ter sido nós.
Agora só o sol saqueia algumas palavras
sem dobradiças nem soleira
e derriba porta sem fechaduras.

Lá dentro vivem mulheres
cheias de vozes emudecidas
que não sabem como as amar:
regam pedras,
cosem prendas para os ausentes
e oferecem-te signos,
cinzas, chuva de céu.

Ouve-me:sou o anuncio de uma casa
onde ninguém quer morar:
Não tens com que a comprar:sê bem-vindo.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Tempo e tento

Não é conselho de Relógio mas podia ser.
Nada como tentarmos ter mais tento; um pouco mais de cautela ou atenção para com o Tempo. Afinal, ele está sempre connosco. Não descola das nossas vidas. É cíclico. Não estica. Não encolhe. Não foge. Nós é que fugimos dele. Desculpamo-nos com a falta de tempo para evitar ou deixar de fazer isto ou aquilo.
Ou por outra, quantas vezes usamos o Tempo como alibi para... ?
Tenham tento e uma boa semana!




Tempo e tento

                                                                     

"Não tenho tempo. Não tenho tento. Esvai-se-me por entre os dedos. Esbanjo o tempo em dislates. Na vidinha tonta das obrigações quotidianas. E quando o quero para mim, já se foi, digo. Disparate. Como se o tempo se fosse. Desaparecesse. O tempo está lá sempre. Pelo menos até morrermos temos sempre tempo. Podemos não ter é mais energia ou vontade. Mas tempo temos. É só querermos. Mas como nos fazem sentir culpados de empregarmos o nosso tempo onde queremos e como queremos. Como nos impingem mais tarefas comezinhas, como se fossem a coisa mais importante do mundo, e nós as aceitamos e executamos, lá acabamos a dizer, Não tenho tempo. E ele esvai-se, de facto, porque o que desbaratamos não volta mais. Por isso temos de consumi-lo com parcimónia. Temos de usá-lo connosco próprios, naquilo que for mais importante para nós, para nunca sentirmos essa sensação de desperdício sem sentido. Temos de ter tento com o tempo."
                                                                                     
                                                                                                (texto gentilmente cedido por DTF)

quinta-feira, 9 de abril de 2015

" Por falar em sexo, quem anda me comendo / É o tempo"

Benefícios e surpresas que o Tempo tem...
Fiquei a saber sobre a existência desta senhora e gostei, especialmente deste poema:
Vida/tempo
por Viviane Mosé (com link)

Quem tem olhos pra ver o tempo?
Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?

O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina.
Sem raiva nem rancor
                            O tempo riscou meu rosto com calma.

Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante.
Acho que ganhei presença.

Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando.
Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim

                            Por falar em sexo quem anda me comendo
É o tempo.  Na verdade faz tempo, mas eu escondia

Porque ele me pegava à força, e por trás. 
Um dia resolvi encará-lo de frente e disse:  Tempo, se você tem que me comer  Que seja com o meu consentimento.  E me olhando nos olhos.  Acho que ganhei o tempo.  De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até remoçando.


domingo, 29 de março de 2015

Bellis Perennis

...
"---------------..............----------------.............-----.-.-.-.-.-.-.-.-............---_---_---_---_______º-º____º-º
Neste vai-e-vem do escreve-apaga, Ella finta as teclas e o aparente vazio de ideias brincando com elas. E nada! Até que se lembrou daquela história em que entrava um colibri, o pássaro mais pequeno do mundo." 
Dedico esta história a um passarinho sem gaiola, único e exclusivo, aninhado numa "árvore" especial que é a minha vida.



                                                                                      (foto google)

     Era uma vez uma margarida pequenina que nasceu à beira de um caminho. 
Como todas as margaridas silvestres, era vulgar uma florzinha tão insignificante e discreta como aquela, passar despercebida. Talvez por isso, ela e as congéneres da sua espécie eram as vítimas preferidas das bicicletas e dos pés de pessoas incautas e insensíveis.
     Porém, num soalheiro dia de Primavera, um passarito abeirou-se da margarida. 
Apercebendo-se dos perigos que corria, a pequena ave resolveu passar por ali todas as manhãs, tudo fazendo para que os pés ou as bicicletas das pessoas insensíveis não a maltratassem, nunca!
     E assim foi. Todas as manhãs, havia um passarinho que passava pelo campo para cumprimentar e estar um bocadinho com uma margarida silvestre. 
O cuidado e a preocupação eram tais que quando pressentia algo, o passarinho punha-se a chilrear a plenos pulmões, obrigando as pessoas insensíveis a desviarem caminho. 
Fez isto religiosamente enquanto a Primavera durou; ave e planta já não conseguiam passar sem a presença e a companhia uma da outra.
     Até que veio o Verão e a margarida começou a sentir-se mal com o calor. Era o aviso de uma morte anunciada e pouco a pouco começou a murchar. Ainda assim, o passarinho continuava a visitá-la como sempre todas as manhãs, só que já nada podia fazer. E sentia-se muito, muito triste. 
     Uns dias antes da última pétala cair, a margarida silvestre disse-lhe:
     - Não fiques assim, triste. Eu ficarei aqui, neste lugar, escondida na terra.
Não vais ver-me durante um tempo, todavia pensarei sempre em ti, e como cuidaste de mim, e como te preocupaste todos os dias comigo. Vou sentir tanto a tua falta!...
Mas lembra-te que eu sou uma flor pequenina de raízes fortes;hei-de voltar na próxima Primavera para estar de novo contigo. Agora, vai! Não me queiras ver murcha e moribunda. Voa!
     Acontece que o passarinho, inconsolado, não voou. Aninhou-se numa árvore onde pudesse avistar o sítio da margarida silvestre.
Acabou o Verão. Veio o Outono e o Inverno mas o Passarinho sentinela, com a sua tenacidade e coragem, ficaria até ao romper da Primavera para que pudesse outra vez usufruir da companhia da sua Bellis Perennis.                                                                     
                                                                                FIM

                                                                   RC, Edições Sem Tempo, março 2015
    

terça-feira, 24 de março de 2015

«A última bilha de gás durou dois meses e três dias»

«A última bilha de gás durou dois meses e três dias» faz parte da última publicação, "A morte sem mestre", do poeta Herberto Helder.

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3956393

Na estrada larga

"... apetecia-me fazer como o Charlot: pegar na minha piquena e ir..."
 Se assim o ouvi, assim a imaginei. Sim, "a"! Nada mais nada menos do que esta cena do filme de Charlie Chaplin.


Podia ser esta, a tal estrada larga de que fala Maria Rosa Colaço no seu espanta-pardais (com link), ou, quem sabe, como tanto simbolismo encaixa numa cena cinematográfica.
Desejo de mudança, o sonho, partir,... Não importa como, quando ou para onde. Talvez o mais importante seja mesmo, ir, seguir, partir caminhando. Sim, "partir caminhando"!
Quanta gente se limita simplesmente a partir! Partem mas não conseguem fazer a sua própria caminhada. É como se o tempo ou algo os imobilizasse, porém, um dia, partiram... sem terem percebido que nunca caminharam.
Retomando a estrada.
Seguem aos pares na estrada larga. É indiferente que seja o Charlot com a sua "piquena", o Espanta-Pardais com a sua Maria Primavera, que sejamos nós ou os outros. 
O importante é partir caminhando.
Boa semana e boas férias para quem estiver de olho no descanso.



quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia do Pai



Neste dia em que se celebra o Dia do Pai, desviei caminho para visitar o meu. 
Infelizmente o meu pai já não me ouve, já não me vê, já não me dá conselhos, já não me protege de nada nem ninguém. No entanto, penso nele tanto e na falta que me fe(a)z, independentemente deste ou daquele Dia.
Claro que não é justo ficar sem pai quando se tem 19 anos; que é triste reconhecer que o orgão que lhe dava vida, foi o mesmo que a levou também.
Um homem de lutas e viagens, partiu numa manhã de Inverno para uma viagem sem volta. 
Foi difícil... Durante um tempo, olhava para a porta à espera que ele passasse, um dia, de novo por ela.
Fui-me habituando à ideia daquela ausência forçada, e cresci, e amadureci, e estou aqui, agora.
Penso na falta que me fez o meu pai, homem severo, implacável com gente sem escrúpulos, mas sempre amigo do seu amigo, e sempre preocupado com o bem-estar dos seus.
Há pais e pais. Sei que o meu pai era especial e isso deixa-me orgulhosa.
Se fosse vivo, este ano faria 90 anos...