sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A última mensagem

As previsões apontam 2012 como um ano difícil (2011 também não foi um ano fácil).


O fim do mundo, supostamente anunciado há 11 anos atrás (em 2000, portanto) não passou de um embuste. Porém, na altura, alguém achou melhor adiar esse final para 2012 (porquê 2012? E quem adiou? Não me façam perguntas complicadas... Sei tanto como vós).

Digam o que disserem, acreditem neste velho relogio de corda Rolex; vão novamente adiar o fim do mundo de 2012 (e ainda bem! Apesar de tudo, tenciono viver mais algum Tempo) porque o FMI e sua comissão cobradora de dívidas, vulgo Troika, jamais autorizarariam este evento à escala mundial, numa altura em que o encaixe (€€€€!!) vai de vento em popa.
No meio desta tragicomédia (mais "tragi" do que comédia) que é a nossa vida, desde que nos vimos envolvidos (pior; nos envolveram) em crises e mais crises, já nem eu sei se devo rir ou chorar, esperar ou desesperar, ficar ou emigrar como diz o outro.

É que o sentido de humor também não escapa à crise, sabiam?!...  Eu esforço-me para não o perder de vista mas acreditem... Há dias em que apetece mandar tudo pelos ares: a crise, a contenção, o memorando de entendimento, as exigências da Troika, os conselhos do Passos & Comp e do raio que parta essa gente toda e outras coisas mais.
Deixem-me pelo menos, terminar este ano com um sorriso! Pode ser amarelo, triste, de orelha a orelha, de esperança... Tanto faz.
Deixem-me igualmente terminar, agradecendo a vossa passagem por aqui, mesmo que fugidia e incerta.
Nem sempre as minhas palavras foram as mais acertadas ou as minhas mensagens, as mais pertinentes. Talvez não tenha o dom da escrita como têm, reconhecidamente, algumas das pessoas que "seguem" ou lêem este "passatempo" virtual. Não há nada a fazer... relogio velho, parado no tempo, não agoura nada de novo. É a vida! Mesmo assim, desculpem qualquer coisinha.

Despeço-me com os votos de um 2012 cheio de saúde e regado de alguma esperança. Nós bem o merecemos!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"Tiagolas e outras estórias"- um livro de Manuel Miranda

Já é tempo de dar continuidade ao rascunho desta mensagem, iniciada em Julho do ano que agora termina (mais vale tarde do que nunca).
Tomei conhecimento do livro que hoje vos trago aqui, através de referências blogosféricas ligadas à educação (mais precisamente aqui). Trata-se de um livro que acabei de ler há dias.
Se dúvidas houvesse relativamente à utilidade deste universo virtual (blogues) - "passatempo" para muitos, onde também me incluo - de imediato seriam esclarecidas com esta incontornável verdade: os blogues são de facto, meios priviligiados para a divulgação de tudo e mais alguma coisa.
E é graças aos "passatempos" existentes por "estas bandas" que vamos descobrindo o que de outra forma seria (mais) díficil encontrar. Eis um exemplo.

Tiagolas e outras estórias, não é um livro qualquer, não é um livro que possa enquadrar-se em qualquer um destes géneros literários: romance, banda desenhada, poesia, ficção ou aventuras; porém, parece ter características de todos eles.
Não é um romance, mas ficamos a conhecer uma relação de afectos entre um pai (pais) - Manuel Miranda e o filho deficiente mental profundo - o Tiago, Tiagolas como é carinhosamente tratado.
Não é uma banda desenhada, mas tem pensamentos, comentários e diálogos.
Não é um livro de poesia, mas na capa final, pode ler-se o poema das mãos... mãos paternas que sentem, "falam" e "vêem" aquilo que os nossos orgãos dos sentidos todos juntos, dificilmente consegueriam captar ou sentir. 
Não é ficção, porque retrata a dura e por vezes complexa realidade, que é nascer "diferente" dos demais.
Não é um livro de aventuras, daquelas que qualquer um de nós gostaria de viver; é um livro de aventuras de carne e osso, tantas vezes tristes e dramáticas, que o autor Manuel Miranda com a participação de mais três autoras, nos dão a conhecer através das estórias do Tiagolas, da Sara, do Zé Cadilhas, da Gracinha, do Garrancha, do Jorge, do António, do Ti Cocho Anica, do Carlitos...

Quando alguém decide abrir o coração, escrevendo de uma forma clara, directa e transparente sobre um assunto que para muitos ainda permanece tabu ou vergonha, fá-lo garantidamente por coragem, por amor,  mas fá-lo certamente, por solidariedade para com as outras pessoas que vivem as mesmas angústias e as mesmas preocupações que este pai.

Tiagolas e outras estórias é para além de um testemunho, um apelo à sensibilidade da sociedade em geral para a problemática das pessoas com deficiência e do futuro incerto que preocupa os familiares destas crianças e adultos, condicionados das mais variadas formas.
Se o futuro é um tempo de incerteza para a maioria de nós, o que dizer destas pessoas quando progenitores ou familiares lhes faltarem?

Nota) Os proveitos da venda deste livro revertem para a Associação de famílias solidárias com a deficiência (A.F.S.D), Projecto Cavalo Azul, cujo objectivo é a construção de uma residência e um centro de actividades ocupacionais para pessoas com deficiência. Mais informações aqui ou aqui.
Para aquisição do livro, poderá contactar o autor através de miranda.manel@gmail.com


«Quando sinto a tua mão na minha mão, eu sei se estás bem ou estás mal.
Quando a tua mão agarra a minha roupa, eu sei que precisas de mim para te levar pelos caminhos do nosso bairro.
Quando tu apertas com força as mãos, eu sei que tu estás aflito, ansioso.
Quando tu com a tua mão puxas a minha mão, eu sei que tu queres de mim que te resolva aquilo de que tu não és capaz.
Quando tu com a tua mão bates na tua cabeça, eu sei que tu estás com dores.
Quando tu com a tua mão agarras o meu braço e até me fazes sangue com as unhas da tua mão, eu sei que tu estás inseguro, inquieto, aflito.
Quando tu poisas tua mão suavemente na minha mão, eu sei que tu me queres junto de ti numa conversa em silêncio que nós os dois bem compreendemos sem palavras inúteis.
Pela tua mão tu passas-me o que tu sentes, o que tu de mim queres e precisas.
A tua mão fala-me sem palavras.
A tua mão é a tua linguagem, a tua fala sem palavras.»
                               
                                Manuel Miranda

domingo, 25 de dezembro de 2011

"I am Sam" - Sean Penn no papel de um deficiente com atraso mental

SINOPSE:
Sam Dawson (Sean Penn) é um homem com deficiência mental de comportamento autístico que cria a sua filha Lucy (Dakota Fanning) com a ajuda dos seus amigos. Porém, assim que faz 7 anos, Lucy começa a ultrapassar intelectualmente o seu pai, e esta situação chama a atenção de uma assistente social que quer a menina internada numa instituição. 
A partir daqui, Sam disputa a guarda da filha na barra do tribunal contando para isso com a ajuda da problemática advogada Rita Harrison (Michelle Pfeiffer) que aceita o caso como desafio e graças ao qual repensará a sua vida e aprenderá a valorizar a relação com o seu filho. (informação Google)
Este é um filme magnificamente interpretado pelo actor Sean Penn; um filme que permite fugir um pouco à invasão cinematográfica dos filmes natalícios, tão habituais nesta época.
Nota) Chamo a atenção para possíveis pausas ou interrupções durante o filme (encontra-se também aqui).   Lamento igualmente a dobragem... Não consegui encontrá-lo em inglês com legendas em português.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

"O estranho caso de Benjamin Button" - o filme completo

"O estranho caso de Benjamin Button" é um filme de 2008, adaptado da obra de F. Scott Fitzgerald e já referenciado neste espaço, há algum tempo atrás.
É apenas mais uma história que o cinema imortalizou... Para ver, ou, simplesmente, rever.

SINOPSE:
"Eu nasci sob circunstâncias pouco habituais".
E assim começa O Estranho Caso de Benjamin Button, adaptado a partir da história de F. Scott Fitzgerald sobre um homem que nasce com oitenta anos e regride na sua idade: um homem, como qualquer um de nós, que é incapaz de parar o tempo.

O filme conta a história de Benjamin (Brad Pitt) e da sua incomum viagem, das pessoas e lugares que descobre ao longo do seu caminho, dos seus amores, das alegrias da vida e da tristeza da morte, e daquilo que dura para além do tempo.
http://putlocker.bz/watch-the-curious-case-of-benjamin-button-online-free-putlocker.html


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Poderá o cigarro de musgo estar na origem do vício do tabaco? :))

A exploração de um determinado texto, ontem, na aula, tinha um objectivo: alertar as crianças para o perigo que representa a aceitação de certo tipo de coisas (o texto falava sobre um rapaz crescido que parou junto de uns meninos que brincavam, oferecendo-lhes um cigarro...) e a importância de saber dizer NÃO.
Respostas e comentários para todos os gostos, inclusivamente este, "não devemos ceder à tentação"... mas, o que eu mais gostei foi desta resposta, e da cara séria com que o aluno de 8 anos se virou para mim, dizendo: eu já fumei um cigarro.
E quando me preparo para ler a resposta escrita, deparo-me com esta confissão na primeira pessoa:


Ri-me com os meus botões e pensei... a génese do vício (do fumador) pode bem estar no maldito cigarro com musgo!  :)
Pronto! Hoje é o último dia do 1º período escolar. O tempo passa a correr e muitas vezes nem damos por isso.

Votos de um bom fim-de-semana ao som de clássicos da música infantil: "O mar enrola na areia" na voz de Jorge Palma.
Esta canção e outras mais, encontram-se no CD da Leopoldina 2011. Ao adquiri-lo, está a contribuir para a MISSÃO SORRISO ; uma iniciativa que visa apetrechar e melhorar muitas instituições de saúde do nosso país.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Xarope de cenoura

Ingredientes para o xarope: cenouras, açúcar amarelo e folhas de hortelã. 
Cortam-se duas ou três cenouras às rodelas finas, junta-se o açúcar com a hortelã e deixa-se repousar 24 horas.
O xarope de cenoura era, segundo a sapiência das nossas avós, um remédio natural para curar a tosse e as dores de garganta (algo que agora me daria imenso jeito). Não confirmo nem desminto os benefícios do dito xarope, porém, faço questão de deixar-vos na companhia desta ternura textual, da autoria de José Fanha.

(imagem retirada do Google)                                                        XAROPE DE CENOURA

«A minha madrinha é doce e cheira tão bem que eu, mal a vejo, atiro-me ao pescoço dela e dou-lhe muitos beijos e ela só diz:- Aí que ternuras, que ternuras!
     E as "Ai que ternuras, que ternuras" ficaram guardadas num dicionário que só eu é que tenho.
     Há palavras assim. Palavras que vivem numa gramática que não está escrita em parte nenhuma. A gente puxa por elas e logo atrás aparecem outras cores, cheiros e sabores.
      É tal e qual como se fôssemos à pesca de carapaus e nos viesse na linha uma lua cheia muito grande, um gato às riscas amarelas e verdes ou um chupa-chupa do tamanho dos candeeiros da minha rua.
     No meu dicionário, a palavra ternuras diz-se quase com o mesmo som que a palavra cenouras. Eu sei que isto pode parecer um bocadinho maluco. Mas é assim e é tão simples de entender como todas as coisas que são assim.
     Quando eu tinha tosse, a minha avó cortava cenouras às rodelas e punha açúcar, e eu até queria ter tosse para poder beber aquele xarope tão bom que ficava a escorrer das cenouras.
     Das cenouras vinha o xarope... Da minha madrinha, as ternuras... Cenouras e ternuras! É fácil de perceber. O xarope de cenouras tinha um gosto parecido com o cheiro das ternuras da minha madrinha. São duas palavras muito doces, cada qual à sua maneira.
     E pronto. No meu dicionário as coisas estão ligadas de uma forma um bocadinho misteriosa. E eu gosto de beijinhos e cenouras e xarope de ternuras...»

       José Fanha, "Diário inventado de um menino já crescido" - página 42/43

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

"J'en ai marre..." - Big Bazar 1972

Os franceses - Big Bazar - formaram-se na década de 70. 
Michel Fugain, o interprete deste grupo e confesso admirador de sonoridades made in Brasil, adaptou o "Você abusou" de Antônio Carlos e Jocafi (informação Wikipédia) para este "Fais comme l'oiseau", corria o ano de 1972. Polémicas à parte, o estilo da banda era invulgar para a época, sobretudo pelas coreografias que acompanhavam as músicas.
Vá lá uma pessoa saber porquê... hoje lembrei-me disto. É que... moi aussi j'en ai marre!

 «Mais j’en ai marre d’être roulé
Par des marchands de liberté
Et d’écouter se lamenter
Ma gueule dans la glace, dis
Est-ce que je dois montrer les dents?
Est-ce que je dois baisser les bras?
Je ne sais pas, je ne sais plus, je suis perdu


Fais comme l’oiseau
Ça vit d’air pur et d’eau fraîche, un oiseau
D’un peu de chasse et de pêche, un oiseau
Mais jamais rien ne l’empêche, l’oiseau, d’aller plus haut»



Fais comme l'oiseau

Sa vie d'air pur et d'eau fraîche, un oiseau
D'un peu de chasse et de pêche, un oiseau
Mais jamais rien ne l'empêche, l'oiseau, d'aller plus haut

Mais je suis seul dans l'univers
J'ai peur du ciel et de l'hiver
J'ai peur des fous et de la guerre
J'ai peur du temps qui passe, dis
Comment peut on vivre aujourd'hui
Dans la fureur et dans le bruit
Je ne sais pas, je ne sais plus, je suis perdu

Fais comme l'oiseau
Sa vie d'air pur et d'eau fraîche, un oiseau
D'un peu de chasse et de pêche, un oiseau
Mais jamais rien ne l'empêche, l'oiseau, d'aller plus haut

Mais l'amour dont on m'a parlé
Cet amour que l'on m'a chanté
Ce sauveur de l'humanité
Je n'en vois pas la trace, dis
Comment peut on vivre sans lui ?
Sous quelle étoile, dans quel pays ?
Je n'y crois pas, je n'y crois plus, je suis perdu

Fais comme l' oiseau
Sa vie d'air pur et d'eau fraîche, un oiseau
D'un peu de chasse et de pêche, un oiseau
Mais jamais rien ne l'empêche, l'oiseau, d'aller plus haut

Mais j'en ai marre d'être roulé
Par des marchands de liberté
Et d'écouter se lamenter
Ma gueule dans la glace, dis
Est-ce que je dois montrer les dents ?
Est-ce que je dois baisser les bras ?
Je ne sais pas, je ne sais plus, je suis perdu

Fais comme l'oiseau
Sa vie d'air pur et d'eau fraîche, un oiseau
D'un peu de chasse et de pêche, un oiseau
Mais jamais rien ne l'empêche, l'oiseau, d'aller plus haut

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Imagens que falam por si.

Domingo de sol, 27 de Novembro de 2011 junto ao poço do Arneiro (Aljustrel - Fátima).
Estas fotos são tão expressivas e profundas que dispensam quaisquer comentários.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O som do silêncio

Definições na boca das crianças...

O que é o silêncio?
R: O silêncio é um barulho mudo, um barulho baixinho, é um som que não faz barulho, é quando não se diz nada, é o que a professora manda fazer quando estamos a fazer muito barulho...

De que cor é o silêncio?
R: O silêncio não tem cor, pode ser da cor que eles mais gostam mas o silêncio é "às cores se eu estiver contente" - respondeu um menino.

O silêncio faz lembrar?... 
R: O silêncio faz lembrar o barulho do mar,  faz lembrar a noite ou "faz-me lembrar coisas boas" - disse outro.

Como na canção, chegou o momento de também eu "sussurrar o som do silêncio".
Que o silêncio seja de oiro para que reine o som "mudo" das teclas...
Até um dia destes e bom fim-de-semana.
"The sound of silence"- Simon & Garfunkel, em 1967.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"A única crítica é a gargalhada" - Eça de Queirós

É o clássico mais contemporâneo de todos os tempos, pela ironia, pelas palavras certeiras que registava nas suas inúmeras crónicas.
Tão certeiras eram essas palavras, que nem notamos que o presente é afinal, um simples retrato a cores do passado.
Assim pensava e escrevia Eça de Queirós. Estávamos nos finais do século XIX.
Quando penso no tempo que já passou e no estado da Nação, neste século XXI, quase jurava que este homem deve estar aos saltos no túmulo, de tanta gargalhada, ao ver que em 150 anos(aproximadamente) pouco mudou no "mundo político em Portugal".

 A Única Crítica é a Gargalhada 

«A única crítica é a gargalhada! Nós bem o sabemos: a gargalhada nem é um raciocínio, nem um sentimento; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma. E no entanto é o único comentário do mundo político em Portugal. Um Governo decreta? gargalhada. Reprime? gargalhada. Cai? gargalhada. E sempre esta política, liberal ou opressiva, terá em redor dela, sobre ela, envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, e cruel – a gargalhada! Política querida, sê o que quiseres, toma todas as atitudes, pensa, ensina, discute, oprime – nós riremos. A tua atmosfera é de chalaça
                                  Eça de Queirós, in "Uma Campanha Alegre

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Não são Papos de Anjo mas os papos dos olhos do Vítor Gaspar

Há quem diga que enquanto "relógio", independentemente da corda ou não, eu tenho um razoável poder de observação. Tem dias...
Às vezes, e, citando conhecidos ditados populares, mais pareço " um burro a olhar para um palácio" ou usando outros animais da quinta, "não vejo um boi à frente".
Neste caso, vi, li a notícia e observei os olhos do "nosso" Ministro das Finanças, Vítor Gaspar.
"Bah!... Coisas de mulher..." - pensarão algumas pessoas, mas o que é facto, é que as mulheres também lêem nas entrelinhas dos olhos dos homens, mesmo que sejam os olhos de um  ministro com o qual não simpatizamos.
Claro que, pode até não haver nada para ver nos olhos de quem quer que seja e muito menos nos olhos deste Sr Gaspar, mas eu vi!
Estão à vista de todos... Uns papos, logo ali, abaixo dos olhos.
Noites mal dormidas, preocupações próprias de ministro... consciência pesada (se é que há alguma). Porventura, deve ser a Troika que lhe tira umas boas horas de descanso (pensei)...
Nós, cidadãos, que aturamos esta gente toda, aguentamos (aquilo que os governantes vão proporcionando): as olheiras, os papos, as preocupações, as noites mal dormidas, etc ... As insinuações, as contradições, as vigarices e o cinismo deles é que são intoleráveis e desprezíveis.

Post Scriptum) Obrigada Gasparzito pelo elogio. Eu, enquanto funcionário pública, sinto orgulho por saber que passei de problema a solução para o problema. Somos inúmeros, pois somos, mas sempre vamos servindo para alguma coisa.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Pés de salsa

 

Já aqui se escreveu sobre um caroço de azeitona que virou oliveira, de uma ninhada de gatos que nasceu sem bigodes e agora, de um planta aromática que resolveu crescer em meio considerado hostil: as pedras.
Este pé de salsa arrebitou com a chuva e cresce a olhos vistos, entre os espaços apertados das lages de pedra de uma eira antiga. Não é o único pé. Há mais.
A prova de que a natureza consegue vencer as adversidades e vingar.
Talvez esteja na altura de tomarmos a natureza com exemplo de vida e de persistência...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Uma história de feijões e gorgulhos.

Certo gorgulho passava a vida a encher o bandulho na loja de sementes do Sr João.
Como não gostava de barulho, o gorgulho costumava andar em bicos de pés, de feijão em feijão, fazendo aquilo que todos os insectos da sua espécie fazem em qualquer parte do mundo: gorgulhar!
O gorgulho não fazia barulho porque não era da sua condição, comer e falar ao mesmo tempo.
Era um bicharoco que comia pela calada. Ninguém dava por nada, a não ser o gorgulhão-capitão, o único que conhecia muito bem os costumes e os vícios desta bicharada.
O gorgulhão pertencia à espécie das feijocas, e, por ser maior que os outros, só podia viver num feijão de dimensões igualmente avantajadas. Era ele quem decidia como, quando e quem atacar.
A "gorgulhagem" sentia-se protegida, com um futuro que julgava farto e bem seguro. Enquanto houvesse feijões, havia sustento.
Porém...
Um dia, os feijões decidiram fazer uma revolução. Reuniram em plenário com o feijão-catarino - um feijão fino e respeitado por todos.
Os feijões reclamavam, pois estavam fartos de serem comidos pelos gorgulhos e pior ainda, de ficarem reduzidos a pó. Um  feijão em pó, fosse ele qual fosse, não servia para nada e isso aborrecia-os imenso:
- Eu estou farto de ser mole e de derreter por tudo e por nada! A partir de hoje, quero ser rijo e forte! - exclamou o feijão-manteiga.
No meio da confusão, dos sacos no meio do chão, salta um feijão-preto:
- E eu?! Já pensaram?... Estou farto de ser discriminado. Sou preto mas sou como os outros. Também tenho direitos!
O feijão-preto não se entendia com o feijão-branco. Um tinha a mania que era mais saboroso do que o outro; logo, passavam a vida a discutir sobre quais os pratos em que cada um devia ou não devia entrar.
O gorgulho, entretanto, apreciava esta discussão escondido, e ria a bom rir:
- ... estes feijões desunidos vão acabar todos cozidos num panelão! Para quê tanta discussão?... - pensava ele, imaginando já, o respectivo bandulho vazio, à conta desta contestação.
Para apaziguar a discussão, eis que entra o feijão-frade em acção........................................................

E, meus caros amigos, acabou-se-me a minha inspiração!
Lembrei-me do gorgulho, não sei ao certo muito bem porquê. Talvez porque nos sentimos todos, nesta altura da vida, como que... uns "feijões". Uns "feijões" comidos a cada dia que passa por certos e determinados "gorgulhos". 

Enfim... Haja paciência!

Bom fim-de-semana

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Para sempre" - José Fanha

Tenho lido ultimamente, alguns livros do arquictecto/escritor José Fanha. Conhecia alguns, mas há sempre outros que vamos descobrindo...
Gostei deste texto inserido no livro, "Diário inventado de um menino já crescido" da Gailivro - 1ª Edição de 2004. Talvez porque, Novembro e Dezembro, continuam ainda, tanto tempo depois, meses especiais... Aqueles que a minha memória pessoal não esquece nunca.

«Para sempre

Eu gostava de acordar em cada dia e
ter a minha mãe ao meu lado.
E o meu pai. E a minha avó.
E todas as pessoas de quem gosto.

Mas alguns já se foram embora. Para sempre. E isso deixa-me confuso. Porque para sempre é mesmo muito tempo.
     Eu consigo perceber o que é uma hora. Percebo dez minutos. Percebo dez segundos que é uma medida de tempo que uma pessoa começa a dizer e já passou. E percebo um dia ou uma semana. Mas para sempre é tão difícil perceber...
     Um dia, o meu pai foi-se embora para sempre. E eu esqueci-me de lhe dizer uma coisa. Nem sei bem que coisa era. Só sei que esta coisa que eu queria dizer ficou-me entalada na garganta. Para sempre.»
                     
              José Fanha - "Diário inventado de um menino já crescido" - pág.61

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

António Aleixo - o poeta popular

 

António Aleixo (1899 - 1949) foi o poeta popular mais conhecido entre nós. 
Nascido no Algarve, mais precisamente, em Vila Real de Santo António, passou parte considerável dos últimos anos da sua vida, internado num sanatório em Coimbra, por culpa da impiedosa tuberculose. Acabaria por morrer aos 50 anos de idade, desamparado e mais pobre do que nunca (mais informação, aqui). 

"ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO", é a obra onde estão compilados estes e outros versos.

Quem prende a água que corre
É por si próprio enganado
O ribeirinho não morre
Vai correr por outro lado.

Sei que pareço um ladrão
Mas há muitos que eu conheço,
Que, não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.

Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.

Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.

Uma mosca sem valor
Pousa co'a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.

Sou um dos membros malditos
Dessa falsa sociedade
Que, baseada nos mitos,
Pode roubar à vontade.

Finges não ver a verdade,
Porque, afinal, tu compreendes
Que, atrás dessa ingenuidade,
Tens tudo quanto pretendes.

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que ás vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência.

Nós não devemos cantar
A um Deus cheio de encantos
Que se deixa utilizar
P'ra bem duns e mal de tantos.

Veste bem já reparaste
Mas ele próprio ignora
Que por dentro é um contraste
Com o que mostra por fora.

Eu não sei porque razão
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são
Maiores querem parecer. 
              António Aleixo

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O que muda hoje?

Nada de especial.
Procede-se apenas, a uma pequeníssima actualização no canto inferior do vosso lado direito.
Quanto ao bolo em forma de F... pois...
Comia-se!...
Smiley

domingo, 6 de novembro de 2011

"Quando vier a Primavera" - Alberto Caeiro

Ainda o Inverno não começou e já eu penso na Primavera.
A espécie humana tem este grande defeito: nunca está satisfeita com nada.
Então, lastima-se e reclama, reclama... como se, nestas andanças do tempo meteorológico, tivesse algum poder de escolha ou decisão.
Se chove quer sol; se faz sol quer chuva; se está frio quer calor; se está calor pensa saudosamente no frio; se vem o Verão preferia a Primavera e quando chega o Outono deprime só de pensar no saudoso e quente Verão.
Estou de acordo com Alberto Caeiro;
«Não tenho preferências (...)
O que for, quando for, é que será o que é.» (do poema Quando vier a Primavera)

 

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A receita dos "rissois de berbicacho" por José Jorge Letria

Definição para berbicacho: algo de difícil resolução, uma coisa complicada...
José Jorge Letria aproveitou esta palavra tão genuinamente portuguesa - berbicacho - para rechear uns suculentos rissóis. Vejam só, como esta "receita" de rissóis de berbicacho está o máximo!
Para além da subtracção com empréstimo do "post" anterior, parece-me óbvia, a presença de alguma sátira neste texto que integra mais uma obra da nossa fantástica literatura infantil nacional.
E eu ainda acrescento mais: mas que grande berbicacho nos têm arranjado de há uns anos para cá!

   «Eis o prato ideal para ser confecionado e comido em situações de crise, em dias complicados ou no final de uma discussão caseira.
    O berbicacho não é peixe nem carne, sendo, no entanto, uma mistura equilibrada de ambos, mas condimentada com gritaria, alguns insultos e meia dúzia de palavrões ditos numa língua asiática antiga e picante.
    O berbicacho é fácil de encontrar em qualquer restaurante, desde os mais requintados aos que estão abertos até tarde nos bairros populares. Mas também pode ser comprado a preços baixos em mini e hipermercados, em estado de congelação.
    Portugal é um dos países do mundo onde há berbicacho de maior qualidade e a preços mais acessíveis, o que torna esta receita muito popular e muito fácil de confecionar.
    Os rissois, enriquecidos com este recheio, a que se juntam borboletas, rodelas de salamim e gotas de orvalho seco, devem ser fritos durante pelo menos quatro horas, tempo suficiente para acalmar o berbicacho.
    O prato serve-se quente ou frio, conforme o gosto de quem o pede ou de quem o confeciona. A quente tem uma pequena desvantagem: o berbicacho pode agitar-se de novo. A melhor forma de o pôr calmo antes de o levar à boca é dar-lhe uma valente palmada, que não o esborrache mas que o faça perceber quem, de facto, manda.
    Não é prato aconselhável para ser servido nas cantinas e  refeitórios das forças militares e militarizadas, porque não favorece a disciplina que, ali, deve ser sempre a regra da casa.»
  
Rissóis de Berbicacho foi retirado de O livro das receitas malucas, pág.12 / 13 - José Jorge Letria (Porto Editora, Fev. 2008)

          Bom fim-de-semana! Smiley

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Curtas & breves (2) - A subtracção com empréstimo


Hoje, na aula... olhando para as contas de subtrair que passei no quadro... pensei: o meu país parece uma subtracção com empréstimo!
Quem é o diminuendo? Quem o diminuidor? Ao cabo e ao resto, por mais subtracções que façamos,  pouco ou nada resta e isso, faz toda a diferença nos dias que correm.
Malditas contas!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

E se eu for a imitação de um relógio Rolex?...

Há dias em que um relógio se sente angustiado, traído. Não pelo tempo. Não pelos ponteiros das horas, dos minutos ou dos segundos... Um relógio julga-se traído quando suspeita que, afinal, não é aquilo que pensava ser: um relógio de marca.
Como se o mundo e a vida, não tivessem assuntos mais importantes e pertinentes, há dias dei (enquanto "relogio", claro está) por mim a pensar nesta possibilidade. Nesta hipotética falsidade.
E se eu for um Rolex falso? Uma imitação barata?... Fiquei a pensar. A sério que fiquei. E para ajudar à festa, a dona do relógio já não está cá para se defender. Que grande embuste!
Criei um blogue, à custa da imagem de um velho relógio de corda Rolex. Abro uma conta no facebook com o nome de relogio de corda. Vejo-me obrigada a recusar pedidos de amizade de relojoeiros e coleccionadores de relógios que, Enganadinhos da Silva, pensam estar perante um(a) expert na matéria, quando na verdade, eu sou um zero à esquerda no assunto...
Como se isto não chegasse, ainda recaem sobre mim suspeitas de ser um Rolex falso?!
Peço aos relojoeiros e aos entendidos na relojoaria, espalhados por "aí" que me ajudem a conhecer a minha verdadeira identidade. Repararem... na minha "cara"; onde está o símbolo da marca Rolex
O meu mostrador não tem. Porquê? É normal?
Volto à pergunta: serei falso?! Se sou, e, sem intenção deliberada da minha parte, enganei-vos este Tempo todo. :(


E com esta triste "inquietação", vou contar o tempo para outra freguesia.
Au revoir.

domingo, 23 de outubro de 2011

Marcelo Rebelo de Sousa, meu "caro". Siga o meu conselho: por favor, cale-se!

O título está no Sol online e diz assim:
"Marcelo critica tentação de privilegiar a escola pública em tempo de crise"

Depois, começo a ler o artigo e vejo mais isto:
«O Ministério durante muito tempo foi dominado pela FENPROF [Federação Nacional de Professores] que influenciava a sua direcção, mesmo com ministros e governos com a visão de que deveria existir liberdade de escolha», disse o comentador político.»
(Acha mesmo Sr Marcelo? Acha mesmo que o Ministério da Educação foi dominado pela FENPROF?!?!? Sr Marcelo, desculpe lá mas o senhor teve visões. Só pode!)

Continuando a "asneirar", Marcelo R.de Sousa remata com "mestria" mais esta:
«Rebelo de Sousa afirmou que «o ensino estatal tem vindo a aumentar em quantidade» e que se tem mostrado «muito assimétrico», enquanto «a escola não-estatal tem vindo a morrer em quantidade», mas garantindo «padrões de qualidade muito elevados».
(Meu "caro" Sr Marcelo; o senhor sabe que, nem todos os portugueses têm meios (€€€€) para colocarem os seus filhos numa escola não-estatal, não sabe?! Parece que não sabe, ou, está ligeiramente esquecido para não dizer, pesadamente esquecido
Não admira que, perante tais evidências e segundo as suas palavras, a escola não-estatal tenha vindo a morrer em quantidade. Cá para mim, o Sr Marcelo quer é dar vida a essa mesma escola em detrimento da escola estatal, ou não?
Só mais esta; o Sr Marcelo sabe que a escola não-estatal é geralmente uma escola elitista, não sabe? 
E sabe também que, essa tal escola não-estatal, geralmente elitista, tem por tradição rejeitar crianças com um historial de mau comportamento ou aproveitamento?
Para terminar, presumo, Sr Marcelo Rebelo de Sousa, que tem conhecimento de outra tradição invulgar, muito em voga na dita escola não-estatal: rejeitar crianças com deficiências várias.
Sr Marcelo, mas é claro que os padrões de qualidade da escola não-estatal têm obrigação de serem muito elevados. Eu sempre soube disto e tenho menos anos de vida que o senhor!
(Para ler na íntegra, aqui)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A letra T. T de tempo

E fico-me por aqui em matéria de letras, de considerações sobre a fatídica crise que nos agasta a todos (nem todos!). Uma coisa é certa; pelo menos, continuamos vivos e isso, é o que importa. Não baixemos os braços nunca! "Comer e calar", nem pensar. Pode ser que a esperança renasça com o tempo...

Termino com um grupo de vozes femininas (Mafalda Arnauth, Luanda Cozetti, Susana Félix e Viviane). Todas juntas, formam o projecto musical - Rua da Saudade - uma homenagem ao poeta José Carlos Ary dos Santos.
Como não podia deixar de ser, um "relogio de corda" que se preze, escolhe sempre primeiro, a "Canção do Tempo".
 Bom fim-de-semana.

A letra P. P de povo, de poder, de político, de promessas...

É na rede social facebook que vão desaguar a maior parte dos comentários sobre a crise, a austeridade, a economia, a política ... É claro que, podia partilhar aqui, muitos outros textos/comentários desta ou aquela pessoa, igualmente interessantes.
Uma parte da informação (textos/comentários) que circula pelo facebook sobre a situação actual do país e da Europa, tem origem em cidadãos anónimos; os tais que sentem verdadeiramente na pele, esta esburacada trapalhada em que nos meteram. Chamemos-lhes os espíritos críticos, os inconformados; são eles que dão a palavra escrita ao manifesto!
O texto de hoje, é um comentário retirado da referida rede social. Obviamente, não conheço pessoalmente a autora. Porém, a forma  directa e despretensiosa da sua escrita não passa despercebida.
Eis pois, o tipo de linguagem escrita que faz falta ao português desinformado. 
Ler para perceber: a crise, vista por uma ex-professora.

«...Nem sei que dizer, isto é mau demais para ser verdade. Andaram décadas a gastar e assaltar o erário público, e agora fingem que estão cá para minimizar a hecatombe, atirando sistematicamente as culpas para os detrás como se não estivessem juntos nisso. 
O "Inginheiro" foi derrubado depois de uma fortíssima (e justíssima) campanha baseada nas mentiras e na falta de palavra em relação às promessas feitas ao país. E quanto a mim foi bem derrubado, um político tem que aprender a não acenar com o que sabe antecipadamente não poder ou não ter qq intenção de cumprir. É uma questão de ética e até de moral. Estes, em pouquíssimos meses já o ultrapassaram. E pior, preparam-se para vender o país a retalho, coisa que no PS não me parece que fosse pacífica. Mesmo que quisesse (e eu sinceramente não sei se queria ou não, não tenho qq filiação partidária que me dê acesso a informação privilegiada), penso que o "Inginheiro" nunca teria base de apoio para ir tão longe. Agora, estão todos de acordo na repartição dos despojos.

Não nos assistirá sequer o direito de ter uma palavra a dizer sobre isso? Afinal trata-se da nossa própria vida e destino, por alma de quem havíamos de deixar tudo nas mãos dos que nos conduziram a isto? Fomos demasiado tolerantes com décadas de corrupção continuada, de evasão fiscal continuada, de videirinhos sempre de mão estendida, de receptadores (ainda!) na sombra…
A turbulência há-de passar mas não com esta gente, que apenas estava à espera de uma oportunidade para se atirar ao que resta. É essa a minha convicção. 
Mais tarde ou mais cedo terão o mesmo destino que os mentirosos anteriores, mas para nós - os tais 99% - vai ser um processo muito longo e doloroso, e penso que nunca mais conseguiremos recuperar os recursos indispensáveis à soberania nacional. Fechou-se uma era.
Mas… o rei morreu, viva o rei! Há sempre uma solução menos má do que
todas as outras. E não é esta, disso estou plenamente convicta
( MM - publicação autorizada pela própria autora, em 16/10/2011)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A letra D. D de desalento, de desilusão, de desânimo...

É compreensível que os jornalistas debatam em seminários, palestras e afins, como aconteceu há semanas atrás, algumas questões relacionadas com o exercício da sua profissão.
O jornalismo enfrenta um concorrente de peso: o facebook. O poder das redes sociais em geral e desta em particular, é tal, que, consegue mobilizar cidadãos para manifestações, criar movimentos cívicos, divulgar informação, conseguindo manter mais gente informada que qualquer outro meio.
Se a isto juntarmos a blogosfera; um universo virtual repleto de cidadãos anónimos que  pensa por si, que faz a análise da actualidade e escreve sobre temas que preocupam a sociedade; então, poder-se-á, de facto, temer pelo futuro da referida classe profissional.   
Há dias visitei o blogue Urgência interna. O seu autor é mais um cidadão do mundo, um cidadão deste país que pensa por si pensando também nos outros. Escreve sobre a actualidade, assim:
(Poderá ler o texto na íntegra, aqui)

«Carta ao futuro

Olá Tomás,
deixa que te escreva estas palavras, mesmo que ainda as não possas ler. Mas ali, no meio daquele quarteirão de Gente, percebi que ainda há uma possibilidade, mesmo pequenina, de o mundo não ser só aquilo que os novatos aiatolás do liberalismo instalados recentemente no poder querem fazer dele
(...)
Pelo menos, passou-me isso pela cabeça, quando vi os sorrisos tímidos dos roubados da esperança, dispostos nos passeios feitos margens do rio vermelho que avançava. Aceitavam, sem recusa, os autocolantes e havia neles algum olhar agradecido, quase raiando a inveja de a sua timidez os não fazer saltar, desde já, para a torrente. Mas sabes, nenhum rio é grande quando nasce, é preciso tempo para engrossar e, no fim, não há mais barragens que o possam deter.
Vamos ter que alimentar este rio e chamar de novo ao percurso todos aqueles que não vi hoje por lá. Tive saudades de muitos que conheci em tempos, mas que hoje deviam estar a trabalhar enfiados nos seus consultórios privados e lá não foram. Mas também são Gente de confiança e vão aparecer noutros dias. Podes estar certo que isso vai acontecer e o rio vai ser mar, porque afinal não podes nascer numa terra sem esperança e sem futuro. Tu e os teus amigos merecem que o rio cresça. Vamos fazer por isso e  gritar bem alto, porque todos sabemos que «quanto mais calados, mais roubados»

Fernando Baptista in  urgenciainterna.blogspot.com

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A letra F. F de fome

A Renascença adverte:

"Mais de 400 mil portugueses podem sofrer com cortes de Bruxelas"

«Para mim, o grande problema é que as próprias instituições chegaram ao limite da sua capacidade física e até material. Já não podem ajudar mais e, portanto, há que haver aqui formas da sociedade civil que possam ajudar a minorar estas dificuldades das famílias, porque as famílias vão pedir mais ajuda”, afirma Isabel Jonet.

Oikos quer protecção dos mais desfavorecidosA Oikos, por seu lado, não tem dúvidas de que as medidas do Orçamento do Estado para 2012 vão contribuir para o empobrecimento dos portugueses, “não apenas da classe mais desfavorecida, que já está a viver em situação de pobreza, mas incluindo uma parte da classe média, que poderá cair na pobreza”.

“Não discutimos a necessidade de pagar a dívida, não discutimos a necessidade de ajudar o sector financeiro. Aquilo que dizemos é: se existem recursos para aliviar as dificuldades do sector financeiro, têm que existir recursos para aliviar as dificuldades do sector mais desfavorecido da população portuguesa”, afirma à Renascença o secretário-geral desta organização não-governamental para a cooperação e o desenvolvimento.»

E eu pergunto: quem nos (des)governa, está preocupado em aliviar as dificuldades do sector mais desfavorecido da população portuguesa?
Não me parece...

domingo, 16 de outubro de 2011

Amanhecer

Numa madrugada estival de Outono, o dia começava assim...


(Pink Floyd - do álbum The Dark Side of the Moon ,1973)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Os abutres são aves do ... caraças!


Fiquei hoje a saber que o abutre, animal de hábitos necrófragos, divide-se em várias sub-espécies (e géneros). Sãos eles: 
  • o abutre barbudo ou quebra-ossos, 
  • o abutre-do-cabo, 
  • o abutre-indiano, 
  • o abutre-real, 
  • o abutre-negro, 
  • o abutre-das-palmeiras, 
  • o abutre-de-capuz, 
  • o abutre-de-cabeça-branca, etc, etc (fonte informativa Wikipédia). 
Porém, surpreendeu-me a certa altura, verificar que não constava na enciclopédia livre e virtual mais famosa do mundo, o abutre-europeu, igualmente conhecido como o abutre-da-União Europeia...
Este abutre tem a particularidade de ser uma ave de hábitos bastante selectivos.
Ao contrário dos congéneres da sua espécie, vive em países (ditos civilizados e poderosos) como os Estados Unidos da América, a Alemanha ou a França.
Seria igualmente desnecessário referir (mas é sempre melhor relembrar); estas aves "raras" têm uns "tratadores" especiais que tratam (passo a redundância) muito bem da saúde delas para que a seguir, sejam elas a tratarem da nossa!
O abutre-da-União Europeia tem alvos específicos, bem definidos: escolhe preferencialmente países "com a corda na garganta".

Os abutres nacionais, comandados pelos abutres europeus, estão a fazer o que tem de ser feito para grande regozijo dos abutres-mor. Estes, parece que já batem as asas de contentamento pela decisões que os abutres nacionais tomaram e anunciaram há umas horas atrás.
Deixem-me dizer (escrever) alto e com todas as letras, o seguinte: 
Estes governantes nacionais e internacionais, este FMI e estes canalhas todos (abutres) que nos querem comer vivos, precisam de levar nas orelhas, já!
Está na hora do povo português  mostrar que não come e cala a tudo!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Esta minha mania de guardar coisas

É verdade! Tenho a mania de guardar coisas; coisas que para algumas pessoas acabariam num caixote do lixo.
Tenho na minha parede, este desenho cuja data remonta ao ano lectivo 2002/2003. Apesar dos seus 9 anos, encontra-se em perfeito estado de conservação, como se pode ver.


A aluna que mo ofereceu (lá está! A vantagem de termos um certo e determinado nome. Pode faltar tudo no desenho mas as flores, essas, aparecem sempre) era tímida, muito metida consigo, tinha algumas dificuldades de aprendizagem. No entanto, lembro-me perfeitamente, era muito trabalhadora e esforçada; uma mulherzinha em miniatura.
Espero que apreciem mais uma obra-de-arte infantil.

P.S.) Este "estaminé" encerra por uns tempos. Sendo sexta-feira e véspera de fim-de-semana, despeço-me com música: os Fistful Of Mercy - um projecto musical do qual fazem parte Ben Harper, Dahni Harrison (filho de peixe...) e Joseph Arthur.


Até breve.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dia Mundial do Professor: as minhas dúvidas.

O Ministério da Educação (e Ciência), entidade super, hiper entendida em matéria de pedagogia e educação, moeu o juízo aos professores por causa das famigeradas Evidências, consideradas, aliás, elementos de suma importância na Avaliação do Desempenho Docente (ADD).
Pois bem, eu ando às voltas com o ensino dos Aparelhos (digestivo,circulatório, respiratório, excretor e reprodutivo).
Tento fugir das aulas demasiado expositivas para não ter minutos depois, criancinhas a mandarem aviões de papel uns aos outros dentro da sala.
Também, não faço questão de requisitar ao Instituto de Medicina Legal nenhum corpo para análise, nem quero dissecar nenhum coelhinho para não ter que exibir as suas entranhas à pequenada (se bem que... esta hipótese parece-me viável).
Entretanto, fui à compras e encontrei este boneco que me pareceu interessante para as crianças poderem mexer e visualizarem a localização dos principais orgãos do corpo humano.
Este "brinquedo" custou-me 19.99€ e comprei-o, a pensar nos meus alunos, e não, no vistão que faria, se o colocasse como bibelot na estante da minha sala.
Ao debruçar-me sobre esta aquisição (mais uma), outras dúvidas surgiram nesta minha cabeça:
Será que o talão desta compra é considerado uma Evidência? E o boneco, poderá constituir também uma Evidência aos olhos do MEC?...
O ridículo do sistema chega a atingir um nível tal que uma pessoa já pensa em tudo, não é verdade?! :-)
Eu, pelo sim pelo não, pois, uma mulher prevenida vale por duas, vou mas é guardar o talãozinho bem guardado e desejar que este "corpo humano" nunca desapareça da minha vista.
No próximo ciclo avaliativo, eles vão ver... com quantas evidências se faz a ADD.

Há petróleo em Peniche!!!!!!!!!!

"A Petrobras e a Galp vão mesmo avançar com a exploração de petróleo em águas portuguesas. As avaliações feitas ao largo de Peniche revelaram fortes indícios da existência de crude. O primeiro poço deve avançar já em 2012." SICnotícias  

                                    (leia a notícia integral, aqui)

Os 101 anos da República são importantes mas, a "originalidade" desta notícia também tem a sua importância. Os republicanos que me perdoem.
E perguntam vocês: importante?... Porquê?
1º- Peniche é terra de gente do mar, gente com muito "sangue na guelra".
2 - Uma publicidade ao nome da terra (cidade) é sempre uma grande ajuda para o turismo da zona.
3 - Peniche (ainda) pertence ao distrito de Leiria (o meu distrito); logo, "puxar a brasa à sua sardinha" não é defeito, embora possa considerar apenas este "puxar...", um feitio de carácter ocasional, tendo em conta a possível descoberta do precioso líquido em águas nacionais.
A "urina do diabo" (não sei onde é que eu já li isto) vulgo, petróleo, é um bem que provoca um mal tremendo (dos diabos!). Bem sabemos que, por ele, o homem (alguns) mata, esfola e guerreia a torto e a direito.
É, portanto, ao mesmo tempo, assustador pensar que o "pitrol" possa existir mesmo, lá, nas profundezas do mar, em Peniche.
Mas bom... deixo o benefício da dúvida. Se esta descoberta servir para tapar o buraco económico do país e ajudar a melhorar a vida de TODOS os portugueses, fico satisfeita.
O pior, é se não acontece nada disto...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

De PALHEIRO fiz (fizeram) AUDITÓRIO


Lembram-se da história do macaco do rabo cortado? Arranjava sempre maneira de fazer alguma coisa daquilo que tirava aos outros... Neste caso, ninguém tirou nada a ninguém. Conseguiram apenas transformar um velho e decadente palheiro de burros num espaço cultural; um espaço capaz de provocar alguma "dor de cotovelo" a certas aldeolas e freguesias das redondezas.
Infelizmente, o impulsionador deste projecto teve um final trágico há alguns anos atrás.
Porém, alguém haveria de dar continuidade à obra...
E assim nasceu um mini-auditório que presta um papel importante ao serviço da população da freguesia, com os mais diversos eventos culturais. 
                                    (A entrada principal. Mais atrás funciona o Centro de Dia)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Abordagem infantil da crise. Elas (as crianças) também desejam sair dela.

                                                   Little kids ( Kings of Convenience )

A palavra crise já faz parte do dia-a-dia das crianças portuguesas; umas porque ouvem falar dela na comunicação social; outras, porque a sentem dentro das suas próprias casas através de restrições várias. Uma larga maioria, talvez, passe a conhecê-la melhor quando o pai ou a mãe ficam sem o seu posto de trabalho. 
As crianças querem e sabem, com a ingenuidade que lhes é própria, contornar a crise com uns "extras"...

Há uns dias atrás, num dos intervalos, dei com as minhas quatro meninas (8 anos) sentadas nas escadas exteriores da escola "tecendo" as "coisas" (desculpem a minha ignorância mas não sei o nome disto) que podem ver do vosso lado direito.
Perguntei-lhes para que serviam e porque estavam a fazer aquilo. Eis a resposta:
- É para vender. Então (atão)... oh professora... também precisamos de ganhar dinheiro!!!
- Acho bem que ajudem os vossos pais e quanto custa uma coisinha dessas?
- 1€ !!!- respondeu-me uma das mais despachadas, pelo menos de língua.
- 1€?!?!?? Não acham que estão a vender isso muito caro!?- perguntei
- Então (atão)... isto dá muito trabalho a fazer professora e depois queremos comprar mais fios para fazer outros por isso, temos que vender caro. Já vendemos duas!!
"Pronto, já cá não está quem falou" - pensei eu. E lá continuaram a "tricotar" alegremente com aqueles fios de plástico coloridos.

Este episódio lembrou-me uma ida à praia, em Agosto deste ano; altura em que me cruzei com três crianças que se dedicavam à arte da bijutaria, ali mesmo, em cima do muro, na praia de S. Martinho do Porto.
Parei, perguntei se podia fotografar e meti-me com elas. Acabei por receber esta resposta:
- Estamos a fazer pulseiras para vender. "Quer alguma, senhora?" - perguntou um dos meninos.
As pulseiras estavam ainda, em fase inicial de execução, porém, o preço já estava estipulado - 1.50€ -
Mais tarde, arrependi-me não ter passado para saber como tinha corrido o "negócio".

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"Eu amo-te" - diz ele (ou ela?). "Eu também" ...

Há dias em que eu não sei ao certo, que espécie de profissional sou.
Sou má porque ralho muito.
Sou boazinha porque às vezes, brinco e faço rir.
Sou chata porque estou sempre a pedir para darem respostas escritas completas ou para apagarem e mais isto e mais aquilo.
Posso até, nem saber definir bem os meus defeitos e qualidades enquanto profissional, mas sei o tipo de alunos que tenho: crianças imprevisíveis.
Pelo 2º ano consecutivo e apesar de algum conhecimento mútuo, confesso que a pequenada não pára de me surpreender.
Ora vejam:
Ontem, preparava-me para iniciar a aula do Estudo do Meio sobre o Aparelho Digestivo para os alunos do 3ºano.
Reparo então, que um dos meninos estava constantemente distraído. Para "ajudar à festa", levantou-se e apanhei-o, largando sorrateiramente e apressadamente, um minúsculo papelinho em cima da mesa de uma colega. Não se livrou de uma repreensão.
Entretanto, a colega estava tão atenta ao meu paleio que nem viu aterrar aquele papel na sua mesa (ou talvez visse porque afinal, alguém escreveu o "eu também"). O certo, é que ela não se apercebeu que eu passei para o recolher. Ainda pensei colocá-lo no lixo mas achei melhor guardá-lo.
O autor olhou para mim com cara de poucos amigos, algo atrapalhado.
Discretamente, coloquei a mensagem  no meu bolso e a aula prosseguiu.

Reparei no seu conteúdo ao chegar a casa. A mensagem contida num pedaço de papel mal amanhado, fez-me rir.
Afinal, aqueles olhares... aquela história de dizer que não via bem o quadro... (só para se sentar ao lado dela)... dizer se podia pintar na mesa da XPTO... Agora percebo tudo!
Anda paixão e amor no ar!!! E pelo registo, é sentimento correspondido.  :-)
Que estupidez a minha, pensei... eu para ali a falar do Aparelho Digestivo quando o rapazinho estava numa de congeminar palavras ternas e doces para a sua amada!
Smiley 
Tão bom sermos crianças...
E para todas as princesas e príncipes em miniatura, cá vai música.
Um bom fim-de-semana.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

C'est quoi le temps, encore?

Qu'est-ce le temps, sinon um comptoir d´épisodes de la vie; de notre vie?
Pourquoi le rechercher lorsqu'il disparait aussitôt?
Le temps, c'est plus de passé que de futur, laissons-le vivre à present. C'est comme une fleur qui est née au bord du chemin; il n' a pas de maître car il appartient à tous.
Surtout, n'oublie pas: le temps est libre, ne l' emprisonne jamais; laisses-en un peu pour les autres.
                                                     (relogio de corda)

Que bela canção esta, do Monsieur Charles Aznavour e Patrick Bruel!
Duas gerações, o mesmo encanto nas vozes.


Hier Encore
                                             Composição: letra e Música de Charles Aznavour

                                                 Hier encore
J'avais vingt ans
Je caressais le temps
Et jouais de la vie
Comme on joue de l'amour
Et je vivais la nuit
Sans compter sur mes jours
Qui fuyaient dans le temps

J'ai fait tant de projets
Qui sont restés en l'air
J'ai fondé tant d'espoirs
Qui se sont envolés
Que je reste perdu
Ne sachant où aller
Les yeux cherchant le ciel
Mais le coeur mis en terre

Hier encore
J'avais vingt ans
Je gaspillais le temps
En croyant l'arrêter
Et pour le retenir
Même le devancer
Je n'ai fait que courir
Et me suis essoufflé
Ignorant le passé
Conjuguant le futur
Je précédais de moi
Toute conversation
Et donnais mon avis
Que je voulais le bon
Pour critiquer le monde
Avec désinvolture

Hier encore
J'avais vingt ans
Mais j'ai perdu mon temps
A faire des folies
Qui ne me laissent au fond
Rien de vraiment précis
Que quelques rides au front
Et la peur de l'ennui

Car mes amours sont mortes
Avant que d'exister
Mes amis sont partis
Et ne reviendront pas
Par ma faute j'ai fait
Le vide autour de moi
Et j'ai gâché ma vie
Et mes jeunes années

Du meilleur et du pire
En jetant le meilleur
J'ai figé mes sourires
Et j'ai glacé mes pleurs
Où sont-ils à présent
A présent mes vingt ans?

domingo, 25 de setembro de 2011

O Tempo por Rubem Alves

Contei meus anos e descobri
Que terei menos tempo para viver do que já tive até agora
Tenho muito mais passado do que futuro
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de jabuticabas
As primeiras, ele chupou displicentemente
Mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades
Inquieto-me com os invejosos tentando destruir quem eles admiram.
Cobiçando seus lugares, talento e sorte

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas
As pessoas não debatem conteúdo, apenas rótulos
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos
Quero a essência.... Minha alma tem pressa....
Sem muitas jabuticabas na bacia
Quero viver ao lado de gente humana... muito humana...
Que não foge de sua mortalidade.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade... 

Rubem Alves  (escritor brasileiro nascido em 1933)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Era um brinquedo para crianças muito, mas mesmo muito, irritante

Certo dia, num hospital, vi entrar um menino.
Não sei ao certo a sua idade; talvez tivesse 6, 7 anos. Também não sei que vivências eram as dele mas percebi que algumas tristezas e muitas carências deviam constar na lista. Nem pai, nem mãe, apenas os avós (já idosos) cuidavam dele como podiam.
Ao contrário dos outros, era um menino só. Não se fazia acompanhar por ninguém, por nenhum familiar. Valeu-lhe as funcionárias e os enfermeiros da instituição pediátrica para lhe dar alguma atenção e carinho. 
Concretamente, não sei qual era o problema de saúde do G. 
Poderia ter vários até, mas um deles, estava bem visível nas suas pernitas curtas e assimétricas. Coxeava, no entanto, corria e andava que se fartava. E falava muito!
Uns dias depois, na mesma enfermaria, reencontro o G, engessado e confinado a uma cama, impossibilitado de se mexer. Às vezes, ele chamava-me e eu ia ter com ele...
Para o ajudar a passar o tempo, alguém lhe colocou nas mãos, um objecto semelhante ao da imagem. 
A partir deste acto, o nosso "sossego" passou a fazer parte do passado.

Este brinquedo sonoro, ter-nos-ia conduzido à loucura completa se o cachopo insistisse em tocar mais Tempo. Juro! O som dos animais juntamente com uma melodia ultra irritante, tornavam-se insuportáveis ao fim de um dia!
Volvidos quase três anos, conseguimos no presente, encontrar alguma graça ao recordar esta história.
Afinal, estávamos num hospital para crianças. O que podemos nós esperar delas, mesmo que estejam doentes ou entrevadas?  
Criança será sempre criança, esteja ela onde estiver, esteja ela sã ou doente porque elas são, tantas vezes, a tal força bruta que a natureza humana tem de melhor.
Lembrei-me deste episódio quando ouvia esta música das "CocoRosie".
Quem diria que um brinquedo irritante e umas cornetas de plástico para umas simples assobiadelas pudessem deliciar desta maneira, os nossos ouvidos?!

 

P.S.) No dia em que este menino teve alta, a auxiliar do hospital juntou uma série de brinquedos dentro de um saco e colocou lá dentro o tal jogo didáctico.
"Ufa, que alívio!" - pensei.
                                                                Bom fim-de-semana!