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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CRIME E CASTIGO no país dos brandos costumes, de Pedro Almeida Vieira

Título: CRIME e CASTIGO no país dos brandos costumes.
Autor: Pedro Almeida Vieira. 
Editora: Planeta (primeira edição, abril de 2011)
Género literário: narrativa histórica.

Pedro Almeida Vieira é um escritor e jornalista português. Nasceu na cidade de Coimbra a 17 de Novembro de 1969, viveu a infância e a juventude no concelho de Anadia, tendo-se licenciado em Engenharia Biofísica na Universidade de Évora em 1993. (Para mais informação sobre o escritor, abrir esta ligação)

Citando o sítio, portalivros.wordpress.com, ... Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes integra um conjunto de 30 narrativas que retratam crimes passionais, banditismo e associação criminosa, homicídios repugnantes, assaltos a igrejas e outros crimes religiosos (Inquisição), com o denominador comum da condenação à pena capital dos seus autores.

Se estão a pensar que este é um livro repleto de descrições horríveis e de barbaridades várias, tirem o cavalinho da chuva. O escritor soube tratar do assunto com engenho e arte.
Sem chocar a sensibilidade do leitor, relata os factos tal como eles aconteciam na época, dando até um cunho humorístico à sua narrativa.
Em lista de espera para leitura futura fica então, CRIME E CASTIGO o povo não é sereno, o 2º volume desta saga sobre crimes e castigos.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O risco do verbo arriscar

Arriscar Tem a Ver com Confiança Arriscar tem a ver com confiança. Uma pessoa sem confiança vai tentar repetir, fazer igual aos outros, não cometer erros, que é uma ideia muito valorizada. Mas o erro está ligado à descoberta. É fundamental não ter medo nenhum do erro. O que é o erro? Eu tinha previsto ir numa determinada direcção e não fui, errei. O erro é encontrar alguma coisa, algo que se cruza com o novo, o criativo.

Gonçalo M. Tavares, in "Entrevista a Mil Folhas (Público), em 8 Janeiro 2005"

SMS

SMS  

Ela caminha já a tarde vai alta pelo passeio que segue paralelo ao mar, por cima das praias. Em baixo, a areia estende-se vazia até à água, acabando numa espuma branca, das ondas que rebentam com o fragor dos dias de Inverno. Vai sozinha. Cruza-se com jovens a passo de corrida, outros que deslizam em patins, um casal com o filho pequeno feliz na sua bicicleta de rodinhas, acompanhado por um cãozinho saltitante que corre para a frente e para trás em redor dele.
Leva na mão o telemóvel e nos olhos castanhos brilhantes uma esperança. Vai pensativa e sem horas, caminhando sem pressa, reparando nas pessoas, no mar desabrido que se atira à praia, no ar fresco que respira, no vento que se levanta com uma promessa de tempestade. Cruza o casaco grosso, azul-escuro, à frente do peito, sem apertar os botões. Cruza os braços. Uma folha de jornal passa por ela a esvoaçar, notícias antigas, pensa divertida, logo se concentrando no navio de carga iluminado que vem de Lisboa e ruma ao mar aberto com o vagar de quem tem um destino certo num dia certo.

Acaba por apertar os botões do casaco e levantar a gola para se sentir mais protegida do vento, que agora traz os primeiros pingos de uma chuva anunciada. Enfia as mãos nos bolsos, mas a direita mantém-se fechada em volta do telemóvel. Os seus cabelos curtos, uma feliz confusão de caracóis castanho-escuro começam a molhar-se, mas ela não se apressa, porque gosta da chuva. Enquanto as outras pessoas correm para se abrigar, ela mantém-se no seu passo, tranquila, em direcção a um café com paredes de vidro, mesmo ali à frente.
Escolhe uma mesa, senta-se, pede um chá ao empregado. Quando este o traz, aquece as mãos em concha à volta da chávena. E, nesse entretanto, vem-lhe à cabeça uma música que náo entoa, mas escuta só de memória, o som de uma caixa de música. Dá por ela a formar os versos nos lábios, sem som,

You could be happy, I hope you are
You made me happier than I'd been far.

A lembrança da música transporta-a para outro tempo, um tempo recente que está sempre a voltar, contra a sua vontade. Sacode-os da cabeça, a música, o tempo que já lá vai, pois não quer viver no passado. Olha para fora, através do vidro por onde escorrem fios de água. O temporal escureceu o dia. Dá um gole de chá, pousa a chávena, pega no telemóvel que, nesse preciso momento, anuncia com um toque a entrada da mensagem que esperava. Abre-a, lê,
       Jantamos hoje?
       O seu rosto ilumina-se com um sorriso bonito e responde com uma só palavra,
       Sim!

Tiago Rebelo, in " Breve História de Amor"

terça-feira, 2 de julho de 2013

«Quanto tempo tem a vida ainda para mim?...»

Ontem falou-se muito sobre uma certa carta que não tem, nem de longe nem de perto, nada a ver com o excerto que a seguir se transcreve; uma carta, certamente, bem mais bela e profunda do que qualquer carta de ministro demissionário.
Fernando Pessoa escreveu um dia, todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Será mesmo assim?...

Significados para ridículo, segundo o sítio pt.wiktionary.org:
  1. digno de riso, de escárnio
  2. de pouco valor; insignificante

«Quanto tempo tem a vida ainda para mim? E pensar que nunca mais estarás. É difícil. Nunca mais. É mesmo incompreensível e só ao fim de muitos anos é que se irá entendendo. E à medida que se entende fica a mágoa que se aceita. A tristeza apaziguada no cansaço e num certo retorno mental (...) Estou a ouvir a tua palavra oblíqua -  que tolice. E todavia, vê tu, estou a ponto de construir no meu nada de tudo uma ideia de redenção com a memória de ti para esse nada que é meu. Está uma tarde sufocante, vou deixar que ela se cumpra na sua fadiga e o sol se apague na noite.
Voltarei a escrever-te - voltarei?»
                                                                                   Paulo 

 Vergílio Ferreira, in CARTAS A SANDRA

(um livro disponível aqui)

quinta-feira, 7 de março de 2013

"Vamos brincar ao «lembras-te»"

Tentando perceber o alcance deste livro emprestado, escrito por Miguel Esteves Cardoso...
 

"Tenho a impressão de estar feliz.
Não é mau.
Tenho sessenta e quatro anos. Tive uma vida de merda, mas a culpa foi minha. 
O menos que se pode dizer é que tem sido interessante.
Tem graça.
Não me lembro de alguma vez ter estado feliz.
Antes.
Nem em menino.
Senão lembrava-me de certeza.
Porque é muito bom.
Deve ser — por estar, finalmente, ao pé do meu amor.
Meu amor.
Mulher má. Mas é.
Mulher má.
Mas minha.
Teresa.
Deve ser por isso.
Ela também parece não estar triste. Nunca a vi assim.
Mulher dúbia.
Teresa, chama-se.
Anda cá.
Vamos brincar ao «Lembras-te».
Lembra-me lá como é.
Quem se lembrar de mais coisas, perde.
Perde quem se lembrar primeiro.
Tu perdes sempre.
Não vale dizer a verdade.
Ai isso é que vale — desde que não seja.
Está bem.
Quem sou eu para estar feliz? Um velho inválido. 
Que jaz num luxuoso lar para doentes da terceira idade. 
Sou, contudo, uma inscrição recente. 
Fiquei inválido só a semana passada. 
Só anteontem começaram a fechar-me aqui neste quarto, às nove da noite. 
Não tenho razões para estar feliz, mas feliz é 
precisamente, 
aquilo que eu, neste momento, mais estou. 
Mais, pelo menos, do que em qualquer 
momento de que me lembre, ocorrido durante 
a minha tal vida despreocupada e interessante
E da Teresa (...)"

"O Amor é fodido" - Miguel Esteves Cardoso (Ed. Assírio &Alvim)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

"E viu a barba de chibo, pêra retorcida..." (cont)

Para completar mais um pouco o conto da mensagem anterior e satisfazer a curiosidade...

O diabo deu a mão ao menino Jesus que entretanto ficara pregado à pedra. Este, ao levantar-se, deu um encontrão no diabo que caiu desamparado no meio da lama. Quando se ergueu, já o menino ia longe. "o menino Jesus" voltou-se para trás e ainda viu, na noite escura, um clarão de raiva." 
Mais tarde, o diabo voltou a casa do menino Jesus disfarçado de Pai Natal, mas como era diabo (um pobre diabo!), pediu para brincar um bocadinho com a carrocinha (carroça), a prenda do S.José para o menino.
- Não tem vergonha de ser tão grande e querer brincar ainda?"- perguntou o menino Jesus. 
- Eu? Vergonha? - e o diabo ia rir-se, mas tornou a lembrar-se do fiasco do enxofre pelos intervalos do riso.

Brincaram, brincaram mas o menino Jesus precisava de uma prova em como aquele homem era um impostor.
E como é que ele descobriu que era um falso Pai Natal? Ora, através do método de sempre. O infalível teste das barbas!
"O menino Jesus levantou e viu a barba de chibo, pêra retorcida, que o diabo nunca pode tirar, como se está a ver. As barbas brancas, tão imaculadas, é claro que eram postiças."
Depois de lhe puxar as barbas e ficar com elas na mão, o menino Jesus gritou bem forte uma palavra mágica; o diabo deu um estoiro e saiu pela porta fora com muita muita força (mas a porta ficou inteirinha no mesmo sítio).
Só depois deste episódio é que surge o Pai Natal verdadeiro...

"Por tudo isto é que o Natal é pai e tem barbas branca, para se distinguir do outro, que traz brinquedos do inferno, brinquedos que, como os meninos também sabem, são feitos neste mundo, tal qual como os outros brinquedos."  
Jorge de Sena - Antigas e Novas Andanças do Demónio
                                           1944

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Natal? Mas que Natal é esse? - perguntou o diabo

Esta é a história que vos deixo. 
Dedico-a às pessoas crescidas com espírito de criança, independentemente do outro espírito, o natalício.  
Jorge de Sena escreveu e eu, Florbela (desta vez sem "Relogio e sem Corda), passo a transcrever um excerto, porque é diferente de todas as outras histórias de Natal que eu já li.
Desejo a todos um Santo e Feliz Natal.

  "Como toda a gente sabe, e os meninos melhor que ninguém, o Natal é uma coisa muito velha. O que nem toda a gente sabe é que , no princípio, ele não era pai; nem era velho, e não tinha, portanto, barbas brancas. Assim, quando o menino Jesus nasceu, já todos os meninos punham o sapato na chaminé.
     A única diferença era que a chamniné não tinha, como hoje, fogão de gás ou fogareiro. Depois, com o menino Jesus, veio outra diferença: também ele punha o sapatinho, que, por acaso, era uma sandália.
     Isso durou pouco tempo? Não, porque o menino Jesus só cresce e se faz homem quando os outros meninos crescem e julgam que se fazem homens. O que, e lá isso é verdade, não acontece a toda a gente, como os meninos terão muito tempo para ver. Mas isso é já outra história, que os meninos aprenderão, sem que ninguém lha conte.

     A que eu vou contar começa quando o menino Jesus ia fazer sete anos, idade que é muito importante, visto que são sete as maravilhas do mundo. O menino Jesus, como os outros meninos tinha vontade de crescer e não acreditava no Natal. Ele bem sabia quem punha os brinquedos na sandália (era a mãe), e, por não haver então lojas de brinquedos, e, mesmo que houvesse, não terem os pais do menino Jesus dinheiro para os comprar (os brinquedos já eram muito caros), ele bem vira S.José estar a fazer uma carrocinha, às escondidas. 
Por isso, naquela tardinha, sempre muito comprida, que há antes da noite de Natal, noite que, por sua vez, é a mais comprida do ano, o que lhe valeu ser ela a Noite de Natal; por isso, como ia dizendo, o menino Jesus que estava à espera de lhe darem a carroça, fingia que se não importava, fingia, até, não esperar coisa alguma. A tarde estava muito bonita (...) e é natural que estivesse: o Natal ia ser pai e, o que é muito mais, ganhar as suas barbas brancas. 
O céu fazia-se verde e amarelo e cor-de-rosa, que são as cores que as pessoas grandes não gostam de ver no céu (...). O menino Jesus, é claro, via-as melhor que ninguém. E, então, para disfarçar, começou a contar as nuvenzinhas soltas, que estavam todas paradas, muito quietas de propósito para ele contar - mal imaginavam o que lhes iam acontecer. (...)
O menino Jesus sentara-se numa pedra à beira do caminho, e com uma varinha (que não era de condão, pois só as fadas precisam desses objectos), fazia riscos na poeira (...). Ora, o menino Jesus, umas vezes olhava para o céu, outras olhava para o chão, e qualquer pessoa com dois dedos de testa perceberia que ele estava a desenhar as nuvens. 
Mas parece que estas coisas são muito difíceis de perceber, como os meninos sabem pelas perguntas parvas que muitas pessoas crescidas costumam fazer. 
     - Que estás tu para aí a riscar, pequeno?
     O menino Jesus voltou-se (quando nos fazem perguntas destas, a gente está sempre de costas), e viu um homem muito bem vestido que até parecia mentira. O menino não se deixou enganar, porque a pergunta estragara o fato do homem, e era como se estivesse todo rasgado e com a fralda de fora.
     - Estou a fazer riscos.
     - Isso vejo eu. Que riscos?
     - Só riscos.
     O homem mostrou uma cara muito má, e o menino Jesus foi pondo os pés a jeito, para o caso de ser preciso levantar-se de repente e fugir a correr.
     - Estás a armar em esperto, mas a mim não me enganas. 
     O menino Jesus, que estava farto de enganar imensa gente, riu-se, mas só por dentro, por causa da má cara do homem.
    - É mal fazer riscos? - perguntou.
    - Se é! Ora experimenta lá.
     O menino Jesus ficou desconfiado, e traçou um risco, um muito pequenino. E qual não foi o seu espanto ao ver a varinha ficar presa ao chão! Ver não viu, mas quis tirá-la e não pôde.
     Claro que, desta feita, quem se riu foi o homem. Ora é sabido que o diabo não se pode rir muito alto, porque lhe sai enxofre pelos intervalos do riso. E assim aconteceu. O menino Jesus sentiu o cheiro, viu o fumozinho a sair da boca do homem, era quase noite (anoitecera quase de repente), não passava ninguém na estrada, ele estava um bocado longe de casa, e, apesar de ser quem era, teve medo, um medo enorme, um medo ainda maior que o diabo.
     Estão a ver o menino Jesus nestes assados. Que faria qualquer menino? Evidentemente, não mostrava medo, o que é a melhor maneira de assarapantar o demónio. Foi o que ele fez. Fingiu que não queria a vara para nada (e queria porque era uma bela vara, muito direita), e disse:
     - Bem, são horas de voltar para casa.
     - Ah, sim? E porquê? - (o diabo a ver se ele caía).
     - Tenho lá o Natal à minha espera. 
     O diabo sentiu vontade de rir; mas, aflito com o fiasco do fumo pelos intervalos do riso, mordeu os lábios e perguntou:
     - O Natal? Mas que Natal é esse? 
     - Se calhar não sabe o que é! - exclamou o menino Jesus, e tentou levantar-se. Aí é que foram elas! Estava pregado à pedra, como a vara à lama! (...) Se ao menos passasse alguém! Mas qual! Nem vivalma, que o diabo não conta, não é gente. E como nessa altura ainda não havia santos por quem chamar, a Nossa Senhora estava em casa, e o menino Jesus, apesar de saber que era menino Jesus, não sabia que era filho de Deus, não havia salvação possível. Não havia!... Nisto, porque era um menino igual aos outros meninos, teve uma ideia luminosa." (...)
                 
Jorge de Sena - RAZÃO DE O PAI NATAL TER BARBAS BRANCAS -
in Antigas e Novas Andanças do Demónio, edições70.pt - 2006

domingo, 16 de dezembro de 2012

Quanto tempo dura a tua cara?

Um título engraçado para um livro infantil que eu não conheço mas quero conhecer.
É também uma boa sugestão de leitura e um bom presente, numa época em que a generalidade das crianças só sabe pedir jogos para as consolas e afins.
Quanto tempo dura a tua cara? foi escrito por Maria Inês de Almeida e tem a chancela editorial da Gato na Lua.
(à venda aqui ou aqui)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Foto - E o Reencontro Meio Século Depois: sugestão de leitura

O que fazer quando, algures num local recôndito das nossas casas se descobre uma fotografia amarelecida pelo tempo?!
Tudo e mais alguma coisa, mas daí a imaginarmos que uma simples fotografia possa originar a escrita de um livro é, quando muito, algo invulgar. Foi porém, o que acabou por acontecer com esta Foto.

Desta fotografia, tirada em 1963 no campo de futebol da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, numa altura conturbada da vida político-social do país, constam os oitos autores deste livro.
A ditadura salazarista estava no seu auge.
As vivências individuais e a amizade colectiva que sempre os uniu, embora separados pelo tempo, seriam motivos suficientes para, anos mais tarde, proporcionar o reencontro destes oito amigos numa de "dar corda à memória"... E assim nasceu este livro. A Foto relata de forma realista e pessoal alguns episódios que marcariam para sempre a vida destas oito pessoas.
A travessia "a salto" para a Suiça, a clandestinidade, as perseguições pela PIDE, a prisão e tantos outros momentos... fazem parte desses episódios.
A Foto pode ser igualmente o retrato de um Portugal dos anos 60 e 70; um país caracterizado por um considerável atraso social e cultural; um país "cinzento" onde uma juventude destemida e cheia de ideais soube, de norte a sul, "dar o corpo ao manifesto" na luta por um país livre.
A Foto - E o Reencontro Meio Século Depois, foi publicado em Maio de 2012 pela Âncora Editora e contou com a participação de Jaime Teixeira Mendes, Joaquim Letria, José Gomes de Pina, Mário Lino, Noémia de Aritztía, Paula Mourão, Raimundo Narciso e Teresa Tito de Morais.
Esta obra vale pelos seus testemunhos. Mostra à minha geração e a outras certamente, as dificuldades, as conquistas alcançadas e o longo caminho percorrido até hoje: o da luta pela liberdade, pela justiça e pela igualdade.  Está nas nossas mãos não deixarmos que estas conquistas retrocedam no tempo.  

Termino com este excerto:

[...] Já dentro do avião, ouvi chamarem-me, várias vezes, pelo altifalante. Fiquei calada sem me mexer. Entraram então de rompante dois agentes da PIDE aos gritos:« Retirem as malas dessa passageira, por precaução.» (como se  de uma terrível terrorista se tratasse...)
(...)
Permaneci na sede da PIDE durante dois dias consecutivos. As funcionárias que me vigiavam estavam sentadas numa cadeira à minha frente, só uma pequena secretária rectangular nos separava, e revezavam-se de quatro em quatro horas. Durante esse tempo, as guardas faziam renda ou liam um pequeno livro preto, talvez de notas, ou simplesmente estavam em silêncio.
Saíam quando o inspector da PIDE vinha fazer o interrogatório. 
Vencida pelo cansaço, por vezes parecia que ia dormitar, mas rapidamente acordava sobressaltada com um batimento forte na tampa da secretária. Não conseguia comer e elas ameaçavam que iriam «fazer como os gansos» e colocar-me um funil pela garganta abaixo. (...)
O inspector da PIDE que conduziu os interrogatórios foi Abílio Pires, já conhecido pelos seus métodos cruéis contra os presos políticos. 

A certa altura deu-me um safanão que me deitou da cadeira abaixo.» (...)

Teresa Tito de Morais in  A Foto - E o Reencontro Meio Século Depois (pág.255/257)

                             (Poderá adquirir este livro aqui)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Ela (final) - "Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento"

ELA

     "Eu conhecera-a muitos anos antes, quando ela era uma adolescente. Mas ao reencontrá-la em Serpa naquela manhã vi uma desconhecida.
     Foi num dia de Junho e o calor abrasava as lajes da velha praça.
     Estávamos numa esplanada, tomando refrescos. No grupo, as conversas, cruzadas, incidiam sobre assuntos diferentes. Eu não as acompanhava. Estava concentrado nela.
   Os cabelos, aquecidos pelo sol alentejano, adquiriram um tom acobreado. Os olhos, enormes, irradiavam uma luminosidade húmida (...). Falava devagar, com um ritmo que lhe valorizava a voz que também me pareceu ser diferente de qualquer voz já escutada. E tudo o que dizia parecia-me profundo, inteligente.
    Reencontrei-a no dia seguinte, num almoço ruidoso na aldeia da sua família materna. E a minha atenção voltou a ser absorvida por ela.
     Lera livros meus e recordou deles personagens, interrogando-me sobre situações e comportamentos em que, como autor, não havia reflectido.
    Deu-me o e-mail para mantermos contacto permanente. Nas semanas seguintes recebi quase diariamente breves mensagens suas. Numa delas citava Proust, a propósito de personagens de grandes romances criadas pela imaginação mas que amamos como se fossem gente. Impressionou-me a sua capacidade para descer fundo no que em cada um de nós é quase incomunicável e registei também o seu domínio da palavra. Ana Catarina transmitia ideias e sentimentos com um estilo original [...].
      À inibição somava-se o temor do ridículo.
     Ela tinha 38 anos e eu ia completar 80. Uma jovem como Ana Catarina não podia sentir-se atraída por um velho como eu. Tomar uma grande afinidade intelectual e humana por um sentimento diferente seria uma atitude reveladora de que eu entrava em fase senil sem me dar conta disso [...]
    Passei a dormir menos. Sem insónias. Deitado, pensava nela durante horas. Um dia venci as muralhas da inibição e disse-lhe que a atracção complexa que exercia sobre mim era um sentimento muito próximo do amor, o que me assustava.
    Mas ela não se assustou. Respondeu que eu a fazia feliz e sugeriu que levantasse as barreiras ao   amor. [...]
     Em Agosto desse ano, 2005, viajei para o Brasil. Decidimos que no meu regresso iríamos passar um fim de semana alargado a Mérida (...). Redescobri ali a felicidade (...).
     Fechei numa gaveta do cérebro as elucubrações sobre o absurdo de romper todas as fronteiras que se interpunham entre mim e uma mulher jovem. Esqueci que tinha mais do dobro da sua idade [...]

     Hoje sei que Etna no Vendaval da Perestroika é um livro filho do amor. Não teria sido escrito se não houvesse encontrado a Caty numa manhã de Junho em Serpa. Quando eu envelhecia, pensando na contagem decrescente do tempo de vida útil, ela me sacudiu até às raízes, levando-me a redescobrir o amor em patamares que não imaginava existirem.
     Reencontrei pela sua mão a felicidade pessoal, meta perseguida pelo homem como fim supremo, esse estado de paz interior, de alegria pagã cultivado pelos epicuristas gregos e satanizado pela igreja de Jesus e muitas outras.
     Caty somente se desentende comigo quando o diálogo incide sobre a brevidade dessa felicidade. Porque na lógica da vida, ela continuará em breve sozinha o seu caminhar (...). A corrente da vida prosseguirá quando eu desaparecer. E de alguma maneira continuarei presente nos meus filhos e netos e em Caty".

         Serpa e Vila Nova de Gaia, Setembro de 2008

Miguel Urbano Rodrigues - Parte IV, pag, 211 a 216 In "Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" - Ed.Calendário

Bom fim-de-semana!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" - Felicidade

SOBRE A FELICIDADE

     "A felicidade comum é o objectivo da sociedade.
     Tão profunda era essa convicção nos revolucionários franceses de 1973 que a transmitiram no artigo primeiro da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
     Perseguiam a utopia. Mas logo ficou claro que não havia uma resposta consensual para a pergunta o que é a felicidade?[...]
     Pascal foi categórico:"todos os homens tentam ser felizes(...) quaisquer que sejam os meios a que recorrem para isso".
    Não fui excepção. Não localizo o momento em que me interroguei pela primeira vez sobre a felicidade como objectivo. Mas, incapaz de a definir, persegui-a antes da idade da razão [...]
    Tive desde menino uma boa saúde apesar de doenças graves; a infância, no campo alentejano, fez-me descobrir um mundo mágico. Nunca fui atingido por estados depressivos e cedo principiei a tirar prazer de desafios em defesa da dignidade. Tive a oportunidade de conhecer dezenas de países em viagens de trabalho que me propocionaram um conhecimento da aventura da humanidade (...) que me levaram a fazer o meu combate solidário com povos em luta pela liberdade contra a opressão.
     Casei três vezes. Conclui apressadamente ter descoberto o amor quando conheci a minha primeira companheira. Nasceram três filhos dessa relação, que foi harmoniosa. Não fui, por desatento, o pai que mereciam. Mas une-me a eles um afecto profundo. Admiro nos três o carácter de aço e um talento de que me orgulho, mas para o qual nada contribuí. Amei com paixão a minha segunda mulher, a brasileira Zillah Branco, companheira maravilhosa nas batalhas da Revolução Portuguesa. O convívio com ela fez-me compreender que o amor tem muitos andares. Subimos juntos aos pisos superiores..."
Miguel Urbano Rodrigues - Parte IV , pag 200/201

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

"Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" - O declínio fisico

DECLÍNIO FÍSICO
    
     "Em Serpa percebi que uma saúde estável, na ausência de doenças crónicas e dores ósseas, não detém o avanço do envelhecimento. Em mim o processo acelerou-se a partir dos 80.
   Durmo menos e pior, caminho com menos segurança, os movimentos tornam-se mais lentos, sobretudo quando me levanto ou sento, as pernas incham com facilidade, sinto alguma sonolência após as refeições, como muito menos, qualquer esforço físico gera cansaço, o olfacto diminuiu. Mas continuo a ler e a escrever sem necessidade de usar óculos.
     A idade gera a instabillidade permanente na saúde. Em certos dias, quando saio para o passeio matinal percebo que tenho "as baterias carregadas". Caminho quilómetros através dos campos sem sentir a menor fadiga. No Inverno, o frio, nesses dias, entra em mim como carícia; no verão suporto bem calores tórridos.
     Na semana seguinte a respiração pode tornar-se ofegante, as pernas pesam, um mal estar generalizado retém-me em casa. Mas, dias depois, acordo com a sensação de ter rejuvenescido.
    Desisti de interpretar essas rápidas alterações, tão inesperadas como a mudança do tempo de um dia para outro.
     Acompanho com atenção vigilante o enfraquecimento da memória [...].
    Mas, aceitar o rápido enfraquecimento da memória foi menos difícil do que imaginava. Registo os sintomas com alguma surpresa. O processo é contínuo, irreversível, mas diferente do esperado. Mais do que a ausência de resposta imediata (porque ela chega muitas vezes, mas atrasada) a perguntas que formulo ao cérebro, preocupa-me a desarrumação do conhecimento acumulado. Sinto agora insegurança ao localizar datas e cenários, confundo os anos e os lugares onde ocorreu aquilo que pretendo recordar com precisão. Quase sempre, insistindo, acabo por resolver a dúvida, mas a ultrapassagem da falha de memória inquieta-me".

Miguel Urbano Rodrigues in parte  III, pag 195/196

terça-feira, 13 de novembro de 2012

"Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" - Sonhos

Sonhos

     "Muitas pessoas sonham raramente. Não é o meu caso. Desde criança sonhei muito. Quase todas as noites [...]
Não entendia o fenómeno onírico. Dormia, mas pensava e via como se estivesse acordado. Com uma diferença fundamental. Nos sonhos aconteciam coisas inesperadas, muitas impossíveis e eu era sempre personagem do sonho, em situações e aventuras estranhíssimas.
     Alguns sonhos repetiam-se com leves variantes. Dois com frequência. Num deles um touro enorme perseguia-me e eu, apavorado, temia que ele me trespassasse com os cornos. Mas, quando já ouvia o resfolegar do bicho, acordava, e aliviado, pensava:afinal foi um sonho".
Miguel Urbano Rodrigues in parte I, pág.44

"Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" - Rotina

ROTINA

"Eu via na rotina uma sucessão de dias iguais, de hábitos mecanizados, de emoções muito similares. Era o tempo imóvel.
Ele encurta a vida ao repeti-la. Ao fechar caminhos e horizontes mediocriza a existência. A sua aceitação implica renunciar a ser diferente, a desafiar. A rotina, no temor à aventura da vida, retira-lhe significado, transformando-a numa viagem aborrecida para a morte".
Miguel Urbano Rodrigues in Parte I, página 33

"Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" - O céu e o inferno

O CÉU E O INFERNO

     "A ideia do divino foi transmitida mais tarde, quando minha mãe se embrulhou num discurso confuso ao tentar explicar-me o que era isso do Céu  e do Inferno, palavras que eu ouvira de uma empregada que me ameaçara com a queda no segundo, se continuasse a fazer maldades.
     Deus na sua imaterialidade, foi logo esquecido (...).
   O que me assustou foi a personagem do diabo. Imaginava aquela criatura maligna envolvida permanentemente em chamas. Não percebi porque não ardia. Contemplara-o em gravuras, empunhando um tridente de ferro. A ideia do Inferno ficou por isso mais presente que a do céu. Não consegui porém, compreender o que seria o Purgatório como lugar de trânsito". Miguel Urbano Rodrigues, Parte I - página 17

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

"Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" - Deus

DEUS

     "Uma questão que, ao caminhar pelo tempo, me envolve em brumas densas é a fixação de uma data para a "entrada" em mim da palavra Deus [...].
Creio que a presença de Deus no meu mundo coincidiu com o descobrimento do Natal. A árvore com as bolas de vidro faíscantes e as velas acesas - no monte não havia luz eléctrica - deslumbrava-me. O presépio também, com os Reis Magos, aquela criança numa manjedoura e os animais em volta [...].
     O melhor das Festas eram as prendas que o Pai Natal trazia, preciosidades que meus irmãos e eu encontravamos em volta da árvores, na manhã do dia 25. Quis saber quem era o homem generoso que nos oferecia os brinquedos, de onde vinha e como conseguia chegar à Quinta.
      Disseram-me que era um amigo de todas as crianças e viajava num trenó puxado por renas. Percebi que me enganavam porque no Alentejo não havia trenós, nem neve, nem renas, um bicho esquisito que vira num livro [...]."  Miguel Urbano Rodrigues, Parte I - página 16
   

domingo, 11 de novembro de 2012

Sugestão de leitura: "Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento"


“Durante as três décadas posteriores ao 25 de Abril a vida proporcionou-me correr muito pelo mundo. Concluí que a reflexão sobre alguns acontecimentos históricos de que fui testemunha ou participante não destoaria aqui, porque assinalou etapas no meu processo de envelhecimento”. 
(In Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento - Prólogo - página 12)
 
As quatro partes deste livro reflectem acontecimentos vividos em várias fases da vida de Miguel Urbano Rodrigues (mais notas biográficas e bibliográficas aqui). 
O mergulho fundo na memória traz à superficie, mas sem qualquer superficialidade, um conjunto interessante de reflexões sobre a vida, a infância, a religião, o colapso de regimes políticos daqui e dalém... 
No final, destaque para o hino à vida. Apesar das marcas do tempo tudo é possível; até o amor.

A “Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" será destaque ao longo de toda a semana neste espaço simpatizante do Tempo. Com toda a justiça, parece-me merecido. 
Espero portanto, poder contribuir para a leitura integral deste livro (da Ed. Calendário, 2009). 

                                          (à venda aqui e aqui)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"Como se explica o que não tem explicação", segundo Pedro Chagas Freitas

Pedro Chagas Freitas é natural de Guimarães e nasceu a 25 de Setembro de 1979.
Dado o facto de eu ser um pouquinho distraída, não garanto se conhecia este nome. De qualquer forma, se não conhecia passei a conhecer e confesso que não desgostei da expressividade e do estilo da sua escrita.
Da página pessoal do escritor, no facebook, passo a transcrever as informações que se seguem e mais um texto interessante, a propósito de "como se explica o que não tem explicação".
Ora... Nem a propósito! Anda tanta gente à procura de explicações para isto e para aquilo, incluindo eu, quando o óbvio por vezes, se resume à última frase de Pedro C. Freitas: "só o que não tem explicação vale a pena viver".
Voilá! Para quê complicarmos com tantos ?????????
Smiley
Pedro Chagas Freitas é escritor, orador e professor de escrita. Tem 17 obras publicadas, entre ficção, filosofia, crónica, biografia, história e humor. É um fabricante de ideias. Estudou linguística e liderou redacções e equipas criativas. Criou artigos de jornal, guiões, anúncios, slogans e programas de rádio. Foi nomeado para vários prémios literários de nível nacional. Desde 2001 que é coordenador de sessões de escrita criativa um pouco por todo o lado. É o criador da Engética do Discurso, uma área de análise e de trabalho que traz a Engenharia e a Estética para o processo de construção discursiva. Tem vindo a coordenar e a levar ao terreno palestras, seminários e workshops em Portugal e no estrangeiro. (In https://www.facebook.com/pedrochagasfreitas)

"como se explica o que não tem explicação? como se explica o que acontece porque acontece. simplesmente isso: acontece porque acontece. e o que acontece, porque acontece, já está explicado. explicar é uma mania, uma manobra de diversão do Homem. desde sempre que o Homem quis explicar, entender. e ao fim de tanto tempo o que é que conseguiu descobrir, o que é que conseguiu explicar? nada. absolutamente nada. zero vezes zero. nicles. niente. Continuamos, ao fim deste tempo todo de questões e explicações procuradas e voltadas a procurar, sem a ponta de um corno de respostas às perguntas essenciais. continuamos sem saber de onde vimos e para onde vamos; continuamos sem saber o que é e quando acaba esta coisa a que chamamos vida; continuamos sem saber o que fazer com a dor quando ela aparece. continuamos, em suma, sem uma única resposta para todas as questões essenciais. e a procura de respostas às questões essenciais só trouxe um resultado visível: o aumento do número de perguntas essenciais. quanto mais se sabe mais fica por saber. quanto mais se sabe mais espaços se abrem. quantos mais espaços preenches mais espaços ficam por preencher. só o que não tem explicação vale a pena viver."

in "OU É TUDO OU NÃO VALE NADA"

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Escuta...

Quanto mais leio as afirmações proferidas por certos senhores doutorados deste país, mais me apetece mergulhar na poesia!
Uma grande verdade Maria Eugénia. Atrás de cada palavra, atrás de cada frase há (quase) sempre uma "cave" que os olhos e a mente não alcançam facilmente. Oh se há!...
Antoine de Saint-Exupéry escreveu um dia mais ou menos o mesmo, mas por outras palavras. "O essencial é invisível aos olhos"... É, às vezes, ... e creio que será sempre assim por mais que os tempos mudem.
  
Eugénia Cunhal

Escuta
Quando leres um poema
Não te limites a dizer que as palavras
são belas
E delas sais contente, sentindo-te mais rico
e menos só.
Atrás de cada frase há por vezes muito sangue
sofrimento,
Ou alegria, ou amor, ou desespero,
Ou qualquer outro sentimento humano
dos mais fortes.
Quando escrevemos, não inventamos tudo.
Mesmo se em vez de dizermos eu, dizemos outro nome:
João, Pedro, Maria, ou simplesmente tu.

Eugénia Cunhal in «As Mãos e os Gestos» - Editorial Escritor

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"Junto à água", por António Manuel Pina



Junto à água 

 

Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia. 

de Um Sítio Onde Pousar A Cabeça(1991)  

Pousou hoje a cabeça na misteriosa eternidade. 
Pode anoitecer em todas as cidades do mundo, mas haverá sempre uma luz iluminando os versos de António Manuel Pina, jornalista, escritor e poeta que nos deixou neste dia aos 68 anos de idade.