quinta-feira, 2 de março de 2017

Sonegador de sonhos

De sonhos tinha a alma cheia. 
Tão cheia que um dia deixou de dormir com receio de sonhar. 
Adotou estratégias para não enlouquecer totalmente. Quando sentia o peso das pálpebras, defendia-se como podia. 
Passara, por isso, a cronometrar o sono. De meia em meia hora, um alarme tocava e o homem acordava. E adormecia. E acordava. E ia vivendo neste ram-ram tão surreal quanto existencial. 
Os sonhos morriam à nascença sem qualquer hipótese de ver a luz da noite ou do dia. Sem qualquer hipótese de se tornarem sonhos cor-de-rosa, sonhos bons, sonhos quimeras, sonhos "pesadelescos", ou sonhos reais.  
Um dia numa das suas longas horas de vigília, sentado, numa poltrona, chega-lhe esta mensagem.
"Esta noite tive um sonho tão parvo!Imagina que, íamos de viagem num autocarro, nem eu sei para onde! Quando me virei para o lado, não estavas. Tinhas desaparecido e o autocarro nem sequer tinha parado. Passei o resto do sonho à tua procura... Que aflição!
P.S. Amo-te. (E não é um sonho)"

E depois das palavras, a música: Dreams by Fleetwood Mac.
Bons sonhos, sempre! 

1 comentário:

  1. Espero que o sonegador de sonhos deste texto, e de todos os textos, saiba valorizar e retribuir da mesma maneira a destinatária da mensagem. Amar e ser amado faz muito bem à gente.
    Sonhar sem ser de modo doentio também faz bem à saúde.
    Atenciosamente.
    Pêndulo

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