sexta-feira, 31 de março de 2017

O velho portão do cemitério

Continuo a fazer o luto de forma natural e serena.  
Quando eu era criança, avistava da casa dos meus tios e dos meus avós, o cemitério. Pensava, "nunca hei-de entrar ali sozinha". Admirava, no entanto, a coragem e a sapiência da tia Hermínia que nada temia e dizia sempre, "não devemos ter medo dos mortos mas sim dos vivos". 
Levei 43 anos a perceber que ela, uma vez mais, estava certa. 
Ontem, ao fim da tarde desafiei-me a mim própria. 
Precisava de lá voltar. Precisava de colocar uma daquelas flores artificiais... Precisava de fazer uma visita como antes, quando... Precisava de imaginar aquele colo e as mãos sobre os gatinhos...
E aquele amontoado de terra, onde já se misturam ossadas com restos de madeira e pedras, provocou-me uma tristeza a dobrar. 
Pensei porém, nas duas pessoas que me deram a vida e como, finalmente, devem estar felizes por voltaram a estar juntas. O amor os juntou, até na morte. Literalmente.
O velho portão de ferro do cemitério voltou a ranger. Fechado, sempre, como convém, que o sítio é de muito vento. 
E naquele espaço repleto de silêncios estranhos, sepultam-se cadáveres que nos alimentam memórias e saudades para sempre. E já não temos medo, mas choramos na mesma.  

2 comentários:

  1. Se calhar, bem mais difíceis de ultrapassar do que esse medo, são a memória e a saudade que hão-de continuar a amarrotar-nos os dias. Até pode ser que não se mantenham durante 43 anos, mas criam um vazio que dificilmente será preenchido!...

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  2. Pensamos sempre que vamos ter todo o tempo para viver. Mas um dia descobrimos com amargura que vão partindo os que mais amamos e que só nos resta o tempo de ter saudades.

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