quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Bibelot

Sou agora simples peça decorativa. Antes, não era.
Antigamente todos me viam e escutavam atentamente. Era novo, bonito, e de mim exalada um agradável cheiro perfumado a madeira exótica. Estava para ali, encaixado, mas imponente, no recanto daquele corredor escuro.
Antes eu era útil. Agora, não sou.
Dantes, tinha o privilégio de dar horas.  Hoje, sou bibelot.
Sou uma peça "bibelotizada" em vias de apodrecimento, que serve de alimento ao caruncho! Esquecida e fechada numa velha casa de aldeia.
Quem diria...
E a menina do cabelo aos caracóis que não me sai da memória. Os seus olhos abriam simultaneamente, de espanto e de medo, todas as vezes que passava por mim.
Provavelmente o único ser humano que considerou relevante quatro décadas depois, recordar o pedaço de relógio que fui.
É isto a vida de um objeto. É assim a vida. Tudo tem o seu Tempo.

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