sexta-feira, 27 de novembro de 2015

É preciso uma flor

     Não se pede muito. Apenas uma flor. Azul. Amarela. Vermelha. De todas ou de qualquer cor do arco-íris, com todos os reflexos da esperança e da alegria.
     É preciso uma flor. É tão urgente como o amor. Como a paz. Como a amizade certa entre as pessoas.
     É preciso uma flor!
     Que cresça no rosto das crianças, nas mãos dos adolescentes, no sorriso dos velhos, mas é preciso.
     É preciso uma flor!
     Azul. Amarela. Tanto faz. Uma flor pequenina.
     A nossa lado, há dezenas de mãos ignoradas onde a flor poderá florir.
     Semeemos a flor.
     É urgente.
    Que se ponham anúncios nos jornais diários, que a rádio transmita a notícia, que as crianças repitam o slogan, que os anúncios luminosos repitam o grito.
     É PRECISO UMA FLOR!
     Que a flor invada a cidade, as casas, a rua, a oficina, o hospital, a escola... 
     É PRECISO UMA FLOR!
     Garante-se.
     Testemunha-se.
     Confirma-se.
     O dia será diferente para todos, quando a flor acontecer. 

                                                                Maria Rosa Colaço, Crónicas

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Pontuas-me

Era um texto fora do contexto, frases aceitáveis e frases inaceitáveis no meio de tantas variáveis.
Variava o tempo do verbo. Ora no Pretérito Perfeito, ora no Pretérito Imperfeito. Era, porém, "Mais-que-Imperfeito", o tal amor que nunca existira. 
Do modo, até se esquecia. Pensava vezes sem fim, "antes indicativo ao incerto conjuntivo!".
Parava nas vírgulas para pausar, pois era demasiada a dor para continuar.
Finalizou, um dia, com um reticente ponto de interrogação, sem esperar a confirmação se estaria, refeito ou não, o seu desfeito coração.

E eu, contador do Tempo que sou, termino por aqui sem mais pontos vírgulas ou qualquer outra pontuação


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Vidas

Navegava de página em página. Perdido, como se não tivesse vida ou outros interesses reais ou mais importantes. 
Lá fora, a vida decorria.
Na rua, um congénere. Deambulava de rua em rua. Tal qual o homem que vivia, confortavelmente, dentro do seu apartamento, navegando de página em página.
Um dia, alguém resolveu dar alguma utilidade à sujidade que cobria o carro, escrevendo no para-brisas, "é tão triste a solidão! Mata-a, antes que ela te mate a ti". Mas o homem da rua não queria saber. 
Vivia conformado e confinado à miséria que era o seu presente, simbolizado no espaço exíguo de um carro onde, aliás, ele escolhera sobreviver. 
Ainda assim, não sentia qualquer perturbação ou vergonha nesse modo de sobrevivência.
Os transeuntes, sim. Sentiam-se imensamente perturbados.
Conheceram-no antes, quando pessoa elegante, sociável, bem vestida e de bem com a vida. Contudo, egoisticamente, receando uma intromissão na vida alheia e pessoal, os outros nada diziam, nada perguntavam, nada faziam.
Tanto o homem da rua como o homem do apartamento, tiveram as suas histórias de vida.
Vidas bem sucedidas, vidas recheadas de amigos - tantos e afinal tão poucos! -. Tiveram tudo, ou, quase tudo: trabalho, felicidade, dinheiro, casa, mulher, filhos,...
Era Dezembro. A tarde estava gélida.
O homem que navegava de página em página, também ele meio perdido, só, e que agia como se a vida se resumisse a uma conexão, visualização e partilha de eventos, notícias, fotos e comentários, largou o computador e saiu à rua. 
Encontraram-se. 
Como acontece em tantas histórias de vida, passaram a viver juntos. Presumo que viveram felizes para o resto das suas vidas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

13 de Novembro

Datas são datas e valem pelos acontecimentos, relevantes ou irrelevantes, de quem os viveu.
Foi pura coincidência do calendário, esta conjugação da sexta-feira com o dia 13. Não existe qualquer relação com superstições. Antes pelo contrário. Quando o azar vira sorte, só nos podemos sentir satisfeitos.
Mas voltemos às datas.
Lembrar uma data relevante, que até coloca um ponto final, aproximadamente, a 5475 dias de um triste fado, é apaziguador para a alma, apesar de tudo.
"Bem, isto é embaraçoso", como diria o Mozilla. Na verdade é um pouco.
Seria embaraçoso expor, aqui - ou noutro lugar - a cronologia  de vida de mais uma mulher entre milhares que, à semelhança das avaliações pelas agências de "rating", era simplesmente considerada "lixo".
Dos trezentos e sessenta e cinco dias que passaram desde o dia 13/11/ 2014, entre "mortos e feridos", essa mesma mulher sobreviveu; melhor, vai reaprendendo a (sobre)viver, um dia atrás do outro. 
Do somatório de perdas e ganhos em qualquer relação ou situação da vida, uma verdade indiscutível se impõe: não há nada que pague a paz interior e a tranquilidade.
Bom fim-de-semana.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A mulher mais bonita do mundo

Longe de mim alcançar tamanha beleza. Declare-se, porém, feliz, toda e qualquer mulher que é considerada desta forma tão poética, a mais bonita do mundo...
Bom fim-de-semana.


A mulher mais bonita do mundo, José Luís Peixoto

Estás tão bonita hoje. Quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
Entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.
Entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
Há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
Estás tão bonita hoje.
Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
Estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
Os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
De encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A descoberta do fogo

Quando o Homem descobriu o fogo, e a sensação agradável que lhe proporcionava, esse mesmo homem, tosco, rude e feio, estava longe de imaginar aquilo em que a humanidade se iria transformar daí a milhares de milhões de anos.
Graças ao calor das chamas, depressa descobriram outras utilidades para o fogo (estaria já lançada, nesse período remoto da civilização, a semente do empreendedorismo?!).
Na verdade, meus caros, salvo raras exceções e costumes alimentares, todos preferimos um bom grelhado a uma peça de comida qualquer, crua. Também constitui uma verdade inquestionável que, homens e mulheres das cavernas, passaram a fazer certos e determinados atos, à luz e ao calor da fogueira, e isto, quer se goste ou não da ideia, também passou a ser igualmente agradável. Smiley
Nesse Tempo não necessitavam de licença para foguear, nem se consta que os respetivos parceiros se queixassem do odor a defumação de "roupas" e pele. Tudo era mais do que aceitável e tão ingenuamente simples.
Mas com a evolução dos tempos, outra chama se impôs.
A chama viva - mas nem sempre mais quente - dos interesses, despertados pelos vis metais e outras coisas mais, levou a mudanças incomensuráveis. Nunca mais a humanidade foi ou será a mesma. 
Da revolução industrial, da descoberta da máquina a vapor, a tudo o que mais se possam lembrar, com  benefícios e prejuízos para o Homem, vive-se um pouco melhor. 
Viveremos nós mais tranquilos e felizes, apesar de tudo?