segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

"Dar corda à memória" - parte II

                             (Hermínia - Busto e desenho mural da autoria de José Feitor)
A história de vida da heroína da mensagem anterior dava um livro. Não tenho dúvidas. 
Juntando testemunhos daqui e dali, teríamos certamente   muitas histórias para contar, tal como a história do autor das obras que ilustram esta mensagem.
José Joaquim Feitor era natural de Antanhol (Coimbra) e teria fugido de uma casa de correcção da cidade, corria a década de 40 do século passado.
Foi o acaso que fez um rapazola, franzino, rebelde mas habilidoso, perder-se por este lugar.
O Zé ("Bazaruco") - assim passou a ser conhecido - ficou na aldeia, ao cuidado da Ti Hermínia, e de uma tia desta.
Tanto a afabilidade como o sustento tinham um preço. Em troca, o Bazaruco tinha que ajudar nos trabalhos do campo, e era com gosto que o fazia!
Atingida a maioridade, rumaria a Lisboa atrás do seu sonho: ser um artista. 
Na capital, casou, teve uma filha, enviúvou cedo, fez-se artista, auto-didacta com atelier montado junto ao Palácio dos Coruchéus. Porém, nunca se desligou das pesssoas que deste lado o acolheram e ajudaram.
Um dia, cerca de 40 anos depois, regressou à sua terra adoptiva. Matou saudades junto dos principais amigos de infância, das raparigas bonitas que conheceu, agora avós, perguntou pelos que já não "estavam"... E emocionado, prometeu voltar.

Mas por mais que gostasse das pessoas e da aldeia, a sua vida pertencia a Lisboa.
Soube mais tarde que morrera em condições para lá de miseráveis, muito doente, sem família e sem amigos...

A provar que a Sra Hermínia era  pessoa de trato fácil e de coração aberto às mais variadas crenças políticas ou religiosas, registo um testemunho recebido via email.
Julgo, no entanto, pertinente contextualizar uma outra história de vida: a do autor do referido testemunho.
A geração à qual pertence, sabe que a Liberdade é um bem sem preço... Com o devido conhecimento e autorização de Jorge Amado, meu conterrâneo, passo a transcrever as suas palavras:
"Aos 21 anos dei o "salto" para França, em abril de 65, três semanas antes de dar entrada no CSM (curso de sargentos milicianos) das Caldas da Rainha, por discordância das nossas guerras coloniais, tendo regressado em julho de 74.
Em 72, liguei-me ao PCP (...)
Sou agnóstico (penso eu), mas muitos dos valores da Igreja são também meus (se me permitem...)"
Porventura, o Jorge seria uma alma vermelha que Deus não estava disposto a "desperdiçar"... (Parece que ele - Deus - lá tem as suas razões!!!). E, se era uma alma para "converter", essa missão estava entregue à minha tia, que pelos vistos nunca conseguiu conversão nenhuma.

"...da tia Hermínia, de quem a minha mãe e eu gostávamos muito (e depois, dadas as idiossincrasias político-religiosas do meu lado paterno, a tia Hermínia sempre a tentar trazer-me, ou manter-me, para o lado "certo". A Ti Hermínia era de facto muito especial. Mesmo em termos de abrangência religiosa (se bem que eu não seja especialista na matéria), ela ia bem além do vulgo de então e de agora."
                                             (Jorge Amado - 67 anos)
(Obrigada, Jorge)

4 comentários:

  1. Paulo Francisco, tranquilize-se; não teremos mais!
    É evidente que, aquilo que eu escrevi nestas duas "postagens" só poderá interessar a um número muito restrito de pessoas.
    Infelizmente (é também uma auto-crítica), é comum lembrarmo-nos da importância das pessoas depois... quando elas já não estão cá para lerem o que se diz (escreve) sobre elas. Neste caso, há muito que queria escrever isto.
    Felizmente, já existem registos neste blogue de algumas homenagens a pessoas vivas, o que me deixa satisfeita e com o sentimento de dever cumprido.

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  2. Mesmo póstuma é um encanto.

    Um abraço,
    mário

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  3. Bom dia
    Sendo eu sobrinho do José Joaquim Feitor, gostaria de contactar com alguém que tenha vivido perto dele.

    Meu contacto: 965786370 Jorge Feitor

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