segunda-feira, 11 de julho de 2011

O ilustre ponteiro-mor do "relogio.de.corda" escreveu "Um som de falsete"


Não é fácil começar esta mensagem. Primeiro, porque não sei como começar. 
Segundo, porque se escrever, desta ou daquela maneira, corro o risco de ser criticada pela minha falta de modéstia. 
Terceiro, porque o texto (um conto), que irei transcrever é da autoria do meu ilustre ponteiro-mor - a minha filha.
Segundo a autora, esta história tinha outro destino. Valeu-lhe a professora de Português que o leu e a incentivou a participar num concurso literário.
E foi assim, que eu soube da existência deste "Um som de falsete", um dia antes da moçoila ter recebido o prémio referente ao honroso 2º lugar, corria o mês de Junho deste ano.
Apesar de eu lhe (re)conhecer esta veia desde pequena, fico sempre espantada com a  profundidade da sua escrita. Se eu não soubesse, teria alguma dificuldade em dizer que este texto foi redigido por alguém, na altura, apenas com 17 anos.
Publicamente, fica o meu apelo (pode ser que assim, a rapariga ganhe juízo): não deites para o lixo aquilo que escreves! Eu gosto e mais pessoas gostam do que escreves. Vamos lá menina, "para a frente é que é Lisboa"! 
Este, a muito custo, já cá canta. E o lixo bem pode esperar...
                                                 
                Um som de falsete 
                                                      Por Telma F.C. - Abril 2011

Eis que chegam as onze da noite, aqui, na Praça Mouzinho de Albuquerque, Batalha. Pelo escuro taciturno ecoam as minhas passadas aceleradas acompanhadas pela expiração arquejante que se dissipa por mais uma destas noites gélidas de Dezembro. Apresso-me a chegar até ao clube da Freiria para mais umas horas de entretenimento a velhos emproados mergulhados em xerez, solteironas fatais doutoradas no cruza/descruza de pernas e estudantes pseudo-intelectuais que completam o quadro de veludo bordeaux, onde o fumo plácido se desvanece por entre a sala minúscula, cobrindo os rostos dos que ali procuram uma lacuna no tempo, por entre trechos de Adderley, Coleman, e até Coltrane, dependendo ao que meus dedos ossudos e crestados do frio estiverem afim.
Ainda tenho tempo para um cigarro ou dois antes de entrar. Pouso o estojo no chão e sento-me no degrau da fachada do pequeno prédio ao lado, enquanto fixo os escassos transeuntes.
 Lembro-me vagamente dos primeiros tempos em que me mudei para esta zona da vila, próxima do rio Lena, deixando para trás Vila Real em meados de 1994, uma semana depois de ter completado sete anos, com a minha mãe, Julieta Paços, de nome, e os meus dois irmãos mais novos Ágata e Anderson. A minha mãe, emocionalmente instável, raras as vezes eram em que não se desfazia em lágrimas sempre que a minha irmã adoecia ou o meu irmão aparentava uma figura excessivamente magra e débil, para sempre afectado pelo suicídio do nosso pai, Dário, dono de uma pequena loja de vídeo e discos no coração de Chaves, onde o silêncio desadequado reinava todo o santo dia. Essa pobre viúva, para sempre condenada à vida doméstica e a cuidar de três pobres almas debilitadas, ingénua e tragicamente nórdica, proveniente da sua geração de bisavós pescadores, não mais que lamentava os desacatos que eu lhe arranjava com os vizinhos próximos, ou as vezes em que me cortava de forma acidentalmente propositada e pasmava para o sangue que me corria pelas mãos de forma viva e que eu considerava macabramente belo nos meus breves treze anos.
Era, apesar de amargurado, um bom homem, o meu pai. Desde cedo que procurou incutir-me o gosto pela existência, à sua maneira fatídica. Ironicamente, nunca soube cultivar o dele. Longas eram as tardes em que me levava a observar pássaros na zona da Pia da Ovelha e me obrigava a ouvir o seu constante monólogo entre dentes acerca das vicissitudes da vida pelo “maestro” que lhe surgia tantas vezes alto no pensamento e na boca, fosse dia ou madrugada:
- É obra do diabo, esta sinfonia intermitente que se extingue ou se extravasa à medida que o maestro se enfada ou entretém com o vórtice de notas musicais que controla. É por isso que gosto de escutar os pássaros, porque eles não se cingem às pausas, aos tempos de outrém, e cada melodia é única e genuína, sem artifícios pretensiosos.
-E como fazê-lo parar? – perguntava eu.
- Não te rendas a toda a forma música enfatuada, ao ritmo descontrolado e falsamente gracioso que te torna imprevisível, é como veneno para ti. – dizia ele, enquanto os seus olhos fitavam o vazio. E não voltámos a falar do mesmo. Nunca mais, a partir desse dia.
Eventualmente, aos dezoito, acabaria por consolidar a minha paixão pelo Jazz (que já se iniciara ainda jovem tenro, alheio ao pessimismo do meu pai que via qualquer tipo de manifestação sonora não natural como um ruído infernal) quando me deixei arrebatar pelo seu lado livre e algo insano, que ia ao encontro da minha pessoa. Sempre achei fascinante a multiplicidade de sons, aparentemente, aleatórios e vertiginosamente evocados pelas mãos e pelo sopro, num estado de quase fragmentação, apresentando uma melodia ampla, uma estrutura ilimitada e aberta a quaisquer interpretações ou conotações, e nada mais que predisposta aos ouvidos dos que procuram absorver a demência patente naquele conjunto de notas musicais, cuja própria aleatoriedade tem a capacidade de dar origem a uma melodia incrivelmente bela e cativante.
Nessa altura, comecei umas lições com o velho Guilhermino da Boutaca que morava mesmo aqui à porta, que me transferiu todo o seu legado de bom saxofonista de rua ao longo de décadas, e me despertou para a imensa sedução mútua entre o saxofone e o músico, desde o toque ao soro, da suavidade comedida ao improviso desmesurado. Actualmente, aos vinte e quatro anos, ainda tenho presente na memória esse bom velho que acabou por morrer sozinho de pneumonia, já nos seus oitenta e nove anos de idade, que a doença consumiu num ápice. Passei muitos verões quentes no terraço dele, onde dissecávamos a discografia de Davis e onde ouvia acerca das lendas do concelho, como a da Abóbada, a minha favorita. “A abóbada não caiu, a abóbada não cairá!", foram as últimas palavras do mestre Afonso Domingues, após três dias de vigília junta à mesma, que acabariam por lhe valer a morte. Tenho grande admiração pela persistência deste homem, ainda cego e cansado, a fé na sua obra nunca esmoreceu. E eu próprio tomei atitude semelhante, aos cinco anos, quando decidi não arredar pé durante dois dias da espécie de forte que construí durante semanas a fio nas traseiras da minha casa, com a ajuda dos meus irmãos, de forma a garantir que este se mantinha inteiro. De certeza que o mestre iria entender esta minha estima e o meu cuidado. Afinal, só um verdadeiro criador conseguiria perceber a loucura de outro.
Foi também com o velho Guilhermino que explorei pela primeira vez a magnitude do tão aclamado Mosteiro de Sta. Maria da Vitória, nos meus primeiros tempos aqui na vila, fazendo-me divagar acerca da sua história e dos primórdios da sua edificação, num misto, tanto de fascínio, como de mistério. Aprazia-me muito ouvi-lo falar do monumento, bem como o seu parecer acerca do gótico tardio, ninguém conhecia o estilo e a sua beleza com tanto afinco quanto ele. Quase se conseguia tocar o seu fervor enquanto me falava das suas experiências em torno do mesmo, há muitas décadas atrás. Desde os namoricos, aos fins de tarde a rabiscar os detalhes arquitectónicos num pedaço de papel ou às histórias de carácter assombroso de espíritos e almas perdidas por entre o claustro do Mosteiro, contadas entre amigos, mais para divertir que para amedrontar.
Entretanto, dei já por terminado o meu terceiro cigarro, preparando-me para o quarto.
 – Simão, larga isso homem e vem para dentro, actuas daqui a 15 minutos! – vem avisar-me o presunçoso gerente do espaço, a quem a sorte com as mulheres nunca sorriu, apesar da sua fama granjeada entre as mesmas, pelo facto de prender os seus homens dia e noite dentro do clube, levando-as a aparecer, furiosas, arrastando-os para o lar.
 Dirigi-me então para dentro, rente à porta já demasiado baixa para a minha estatura franzina e alta, com o pesar desta infância recalcada e uma certa ânsia tremenda a devorar-me por dentro, deixando-me trémulo e amarelado. E com o pianista da casa, passaram-se duas horas aqui no clube, onde todas as noites se fixam os olhares cintilantes habituais das almas boémias das duas da madrugada, e as figuras se movem delicadamente ao som harmonioso e ritmado do saxofone, que hoje, aos meus ouvidos, pareceu escapar de forma pavorosa e árida por entre os dedos. Não foi das melhores noites para mim, embora ninguém tivesse dado conta. São os artifícios musicais, inaudíveis e alheios à compreensão de muita gente, já dizia o meu pai.
Dei por mim fortemente agitado e desinquieto à saída do clube, sentindo fortes palpitações por dentro e um zumbido ensurdecedor que me perfurava as entranhas e me deixava aturdido. Uma dormência fatal decidia tomar conta de mim, fazendo-me render ao chão do beco ignóbil e escuro.
Nada seria capaz de me deixar mais em fúria, enquanto músico, que a insegurança de um gesto, que umas mãos inexpressivas, subjugadas e enganosas, que para nada servem a não ser pender num corpo igualmente putrefacto e deteriorado pela alienação oculta que vai destruindo do interior para a periferia. Percebi que as minhas mãos eram afinal a corporalização da minha loucura, a fonte do veneno que continuamente consumia e  corrompia os outros que me escutavam noite após noite. Já para nada me serviam a não ser dar expressão a uma melodia, a um ritmo blasfémico que perturbava o silêncio sepulcral que ansiava por se instaurar cá dentro. Ironicamente, é pelas minhas próprias mãos que dei por terminada a minha existência, aqui mesmo na Rua da Freiria, como um cobarde. Parece que dificilmente se foge ao velho ditado, “tal pai, tal filho”.
                       FIM

                               
                                               

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O famoso contentor do lixo da Moody's está afinal, ao pé da minha casa!

Não acreditam?! Ora vejam. Fotografei-o há pouco, já a noite caía sobre a minha Parvolândia.
Um fenómemo sem igual...
Acho que vou recambiar este contentor do lixo para os States ou para Bruxelas. O que acham?!
Bom fim-de-semana.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sugestão de Leitura - "UM AMOR SEM TEMPO" de Carlos Machado

Engenheiro electrotécnico e detentor de uma fabulosa capacidade de escrita, Carlos Machado é o autor da sugestão de leitura para hoje. UM AMOR SEM TEMPO, é o seu segundo romance (Editorial Presença).
Nascido em Venda Nova (Montalegre) em 1954, Carlos Machado é ainda autor de O HOMEM QUE VIVEU DUAS VEZES, o seu primeiro livro, agraciado com o Prémio Alves Redol atribuído pela Câmara de Vila Franca de Xira. 

"Um revolucionário  não conformista que está do lado da Revolução de Abril...", escreve numa das páginas deste AMOR SEM TEMPO.
Na realidade, este é um romance repleto de referências históricas do período pré/ pós revolucionário e de duelos verbais, onde não faltam as acessas discussões políticas:
   "Assanhou-se a discussão entre mim e o padre.
   - Não sei o que tem contra a liberdade. Hoje até tem liberdade para dizer os disparates que está a dizer.
   - Eu sempre fui livre. Sempre fiz e disse o que me apeteceu e nunca fui incomodado.
   Insurgi-me contra a ideia que o padre tinha da liberdade:
   - Pudera! Os seus ámens não eram só para Deus. Eram também para o Salazar. Os da oposição é que foram bater com os costados no Tarrafal e em Caxias.
   - Quem com ferros mata, com ferros morre - retorquiu o padre engolindo de uma vez a taça de rosé. - Bota outra Amílcar.
   - Mas com ferros mata o quê? Alguém da oposição alguma vez matou um que fosse do antigo regime?
    - Porque não calhou. Esse herói de merda, que agora é entrevistado como grande herói, bem pôs uma bomba no carro do Salazar para o matar. E o Salazar ficava quietinho, não? À espera que lhe acertassem. Não havia de se defender?
Alteraram-se as vozes, a do padre e a minha, altercámos em crescendo de som e de invectiva..." 
(...)
    - Por culpa do Salazar e do Marcelo, esses é que nos deixaram de rastos - verberei
Voltei à disputa, que o padre já atacava de novo:
    - Ah pois deixaram, deixaram (...) Todo o ouro que estava no Banco de Portugal ainda pesava uns quilos valentes, e que, segundo dizem, já marchou todo. Como agora querem entregar as colónias ao pretos.
    - Aquilo não era nosso, é deles. Quando lá chegámos. já eles lá estavam.
    - Qual deles, qual nada? Aquilo era terra que estava ali a monte. Andavam nus e comiam com as mãos. Se não fossemos nós, eles não eram nada. Devem-nos a civilização. 
    - A civilização? Levámos-lhes a cruz e os santinhos, para depois os nossos soldados irem lá morrer."  (pág.122/123/124)


A família "Sarmento" é a mais abastada e influente da aldeia. O poder patriarcal é exercido por Severino Sarmento, homem rude e muito poderoso. Amigo de Sua Exª Cardeal Cerejeira, é igualmente, um ferveroso admirador do regime salazarista. Porém, vê-se constantemente confrontado com a oposição ideológica do personagem principal - Eduardo - um jovem engenheiro com "costela de esquerda".

Uma rivalidade entre famílias, uma história de vingança ou um ajuste de contas que se prolonga pelo Tempo poderá ser um dos grandes temas deste romance, que começa e termina com o episódico tiroteio sobre um bando de pombos-correio pertencentes a Severino Sarmento.

O Amor, neste livro reaparece com o regresso de Eduardo aos lugares e às recordações da sua infância, da sua adolescência. Já formado, volta à aldeia para vender a propriedade da família e reencontra Mariana, filha de Severino, com quem saboreou no passado, uma ingénua paixão de crianças.
No entanto, a Mariana que vai encontrar é uma mulher "amargurada, destroçada de corpo e alma." Aquela que todos conhecem como a aleijadinha, a manca, a paralítica porque um dia...
"debruçara-se Mariana para apanhar as peras mais maduras na ponta do galho e, numa confiança de vinte anos, não desconfiou do ramo. Um estalido seco, um desequilíbrio, um abandono sem amparo no espaço, um ai que não teve tempo de terminar antes de se estatelar no chão. Fracturas várias, traumatismo craniano, operação à cabeça. De tudo se curara, à excepção da perna esquerda que ficara mais curta do que a direita e presa de movimentos incapaz de suportar devidamente aquele corpo frágil e delicado."  (pág.90)

O amor de Eduardo que nunca foi assumido, as incertezas e as contradições, tudo haveria de sobreviver ao tempo:
"Aceitas-me?, perguntaria simplesmente
E era tão grande a convicção de que naquele momento ela me tomaria de volta do modo repetido e igual de outras vezes, que temia perguntar-lho. Mergulhei numa sensação velha conhecida, estranha e indizível: a cada instante que abandonava Mariana tinha vontade de não a ver, a cada vez que a via tinha vontade de não mais a abandonar. E se a imensidão do desejo de não a deixar era tanta o que me impedira, então, de voltar atrás?A perna estropiada? Talvez. Ou a minha inquietação, feita de um medo irracional perante o desconhecido? De certeza." (pág.108/109)

                                    ( à venda aqui)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sonhar não custa...custa é concretizar.

 "Les vacances au bord de la mer" - Michel Jonasz)
 
O homem sempre procurou na natureza, a inspiração para se evidenciar perante os outros animais.
Inventou o avião ao ver o pássaro voando pelos céus; inventou a autocaravana quando percebeu que o caracol, mesmo vagaroso e paciente, beneficiava imenso com o transporte da casa às costas.
Precisamente por causa do amigo caracol, lembrei-me há dias das autocaravanas e das pessoas que têm todo o Tempo do mundo para viajar com a dita casa às costas. "Deve ser giro!"- pensei eu.
Nada então, como imaginar uma volta de autocaravana para desempoeirar as ideias.
Um dia, eu, ou qualquer um vós, já desejou dar uma voltinha ao mundo numa coisa destas. Pronto, não exageremos!! Uma voltinha ao mundo, talvez não. Um quarto de volta, já não era mau. Termos o Tempo por nossa conta e risco e uma boa conta (€) para dar sustento ao vício do passeio, seria cá uma aventura!...
Mas, enquanto isso não acontece, deixo-vos com algumas alternativas.
Afinal, nós, os pobres, podemos sempre escolher o modelo conduzido pelo asno burrico!... :))
(A propósito de lazer, fica  esta sugestão relativa às melhores praias fluviais nacionais)





                                                       (imagens Google)

domingo, 3 de julho de 2011

Quero o meu país assim...

Quero o meu país assim... colorido, com cheiro a jasmin. Árvores aos montes, pequenas, grandes, verdes de todos os tons. Flores vermelhas, amarelas, ... não importa a cor porque todas são belas.
No céu, quero o sol a espreitar e a nuvem a dissipar, esperança a brotar e alegria no ar.
Era assim que eu gostava que fosse o meu país.