sexta-feira, 25 de junho de 2010

Vistas da minha janela


 Do alto da Serra, a 30 km do local onde me encontro, no Verão e em dias límpidos, as pessoas garantem que conseguem ver o mar da Nazaré a espelhar, lá, bem ao fundo.
O meu avô também me dizia isso...
 
Alberto Caeiro
 
Não Basta
 

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.

Não é bastante não ser cego

Para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.

Há só cada um de nós, como uma cave.

Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;

E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,

Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
 

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sugestão de leitura - Apologia de Sócrates, Críton, Fédon

Platão - Diálogos
 
Agarrada ao PC durante a tarde, porque o dever profissional assim o exige, confesso que às páginas tantas, já não redigia nada com jeito e o melhor mesmo, foi fazer uma pausa. Não fui comer, não fui beber, não fui fumar o cigarro... nada disso! Tirei simplesmente os olhos do papel e do monitor. Olhei para um canto onde há uns meses,  jaz uma pilha de livros amarelecidos, à espera de tempo e de espaço para ficarem arrumados com alguma dignidade numa estante qualquer.
Este, estava à mão de semear ...
Sempre gostei de registar as datas de aquisição dos meus livros, não sei porquê.
Mal eu sabia que um dia viria parar à net com este pseudónimo,"relogio.de.corda", escrever umas coisas sobre esta "relíquia" da Europa América e confesso também, que estava bem longe de imaginar, em 1985, este país governado por um "engenheiro" (não sei se devo escrever com ou sem " ") de apelido Sócrates.
Foi há 25 anos... O tempo passa tão depressa!
Bem... esqueci-me da papelada e acabei por me sentar noutro lugar.
Começo a folhear a parte do livro em que Sócrates, o filósofo, mantém um diálogo com Críton:

SÓCRATES
Vou dizer-te. É que eu devo morrer no dia a seguir àquele em que o navio chegar.

CRÍTON
De facto é o que dizem aqueles de quem isso depende.

SÓCRATES
Por isso mesmo, penso que o navio não chegará no dia que está para começar, mas amanhã. Faço esta conjectura por um sonho que acabei de ter precisamente esta noite e talvez tenhas feito bem em não me acordar.

CRÍTON
Que sonho foi então?

SÓCRATES
Tive a impressão de vir ao meu encontro uma mulher bela e majestosa, vestida de branco, que chamava por mim e me dizia:«Sócrates, chegarás dentro de três dias à fértil Ftia.»

SÓCRATES
Ao contrário, Críton, se não estou enganado, é perfeitamente claro.

CRÍTON
Demasiado claro, penso. Mas, pela última vez, ó maravilhoso Sócrates, escuta-me e salva a tua vida. É que, para mim, a tua morte arrastará mais uma desgraça: além de eu ficar privado dum amigo como, com toda a certeza, não voltarei a encontrar; muitas pessoas que nos conhecem mal, a ti e a mim, irão supor que eu teria podido salvar-te se tivesse consentido em pagar para o conseguir, mas que não me preocupei com isso. Ora poderá existir fama mais ignominiosa do que passar por ser mais agarrado ao dinheiro do que aos amigos? A maior parte das pessoas não vão acreditar que foste tu que recusaste sair daqui, a despeito das nossas insistências. (pág. 49 e 50)

"Este" Sócrates merece a minha admiração, sem dúvida.
Quanto às outras partes ... façam o favor de ler o resto do livro que eu vou voltar ao meu trabalho.
                                                                 (vende-se aqui)

domingo, 6 de junho de 2010

"Perder o olhar" por J.L. Pio Abreu

De volta ao livro "estranho quotidiano", uma das sugestões de leitura mencionadas neste espaço há algum tempo e, cuja inesgotável riqueza de conteúdo me obriga, de vez em quando, a voltar à sua leitura.
O texto que passo a transcrever, mostra-nos a visão do psiquiatra Pio Abreu sobre a era tecnológica em que vivemos. Usada com moderação e conscientemente, traz vantagens. O contrário... Julgo que dá um resultado muito semelhante, ao que ele próprio descreve.
Ocorreu-me mencionar este texto também, a propósito de uma música que anda por aí, nos ouvidos de miúdos e graúdos e cuja letra tem muito que se lhe diga: "Um contra o outro", do grupo de fado alternativo; os "DEOLINDA".
Fica aqui a minha dúvida ... será a letra desta música, um "puxão de orelhas" para todos os viciados nos jogos, em especial, os jogos online? Se não é, parece...


Um contra o outro

Deolinda

Anda, desliga o cabo,
que liga a vida, a esse jogo,
joga comigo, um jogo novo,
com duas vidas, um contra o outro.

Já não basta,
esta luta contra o tempo,
este tempo que perdemos,
a tentar vencer alguém.

Ao fim ao cabo,
o que é dado como um ganho,
vai-se a ver desperdiçamos,
sem nada dar a ninguém.

Anda, faz uma pausa,
encosta o carro,
sai da corrida,
larga essa guerra,
que a tua meta,
está deste lado,
da tua vida.

Muda de nível,
sai do estado invisível,
põe o modo compatível,
com a minha condição,
que a tua vida,
é real e repetida,
dá-te mais que o impossível,
se me deres a tua mão.

Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens,
por mais vidas que tu ganhes,
é a tua que,
mais perde se não vens.

Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens,
por mais vidas que tu ganhes,
é a tua que,
mais perde se não vens.

Anda, mostra o que vales,
tu nesse jogo,
vales tão pouco,
troca de vício,
por outro novo,
que o desafio,
é corpo a corpo.

Escolhe a arma,
a estratégia que não falhe,
o lado forte da batalha,
põe no máximo o poder.

Dou-te a vantagem, tu com tudo, eu sem nada,
que mesmo assim, desarmada, vou-te ensinar a perder.

Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens,
por mais vidas que tu ganhes,
é a tua que,
mais perde se não vens.

Sai de casa e vem comigo para a rua,
vem, q'essa vida que tens,
por mais vidas que tu ganhes,
é a tua que,
mais perde se não vens.

Deixo-vos, então, este texto para reflexão se vos apetecer e, se tiverem tempo, é claro.

     "Os consumíveis electrónicos estão a mudar a natureza humana. Aparentemente, a mudança vai no sentido de velhas aspirações:maior autonomia, maior liberdade, mais individualismo. Com um aparelho em miniatura no bolso, uma pessoa pode ter tudo o que antes encontrava na sua casa ou comunidade:telefone, rádio, televisão, filmes e outros espectáculos, gravador, câmara de fotografar e filmar, máquina de escrever e calcular, livros, informação instantânea, agenda, mapas, jogos e o mais que nem a imaginação alcança. Pela primeira vez, a realidade foi além da ficção.
     Tudo isso, porém, é ilusório. Existem milhares de pessoas que perderam completamente - ou perderam, pelo menos, uns bons anos da sua vida - a explorar uma só destas capacidades electrónicas, e poucas ganharam com isso. Em geral, perdem a capacidade de estar com os outros e fogem deles. Tornam-se muito estranhos: ensimesmados, de olhar fugidio, aspecto bizarro, insensatos e incapazes de compreender outras pessoas.
     Nem se pode dizer que estejam sozinhos. Andam entre nós, podem viver no meio da multidão (muitas vezes de auscultadores e óculos escuros) ou no seio de uma família (dormindo em contraciclo com ela), podem mesmo ter encontros fugazes com os parceiros do outro lado das ondas hertzianas. Contudo, o encontro humano deixa de existir porque não mais estão de «olhos nos olhos». E, sem o olhar dos outros, nada somos."  pág.37
                                                                                                                   11/01/2008

Texto retirado da obra "Estranho quotidiano" de J.L Pio Abreu - D.Quixote/Jan.2010