quinta-feira, 1 de abril de 2010

Sugestão de Leitura - O CãO ANDALUZ

                                     Reading book by fire place smiley                               

"O CãO ANDALUZ" é a 3ª obra de ficção, escrita pelo ortopedista infantil e escritor, Jorge Seabra.
Editada pela Calendário de Letras em 2007, foi no ano seguinte que obteve o reconhecimento com o Prémio Literário Fialho de Almeida, uma distinção atribuída de dois em dois anos pela Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos.

Destaco então, esta obra como sugestão de leitura.
De surreal... pouco ou nada tem, a não ser o título inspirado no filme do Buñuel e Dali, como aliás, o autor fez questão de referir nas páginas finais, num diálogo entre duas personagens - o  inspector da PJ (Júlio Reis) e a sua mulher, Sofia.


«Lembras-te de O Cão Andaluz, do Bunuel e do Dali?
- Hum?
- Sofia fixava-o, sem compreender.
- Fomos vê-lo ao Cineclube, há muitos anos. O que desde logo se conclui é que não há cão nenhum. O título não tem nada a ver com nada. Anuncia o que nunca lá apareceu, o que nunca existiu(...). Para manifesto surrealista, podemos mesmo considerá-lo como demasiado, hum...realista. Porque, se pensarmos bem, o real é feito de imensas coisas que se anunciam, que parecem ser o que são, sem de facto o serem. Verdades ou construções tidas como tal, que não têm nenhuma sustentação no concreto. Pensamos que existem, mas não existem. São apenas suspeitas, ideias, que depois não se materializam. Não são nada.» (pág. 257-258)

Um livro policial, bem ao estilo do escritor e dos anteriores já editados, onde não falta também alguma dose de humor...
Dois acontecimentos marcantes: uma morte no passado, ocorrida em plena crise académica de 69, em Coimbra, e uma tentativa de assassinato no presente. Dois episódios distanciados no tempo, porém, ligados entre si através de laços afectivos que envolvem personagens.

Um livro que é, nas palavras de Jorge Seabra, "uma homenagem à amizade".
A amizade de infância entre Mário Faria e Luis Vale, é claramente evidenciada e valorizada ao longo desta obra.
O leitor conhece o início e acompanha a evolução desta relação. Sabe como termina e conclui afinal, que toda e qualquer amizade pode ser frágil, decepcionante e até desleal: «Sabia que a amizade tinha raízes complexas, não completamente compreensíveis e por vezes paradoxais que persistem no tempo e resistem a um desequilíbrio no balanço racional de virtudes e defeitos. Havia um tribunal afectivo que absolvia o erro e o integrava na tolerância de um sentimento prevalecente e favorável.» (pág.112-113)

"O CãO ANDALUZ" liberta "uma fragância temporal intensa". É uma viagem às memórias da infância, adolescência e juventude do autor, passadas na sua cidade natal - Aveiro.
« Era já ritual, uma tradição iniciada, um ida ao Cruzeiro da Ria. Além da regata, havia o convívio da natureza, as conversas na noite, palmilhando a pé a estrada até Ovar (...).» (pág. 39)
«Deixara Aveiro, a ria, o Liceu, os companheiros da vela e dos jogos(...). A sua ida para Coimbra, já despertava o orgulho da mãe(...). Com a mudança, abriu-se-lhe um viver novo(...)aguçou o interesse por tudo o que se passava no planeta(...)» (pág. 119)
Deste regresso ao passado, destaque para outros episódios vividos: as perseguições pela PIDE, a detenção em Caxias e a tortura do sono. A oposição a um regime ditatorial, infame e destruidor, pagava-se caro, porventura, com marcas na alma e no corpo, mas sempre resistindo.
«A vida continuava lá fora, e ele esmagado e só, com aquelas bestas que se iam revezando, sentadas a bater no tampo da mesa com a esferográfica(...). Quando o interrogavam, sentia que pisava terra mais firme, estava a ganhar, não respondia, ponto final.» (pág. 72). 
Nunca esquecendo o seu empenho pelos valores e direitos dos cidadãos, assumindo-se como um defensor activo da Liberdade, Jorge Seabra relembra que:
«a sua geração tinha sido sacudida nessa farsa de defesa da pátria, finalmente recolhida à Europa depois de Abril, como o devia ter sido antes, porque um povo de bem consigo não vive a dominar os outros» (pág.99)

E com esta grande verdade, vos deixo.
Boas leituras!
                                                                    (à venda aqui)

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