"Os dias talvez sejam iguais para um relógio mas não para um homem" Marcel Proust

Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

O "Espanta-Pardais" de Maria Rosa Colaço

Os autores dos manuais escolares lá vão introduzindo nos respectivos, muitos textos pertencentes a escritores portugueses de literatura infantil; uns interessantes, outros nem por isso.
Eu, que sou grande fã deste género literário, não podia deixar de escrever sobre um texto bem conhecido e bem expressivo também, de uma escritora que começou profissionalmente como enfermeira, passou pelo jornalismo e acabou no ensino como professora "primária".
Hoje, ao remexer nuns manuais, encontrei este texto retirado da obra de Maria Rosa Colaço, o "Espanta-Pardais".
Não sei porquê, mas sempre achei esta história bonita, sobretudo aquela expressão, "...caminhar na Estrada Larga".

     «Era um boneco humilde de quem a cegonha vaidosa fazia troça. Tinha dois grandes braços sempre abertos, um casaco de remendinhos de todas as cores, um cachecol e um chapéu preto com uma flor no alto.
     A única coisa que o Espanta- Pardais desejava na vida era, um dia, poder caminhar na Estrada Larga. Uma tarde em que estava farto dos dedos quentes do Sol, farto das mãos geladas da chuva, farto do silêncio e farto de estar sozinho, disse numa voz tão alta que as árvores estremeceram:
      - Estou farto! Pronto! Estou farto de estar aqui de braços abertos.
      - Com quem estás a falar, Espanta-Pardais?
      O boneco ficou muito atrapalhado ao ouvir aquela voz. Olhou, olhou devagar como se fosse um girassol, e qual não foi o seu espanto ao ver, sentada num molho de trigo, uma menina linda como a madrugada.
      - Então tu não me conheces?
      - Não, nunca te tinha visto.
      - Eu sou a Maria Primavera e venho aqui todos os anos. Mas porque estás a olhar para mim dessa maneira? Tenho cara de sapo?
      - És tão bonita, Maria Primavera! Donde vens? - perguntou ele, muito baixinho, cheio de vergonha e de ternura.
       - Eu venho da Estrada Larga.
       Ao ouvir este nome, o Espanta- Pardais estremeceu. Depois gaguejou:
       - Ah!... Da Estrada Larga!...Conta-me o que viste lá.
       E Maria Primavera falou das cidades de cimento com pássaros de alumínio voando no céu azul; dos homens que trabalham nas minas, no fundo da terra; dos jornais que davam notícias às pessoas; dos meninos que iam para as escolas, e falou sobretudo nos mares com peixes de madeira que levam homens e saudades.
       - Tu falas tão bem, Maria Primavera! E eu gostava tanto de ir contigo para a Estrada Larga!»
                                         
Maria Rosa Colaço (texto adaptado) - Espanta-Pardais - Edições Vega 2001
                              
À venda aqui  

4 Tempos:

Cildemer disse...

Faz-me lembrar o "magicien d'Oz"!

***
Beijos e bon fim de semana*******

joaommfafonso disse...

Como é bela esta história. Noutros tempos quando a meninice não se perdia com com mordomias dos tempos de hoje, eram doces as histórias contadas pelos nossos avós e pelos pais.Uma vida construída com "raízes" que o tempo nem o vento derrubam.

Cromos disse...

Ainda hoje somos "crianças" que nos deixamos arrebatar por uma boa história.

Maria João Carvalho disse...

adoro a história que tu retiraste do espanta-pardais.

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